A Cidade do Cabo

Com os Olhos Bem Abertos

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Fonte: Unplash. Foto de Biel Morro.
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Cada lugar para o qual a gente viaja é como uma parte de nós esperando para ser descoberta. Talvez a gente não saiba com certeza o que nos atrai para determinados destinos. Um amigo dá algumas dicas, os bilhetes entram em promoção, o pacote de viagem simplifica a escolha, ou então nossos parceiros de vida se mudam e nos convidam para ir junto. A gente pode pensar que foi por acaso. Será mesmo?

A Cidade do Cabo, desde que vim pela primeira vez, me atraiu mais do que qualquer outro lugar do mundo (literalmente). Já na minha terceira vinda, eu começo a entender o porquê.

São mais de 11 idiomas oficiais, se isso te dá uma pequena ideia da complexidade e da diversidade cultural. Depois de passar três meses aqui – em seis bairros diferentes – eu conheci pessoas de culturas e estilos de vida tão diversos que eu não poderia dizer “ah, a Cidade do Cabo é assim” ou “ah, os habitantes do Cabo são assado”. Não. A Cidade do Cabo transborda todas as caixas que tentamos impor a ela: é misteriosa, cativante e convidativa. Ela é tudo isso e ao mesmo tempo…

… Foi na África do Sul que o regime inconcebível do apartheid transformou o racismo em lei, e isso também transborda da memória (e atitudes) coletiva(s). Crianças e adolescentes crescem ouvindo histórias (ou a resignação silenciosa) de pais e avós sobre como a vida era naquela época.

O apartheid terminou apenas em 1994 – ano em que o Brasil foi tetracampeão na Copa do Mundo de futebol masculino, lembra? – e as consequências da segregação ainda são impressionantes. Os trens – do estilo CPTM de São Paulo – ainda possuem divisão entre primeira e terceira classes! Sendo branca aqui – quando uma minoria branca destituiu os direitos e oportunidades de tantos – eu sinto na pele a animosidade que talvez no Brasil nunca tenha notado (embora a nossa história de discriminação também tenha durado décadas).

Então, por que é que eu continuo voltando e me apaixonando cada dia mais – com os olhos bem abertos – por este lugar? Se for para falar três motivos (que com certeza não esgotam todos), eu vou te contar estes aqui:

Apreciar a Beleza

Este lugar é maravilhoso, sim. Ponto. E é também um dos recém-descobertos paraísos de turistas brasileiros! As belezas naturais são só o começo: no ano passado, pelo menos dez praias tiveram classificação internacional ‘Bandeira Azul’, que combina segurança, infra-estrutura, limpeza e segurança ambiental. Os turistas brasileiros que eu recepciono ficam de boca aberta com a infra-estrutura de transportes, limpeza e organização da cidade!

A vida cultural e de aventura também ultrapassam expectativas, até mesmo as de quem mora aqui há anos. Um expatriado da Suíça, que se mudou para cá há mais de cinco anos, criou um álbum de fotos intitulado: “If it seems too good to be true, it is usually Cape Town”, isto é, “Se parece bom demais para ser verdade, provavelmente é na Cidade do Cabo!”  Isso porque a gente nem falou ainda das montanhas, concertos ao ar livre, festivais, etc, etc, etc. (Aguenta aí que eu conto mais em um próximo post!)

Sentir Intensamente

Ao mesmo tempo que a beleza é espalhafatosa, ela vem acompanhada de sentimentos fortes de exclusão, mágoa, culpa, tristeza, ódio, encontro, decepção e superação. Dá para dizer que é fruto do apartheid? Em parte, é claro. Tem muita coisa que ainda não foi resolvida, como a restituição ou reparação dos bens e oportunidades que foram tomados de quem não era branco.

Mas tem dois outros aspectos que eu acho fundamentais:

A cultura de ‘tribos’ é fortíssima na África como um todo. Vamos lembrar que quem “dividiu” a África em países foram os europeus, e as fronteiras não demarcavam necessariamente os povos, culturas e relevos em questão. Por isto você vai perceber que o sentimento de pertencimento vem mais das origens ancestrais da pessoa que de uma ideia do que ser ‘sul-africano’ seja. As identidades (de culturas, grupos e indivíduos) são bem demarcadas e cada um defende com unhas e dentes a sua. Isto é, claro, gera alguns conflitos…

Outra coisa é que a região do Cabo não tem uma história de ‘pertencer’ a ninguém. Os povos tradicionais daqui – khoi e san – eram nômades, ou seja, esta região tinha o costume de ser “terra de ninguém e terra de todo mundo” (cada vez menos com o mercado imobiliário explodindo… mas isto também é matéria para outro post!) e a maioria de – senão todas – as culturas que chegaram aqui depois dos povos khoi e san – se acharam no direito de ‘tomar posse’ (é, não vai achar que territorialismo é coisa só de europeu). E isto esquenta as coisas!

Criar Movimento

Por isto talvez é que eles precisem de movimento. Para não generalizar a África toda – nem a África do Sul toda – as pessoas que eu conheci aqui mantém a habilidade de sentir intensamente, e não só racionalizar o que está acontecendo. Por isto talvez eles saibam expressar os sentimentos que surgem (ainda que muitas vezes apenas dentro dos seus grupos). A raiva vem e vai, a gente respira, dança, canta e é capaz de ver de novo o céu azul.

Enquanto a minha experiência no Brasil é a de que muito das animosidades são veladas e as pessoas não falam abertamente sobre racismo, por exemplo, aqui as discussões são – possivelmente até de forma exagerada – questionadas em termos de cor da pele. Esse diálogo, ainda que ele aconteça pouco entre os diferentes grupos, na minha opinião, vai permitindo que as pessoas deixem de lado os preconceitos umas com as outras. As discussões podem ser como uma tempestade – daquelas que deram o nome ao Cabo das Tormentas – mas porque elas acontecem, elas também passam (e no dia seguinte a gente chama o mesmo cabo de Boa Esperança!)

Brincadeiras com nomes à parte, o que eu percebo é que esta terra me atraiu por isto: por me ajudar a questionar minhas próprias verdades e a me manter curiosa sobre outras formas de ver o mundo, por me ajudar a encarar a dura realidade da vida e a descobrir que quando eu olho para os meus medos e dores surge espaço para a beleza, por me ajudar a encontrar um novo ritmo e a dar movimento à vida.

Por que eu estou te contando tudo isto?

Se você me pedir alguma recomendação de viagem, eu vou ter pelo menos uma: Vá para onde o seu coração se sente vivo. Estar vivo não significa sempre estar bem. Às vezes é caótico e confuso.

Se você pensar em vir para a Cidade do Cabo, deve saber isto: que uma parte de você ridiculamente linda talvez esteja obscurecida por muitos sentimentos que não estão fluindo.

Mas pode ficar tranquila, quando você entrar no ritmo desta galera que acorda com o sol, assiste a ele se pôr, toca djembe – um tipo de tambor originário do Oeste da África que se toca direto com as mãos – dança, surfa e muito mais… as águas do seu oceano também vão começar a se mexer. Aí vai ter espaço para a beleza magnífica ao seu redor vir à tona. Quem sabe até você se sinta capaz de levar este aprendizado para outros lugares!

E aí, se arrisca?

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