A importância da música no Brasil e na Áustria

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Fonte: Pixabay
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Ainda tenho um cacoete muito forte em estabelecer comparações entre o Brasil e a Áustria. É inevitável, pelo menos para mim.

Dentre tantos temas os quais já fiz isso, a música é algo que me intriga. Sim, porque tanto lá no Brasil, como aqui, temos excelentes músicos, cantores e compositores. Talentos há de sobra nesses dois mundos.

O que nos diferenciaria, então, se o produto, “música”, é entregue de forma parelha nos dois países?

Convido vocês a me ajudarem a resolver mais esse “angu” em que me meti.

Como é na Áustria, onde vivo atualmente:

Capital mundial da música clássica. Strauss, Mozart, Mahler, Haydn são alguns exemplos de filhos ilustres que se tornaram ícones da música erudita. E toda essa produção, em muito, era fomentada por conta de o país ter sido um imenso império até sua queda na Primeira Guerra Mundial. A nobreza precisava de divertimento, os salões requisitavam vida, cores, dança e conchavos políticos. Era assim em tempos remotos!

Muito que bem, mas é só de música clássica que vive a terra de Mozart? Não, obviamente que não, e até no baile oficial mais famoso do país – o Baile da Ópera – há diversos ambientes onde se pode passar a noite curtindo os mais variados estilos musicais. Não há discriminação de gêneros, aceita-se toda a espécie de boa música e essa é, também, a mentalidade do povo em geral.

Não esqueçamos também dos Meninos Cantores de Viena, instituição criada pelo Imperador Maximiliam I, em 1498, que treina meninos na arte do canto há 500 anos. Deixo um breve resumo da sua história aqui em inglês.

Como programa nacional de ensino público, as crianças iniciam seu estudo de música no Jardim de Infância e terminam lá no fim do Segundo Grau. Esses estudantes, portanto, têm excelente noção teórica e prática sobre a matéria. E trago algumas curiosidades a esse respeito: 1) Primeira vez que fui a missa na Áustria, surpreendi-me com o livro de cantos, pois trazia as notas musicais junto a letra. E o óbvio: o povo cantava a melodia uniformemente, vez que a grande maioria das pessoas, por conta do ensino formal que recebeu, tem noção de como se lê uma partitura. 2) Até mesmo os livrinhos infantis trazem a partitura para que se cante a musiquinha de modo igual e correto. Até as crianças, que já têm contato com a teoria musical, podem ler uma partitura. Eu, não! Frustrações à parte, são comprovados os benefícios do estudo da música e, quanto mais cedo se iniciar, melhor (leia aqui).

Música pra esse povo é coisa séria, é marca registrada do país e os cidadãos precisam conhecê-la de forma, no mínimo, satisfatória.

Fonte: acervo pessoal

Como é lá em casa, no Brasil:

Ainda no peito e na raça, mesmo com a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas ter sido reintroduzido nos currículos a partir de 2008!

E quem viveu no período anterior? Como a minha geração, por exemplo, como fazia? 110% no peito e na raça!

Tenho um amigão – irmão de alma, na verdade – que, com seus colegas, faz um som “afuzel”, como nós dizíamos no nosso tempo de colégio (pra não dizer o nome feio mesmo). Tudo começou, para ele, na faculdade de Medicina Veterinária. Lembro dos ensaios na casa da mãe dele e da surpresa que tive quando, pela primeira vez, ouvi o Luciano cantar. Não conhecia esse talento dele até então. Fomos colegas no segundo grau, e eu jamais havia ouvido um “larará” dele até aquele dia. Fosse na Áustria, já teríamos descoberto há muito tempo! Mas não foi. Quando ele rasgou o salão com “Have you ever seen the rain” em uma festinha para a galera da Vet e convidados, arrepiei! Não só a voz, mas o acompanhamento todo de banda. Os guris se “puxaram” – e é aqui que digo que não há diferenças entre um país e outro -, ou seja, se dedicaram ao máximo e com sucesso, mesmo para algo que, atualmente, é um hobby.

A IVZ (nome da banda, que significa Inspetoria Veterinária e Zootécnica), foi formada em 2006 – quando os integrantes passaram no concurso para veterinários do Estado do Rio Grande do Sul -, sendo, portanto, seus membros 100% veterinários: Luciano Chaves (voz e gaita de boca), Fernando de Azevedo (bateria), Richard Alves (baixo), Eduardo Deberaldini (guitarra e voz) e Bernardo Todeschini (guitarra e voz), além de covers têm também seu acervo próprio de composições, num estilo crítico e irreverente aos moldes da influência do rock gaúcho anos 80 (Cascaveletes, TNT, dentre outros) e dos grandes do rock mundial.

Deixo uma tomada de estúdio que fizeram com música própria. Crítica escrachada ao modelo de imigrante, descendente de italianos do interior do Rio Grande do Sul, que não evoluiu ao longo dos tempos e não faz nenhuma questão de evoluir e faz, e pensa, as mesmíssimas coisas por quase um século e teima em estar certo, situação vivida na pele pelo próprio vocalista quando na região trabalhou e enfrentou muitas resistências na implantação de melhorias ou sugestões no dia a dia com o trato dos animais. A banda segue firme e forte nos dias de hoje. No peito e na raça. Vale conferir.

E aqui, me questiono de novo: como teria sido a trajetória desses guris se tivessem tido acesso à música nos bancos escolares? São amadores, fazem por hobby, ok, mas mesmo sem conhecimento teórico, o som não é de se jogar fora! E quem curtir também levanta o polegar!

Quanta gurizada, pelo Brasil afora, que realmente queria seguir a carreira profissional, não ralou a alma por um lugar ao sol? Quanta grana de pai, de mãe e de vó e vô não foi investida em sacrifício, em batalha pelo talento dos filhos e filhas? E quantos não desistiram por falta de oportunidade? Quantos talentos se deixou de identificar e direcionar corretamente?

Acho que estamos quase lá na conclusão do meu “angu”. Atrevo-me na resposta: como conhecedora dos dois mundos, Áustria e Brasil, quanto ao produto final não há diferença.

O diferente está em como ambos países fazem para se chegar até esse produto final.

Aqui, na terra de Mozart, o estímulo público ao estudo da música proporciona, além dos benefícios pedagógicos, uma bagagem cultural rica e diversificada. A consciência se expande e não retorna mais ao mesmo tamanho. Outra função da escola que percebo aqui é o olho aguçado dos educadores na detecção dos talentos e recomendação para que se desenvolvam de forma específica, se for vontade do aluno. Há colégios cujo carro-chefe é a música, há academias de talentos, onde se pode matricular a criança para aperfeiçoamento daquela habilidade em especial, e tudo público. Há todo um movimento de educadores, Estado, famílias, sem a necessidade de sacrifícios ou dispêndios e existem locais para onde esses talentos possam ser plenamente desenvolvidos.

No Brasil, percebo a luta heroica, diária, dos educadores públicos que até detectam os alunos com maiores habilidades, mas não vejo, na mesma proporção, a existência de instituições públicas de apoio para onde essas crianças possam ser encaminhadas. Não conheço, por exemplo, na minha cidade, Porto Alegre, uma academia de talentos pública, onde os estudantes possam, em paralelo com a escola regular, desenvolver seus dotes musicais. Se houver, por gentileza, me corrijam!

Um recente exemplo é o vídeo de um rapaz que, conforme relata a moça que fez a gravação, nunca teria estudado música, mas ao tocar o piano de uma loja, encantou os passantes. Se é verídica a história, não sei, mas no nosso Brasil, não é improvável. Confira aqui. Onde estaria esse rapaz se tivesse acompanhamento musical desde o Jardim de Infância, por exemplo?

Acho que acabei de matar a charada do “angu”: como já referi, talento e vontade existem de sobra em ambos países. O que nos diferencia unicamente é em como esse talento e essa vontade se transformam em realidade artística: para uns, através do ensino e do aparelho estatal; para outros, através de muita batalha, esforço e, muitas vezes, de financiamento próprio.

Se não concordarem comigo, podem replicar!

Até a próxima!

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Ana é gaúcha de Porto Alegre e advogada. “Escrevinhadora” por aventura; curiosa e analítica por hobby, está escrevendo seu primeiro livro. Acostumada aos 15 anos de correria profissional, quando chegou à Áustria, em 2012, precisou aprender a desacelerar: e, morar em um lugar que é destino de férias para muitos, ajudou bastante. Com outro olhar e outra alma, o mundo passou a ser visto através de cores, de cheiros, de sons, de sabores e de imagens maravilhosamente desconhecidos. Mora na Áustria com o marido e o filho.

4 Comentários

  1. Entendo e concordo com você. Esse angu é difícil de digerir…
    Tive uma educação diferenciada da maioria dos brasileiros por causa da sabedoria dos meus pais. Cresci estudando piano, línguas e dança – além do tradicional currículo escolar – porque eles me diziam “você tam que saber se comprotar em qualquer lugar”.
    No entanto sofri muito quando aos 17 anos percebi que se meu sonho era ser bailarina clásscia profissional eu deveria deixar o Brasil.

    • Alô, Fabiola.

      Obrigada por ler e comentar.

      Infelizmente, parece que nosso sistema “joga contra”, não é? Todo um excelente investimento que teus pais fizeram para, ao fim e ao cabo, culminar com a tua possível saída do país para exercer o que gostarias.

      Espero que tenhas encontrado teu caminho profissional, independente de estares no Brasil ou fora dele.

      Tenhamos esperança de que as coisas no Brasil um dia melhorem.

      Grande abraço.

  2. Olá Ana! Adorei te ler…
    Meu filho irá fazer um intercambio na faculdade de Leoben e gostaria muito de saber algumas dicas de custo de vida. Gostaria de saber tb. a respeito de acolhimento por parte do povo, enfim, é um mundo novo que ele irá desbravar e toda e qualquer dica é super válida. Obrigada desde já.

    • Alô, Marília.

      Obrigada por ler e comentar.

      Que bom que teu menino virá fazer intercâmbio. É, sim, um mundo bem diferente, mas nada que assuste. Pode ficar tranquila.

      Os maiores custos de vida em território austríaco estão em Viena e Salzburg. Como teu menino vai prá Estíria, fica dentro do aceitável. Em Viena, por exemplo, uma família de 3 pessoas como era o nosso caso quando morávamos lá, consumia em torno de 100 Euros/mês para energia já com aquecimento incluído; 200 Euros/mês de despesas com alimentação e 350 Euros/ANO com um cartão de transporte para mim, já que meu marido precisava do carro por conta do trabalho e na cidade de Viena eu não precisava de carro, porque o sistema de transporte é excelente. O valor do aluguel era alto (1.110 Euros/mês), mas o apartamento era bastante grande, por isso o preço. Creio que não será o caso do teu menino, justamente porque não estará em Viena e porque não precisará de um imóvel tão grande.

      Deixo dicas dos supermercados mais em conta e, principalmente, ficar atento aos prospectos que chegam pelo correio com propaganda dos produtos e muitas promoções dos mercados. É muito comum a gente seguir as ofertas pra economizar.

      Hofer/Penny/Lidl – esses 3 são supermercados desconto: encontra-se bastante variedade por preços bem em conta. Eu diria que são os campeões de preços bons.

      Billa/Merkur – são os supermercados que têm bastante propagandas de oferta, mas não são desconto (os desconto operam valores baixos por padrão de política de preços). Nesses 2 se encontram mercadorias comuns e também as diferenciadas, inclusive cachaça brasileira. É necessário, entretanto, atenção para não se passar no bolso.

      Aqui, supermercados de preços baixos não significa que vendam mercadoria de baixa qualidade. Esse conceito não funciona aqui. Eles conseguem vender em bom preço porque são redes comerciais imensas, podendo oferecer um preço diferenciado.

      Quanto a receptividade do povo é totalmente diferente do que conhecemos no Brasil. Será muito raro que lhe convidem pra visitar a casa na primeira semana, ou nos primeiros meses. A grande maioria do povo é muito educada, mas as demonstrações de afeto são diversas se formos comparar com as nossas. Mulheres que logo se conhecem não se beijam, apenas apertam a mão; não existem abraços apertados para quem mal se conhece. Não. Eles preferem conhecer a pessoa primeiro, e depois sim, chegarão os convites para visitar a casa e os abraços. Respeitar a cultura deles é um sinal muito positivo. Não precisa gostar, mas respeitar já é um bom passo e respeitar horário também (hehehe). Aqui, 5 minutos é atraso. A sociedade é bastante mente aberta e multicultural, portanto, aqui é exceção, por exemplo, críticas a homossexuais, preconceito ou pré-julgamentos de qualquer ordem.

      Creio que no ambiente universitário isso tudo seja um pouco mais flexível.

      Espero ter ajudado e sucesso para o teu menino!

      Abraço.

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