A nossa casa é onde a gente está

É de carne e osso e é em todo lugar

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– Você se sente em casa aqui no Brasil?

Com uma mochila pesada, uma quentinha abafada, um fone de ouvido que me conhece melhor do que o Ista e um livro nas mãos, decidi pensar profundamente nessa questão.

Não me sinto em casa. Estaria eu sofrendo da doença que critico chamada Insatisfação Crônica?

Mas não seja você o insatisfeito da rodada, tente não julgar minhas palavras precipitadamente. Pegue uma taça de vinho ou chá (ambos fazem bem pra alma), sente-se, certifique-se de que está confortável e volte para o texto.

– Não, eu não me sinto em casa, mas isso não é uma afirmação negativa.

Casa, um conceito antigo que define território. Um teto com comida, carinho e uma comunidade que nos reconheça como membro dela. Buscamos isso quando mudamos de bairro, cidade ou país, porém somos uma humanidade obsessiva por essa, digamos, bolha controlada.

Depressão, tristeza e melancolia nos acompanham quando saímos da casa e vamos para o mundo, para o novo. O que olhamos não reconhecemos, quem nos vê não sabe daquilo tudo que somos e fizemos.

– Seria esse o fim da felicidade?

– Calma, é só insegurança. Em muitos se torna crônica, em poucos se torna vício.

– Em mim? Se tornou enfim o reconhecimento da impermanência nos lugares e no mundo.

Meu tempo e espaço são outros.
Minha relação com a escrita é outra.
Minha relação com o lugar que moro é outra.

Casa é muito mais do que quatro paredes, geladeira cheia e vizinhos conhecidos. A minha é profunda, sensível e única. Ela muda de cor, temperatura e móveis todos os dias, abriga todos os seres do mundo, verdes, de pelo e de pele, é levada para onde e quando eu quiser.

– A minha casa sou eu.

Arnaldo Antunes diz, “a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar. Nossa casa é de carne e osso…”.

Não precisamos nos sentir em casa quando mudamos, sem pressão meu irmão. Sem expectativa, minha vida. Seja mais mole contigo.

Clichês são clichês porque são f*, e como diz um deles: aquieta o que está dentro que tudo se transforma por fora.

O tempo, a arte e os espaços são vistos e vividos de infinitos ângulos. Fique nu, tire suas opiniões formadas. A liberdade é desconfortável mas te liberta. Respeite o que te faz inquieto.

Seja mais um de nós, os não adaptados do mundo. Olhe de dentro para fora antes de bater seu martelo e pedir que se calem. Não siga um fluxo óbvio, questione, mude, dê uma chance, aproveite o desconforto, pense no diferente com o mesmo amor que pensa em quem conhece até do avesso.

Eu tenho medo de quem não ama, de quem sabe de tudo e de quem só reclama. Eu tenho medo de quem ignora e prefere nem ver para não sentir. Eu tenho medo de quem aponta o outro, de quem tem regras claras, de quem não sabe ouvir. Eu tenho medo de quem não gosta de vários e de quem ama só quem conhece. Eu tenho medo de quem odeia críticas e de quem quer tudo pra si.

– Com tanta coisa pra temer, iria eu temer o novo? O recomeço?

Estou em paz com as minhas malas. Hoje sou eu mesma, e não o que tenho ou aonde estou. Precisei esperar bons anos para enfim aprender a voar, mas minhas asas estão nos pés e no coração.

– Se eu estou adaptada no Brasil?
– Nunca, mas o melhor lugar do mundo é aqui e agora*!

*frase retirada da música de Gilberto Gil.

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