A vida do imigrante ilegal na Alemanha

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Fonte: Pixabay.com
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Está enganada a pessoa que imagina ser fácil a vida de imigrante indocumentado. Na Alemanha, não há um número definido de ilegais vivendo no país, mas estima-se que sejam milhares. Geralmente são africanos, russos, latino americanos e árabes oriundos do Oriente Médio. Eles são chamados de “Pessoas Sombras” justamente pelo fato de viverem escondidos da sociedade local. Com o passar do tempo, os indocumentados costumam desenvolver uma espécie de síndrome de pânico ou mania de perseguição, chegando a desconfiar até de seu círculo de amigos.

Viver na clandestinidade é sentir medo de atravessar um sinal de trânsito vermelho, com receio de ser pego em uma revista policial, de reclamar com as autoridades caso sofra um assédio sexual, de contradizer qualquer condição ruim de trabalho para receber uma remuneração normalmente abaixo do mercado, de ficar doente e relutar em ir ao médico, ou de visitar parentes e não conseguir retornar. São pessoas que se esforçam para aparentar ter uma vida normal e assim evitar que alguém desconfie e denuncie.

De acordo com o jornal alemão Welt, a maioria vem com visto de turista e acaba ficando mais de três meses, sem permissão. Com isso, fica dependendo de amigos ou contatos para viver em suas casas ou para alugar apartamentos usando seus nomes. Sem visto, não é possível abrir nem conta bancária e as transações feitas pelos ilegais para seus países são feitas por meio de redes como a Western Union. Caso seja necessário fazer alguma transferência bancária para um órgão do governo, mais uma vez seus amigos e contatos entram em ação. É preciso confiar a vida em terceiros.

Há dois problemas maiores em não ter o visto por aqui. O primeiro é com relação à saúde. Caso o imigrante ilegal fique doente, além de não ter seguro de saúde, corre o risco de ser denunciado pelo médico às autoridades. Entretanto, os médicos, dentistas, parteiras, cuidadores, hospitais (e até veterinários) têm que, por lei, manter segredo sobre a condição dos pacientes bem como seu endereço. Na realidade, pelo que já li e ouvi aqui, os funcionários de saúde têm obrigação de atender o paciente em casos de emergência. Se o paciente ilegal procurar o governo para uma ajuda financeira a fim de pagar o médico, aí sim poderá ter problemas com relação a sua situação no país.

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O segundo problema, talvez o mais significativo, é o trabalho. Não ter visto válido é não ter permissão para trabalhar. Qualquer empregador que contrate um imigrante sem o visto está facilitando o trabalho ilegal, o que é uma infração. Isto também é válido para famílias que contratam um imigrante ilegal para serviços de limpeza, por exemplo. Alguns conseguem trabalhar ilegalmente nas áreas de gastronomia (restaurantes, sorveterias e etc.), faxina ou como babás.

A realidade é dura para muitos imigrantes ilegais (Foto: Pixabay.com)

Muitos acabam infelizmente caindo na criminalidade e, algumas vezes, sem local para morar. Existem histórias de imigrantes que vivem nas ruas, tentando encontrar locais para passar as noites escondidos. Durante o dia, andam de um lado para o outro para mostrar certa normalidade. Ser pedinte é algo que chama atenção para si, o que os imigrantes ilegais em geral evitam.

A Alemanha tem modernizado o seu sistema para descobrir as pessoas que vivem sem visto no país. Porém, algumas organizações estão à disposição para ajudar, com atendimentos médicos para pessoas sem seguro de saúde, quem queira enviar os filhos ao colégio, e ainda, em casos de violência, problemas no trabalho e moradia. Deixo aqui dois links para ajudar os que estão em uma dessas situações: Malteser (atendimentos médicos, sem cirurgia) e a Kein Mensch ist illegal (outros atendimentos aqui mencionados).

Uma vez vivendo como “sombra” na sociedade, o imigrante tende a se isolar, passa a aprender a língua alemã apenas pela televisão, sofre de ansiedade e preconceito. Provavelmente, viverá em bairros mais degradados, nos quais os donos de imóveis não investem.

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Segundo um trecho do livro “Gespenster der Migration” (Karakayali, Serhat), os imigrantes estrangeiros chegaram a ser usados por donos de casas nas partes mais antigas das cidades. De acordo com o autor, as casas que ainda tinham boa estrutura, mas se mantinham como barreira no caminho, em uma época de interesse na compra dos terrenos, sobreviveram no local quando seus donos as alugaram por preços mais baratos, devido às suas más condições, para os imigrantes. Com esta relação de aluguel, os donos conseguiram na justiça manter as casas. Hoje, muitos desses bairros são considerados guetos, onde praticamente a maioria é de imigrantes. Foi uma forma destas pessoas estabelecerem naquele grupo uma certa solidariedade, mas que com o passar dos anos criou uma segregação, isto é, uma divisão social entre imigrantes e povo local.

Se nos baseamos em acontecimentos antigos ou os mais recentes, como a chegada de muitos refugiados, imigrantes e entre eles, os ilegais, é possível notar que a dificuldade de uma vida clandestina na Alemanha é maior do que se imagina a princípio. Sair dela também pode exigir muita coragem e esforço. Acontece também de muitos não divulgarem aos próximos que vivem nesta situação e que a dificuldade existe. Claro que os documentos das pessoas não são exigidos todo dia nas ruas, mas viver sempre nesta sensação de ameaça não é agradável. Se você vive desta maneira, reflita um pouco nas chances de mudanças. Com ou sem documentos, nós todos temos o nosso valor. Reflita sobre as prioridades. Se você pensa em tentar viver assim, não comece seus planos imaginando que com você será diferente, é melhor se preparar para uma realidade nada confortável e segura.

2 Comentários

    • Olá Julimar!
      Primeiro de tudo, é necessário falar pelo menos o básico do alemão e/ou inglês (se for aceito pela empresa).
      O nome desse trabalho em alemão é Baggerfahrer. Na internet é possível pesquisar por empregos nessa área, mas os sites para contato são todos em alemão. Um exemplo é o da empresa Spitzke, localizada em Bochum. A experiência em Boston pode ajudar também, fora os seus vários anos de atividade. Tem que traduzir para alemão seu currículo, preparar uma carta de apresentação e enviar junto alguma carta de indicação de um antigo chefe, pelo menos.
      Boa sorte na busca!

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