Afinal, quem não tem saudade?

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fonte: arquivo pessoal
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Quando a gente mora fora, a gente pode dizer que entende bem sobre saudade. Saudade não é necessariamente ruim, não é sofrimento, não é angústia e nem nostalgia. Pode ser também, mas, para mim, não é. Saudade pode ser bom, saudade pode ser a certeza de que você tem pessoas queridas que torcem por você onde quer que você esteja.

Uma vez li um artigo que tentava explicar o significado da palavra saudade na língua inglesa e a melhor descrição que encontraram para ela seria: a presença da ausência. Fiquei pensando sobre isso. A saudade é algo indefinido que ocupa o lugar de alguém que está longe ou já se foi. Saudade é basicamente querer abraçar, mas não poder.

Saudade é falar com a família todos os dias como se estivéssemos sentados à mesma mesa. É conversar sobre as pequenas coisas do cotidiano, como falávamos antes. Saudade é receber mensagens dos sobrinhos querendo saber até quando fico por aqui. Saudade é perceber que você faz falta na vida deles quando te ligam querendo contar sobre um dia difícil. Saudade é contar para as irmãs sobre uma pequena conquista e elas comemorarem como se fosse algo grandioso.

Saudade é enfrentar o fuso horário e segurar os olhos abertos tarde da noite para conversar com quem você ama sobre os assuntos mais corriqueiros possíveis, seja a boa nota na escola, a aula de natação, o dia que teve febre, a cartinha que escreveu.

Saudade é falar com as amigas naquele grupo de whatsapp e sentir que nada mudou desde a época da faculdade. É saber das novidades e vibrar junto quando as vitórias chegam. É ler as mensagens lembrando da voz de cada uma delas e da forma como se expressam. Cada uma com seu jeito próprio de ser:  a objetiva, que diz o que pensa sem rodeios; a sonhadora, que fala da vida com muita paixão; a pé no chão, que traça metas e as cumpre de forma muita bem planejada; a cuidadora, que se preocupada mais com os outros que com ela própria.

Saudade é participar de tudo à distância, mas mesmo assim participar, seja da vida do outro que está mudando de cidade ou mudando o corte do cabelo, é participar das decisões e também das indecisões, das crises, dos devaneios e daqueles momentos que ficamos completamente sem chão.

Saudade é ouvir alguém chorando do outro lado do telefone, engolir o choro e dizer para ela aguentar firme porque estou feliz aqui, mesmo estando tão longe.

A saudade também tem suas variações, tem as amigas do antigo trabalho que aos poucos vão mudando de emprego, casando, planejando filhos e marcando encontros sem você. Mas o coração fica feliz ao receber aquela foto do encontro dizendo que você fez falta, que faltou aquela sua piada boba naquele momento estratégico.

Tem aquelas pessoas queridas que não falam com você todo dia, mas estão sempre presentes de alguma forma. Vez ou outra mandam mensagens, demostram carinho, contam sobre o emprego novo, o namorado, uma briga, uma conquista ou simplesmente dizem “estarei sempre aqui quando você precisar”.

A saudade também tem intensidades, no aniversário ou no Natal ela aumenta, porque são momentos que normalmente estamos muito próximos daqueles que amamos. O Natal pode acabar sendo um momento bem nostálgico, porque nessa época dá saudade das nossas tradições de família, do amigo x, das brincadeiras, das comidas, do vídeo com as crianças, das trocas de presentes, da árvore que deve ser a mesma há uns 10 anos, de todo aquele clima natalino que é uma delícia.

Saudade é uma palavra nossa, só nossa. Quando me perguntam aqui onde vivo se sinto falta da família, sempre penso que a palavra certa é saudade, sinto saudade, não é apenas sentir falta, é sentir saudade.

Saudade mesmo é a gente escrever sobre esse assunto lembrando carinhosamente de cada um que faz com que a saudade do dia a dia seja boa, saudável e potencializadora.

Saudade é você ter a consciência que esse sentimento jamais terá fim, se você voltar para seu país de origem vai sentir saudade das amigas que deixou pra trás, assim como sinto saudade dos amigos daquela cidade portuguesa que morei, dos amigos do Rio, do mestrado, da ONG, do Centro de Convivência, da Igreja e de tantos lugares que frequentamos e que depois por algum motivo temos que deixá-los.

A saudade não surge porque nos afastamos das pessoas, porque não nos distanciamos daqueles que amamos, estamos apenas longe fisicamente, bem longe. Ter saudade não quer dizer que as coisas não andam bem, pode significar exatamente o contrário, quando você experimenta algo legal, uma comida exótica, um lugar paradisíaco, uma experiência nova e na hora você pensa que mais gente adoraria e deveria vivenciar aquilo ali também.

Saudade quer dizer que as companhias eram e são boas e que de alguma forma elas continuam por perto, isso faz com que a saudade seja sempre uma eterna companheira esteja você onde estiver.

Já estamos em dezembro, o Natal se aproxima, o coração vai apertando e a gente vai controlando como pode, afinal temos que assumir nossas escolhas e compreender que a saudade faz parte dela.

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