Alemanha – O aparato da saúde à disposição da gestante: parte 2

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No texto anterior  descrevi os diferentes serviços à disposição da gestante durante seu pré-natal e as diferentes funções do médico e da parteira dentro do sistema de saúde alemão. Agora o foco está no parto, nos possíveis lugares à sua disposição para dar à luz ao seu bebê e suas particularidades.

O hospital

De longe, o hospital é o lugar mais escolhido pelas alemãs para o nascimento dos filhos. Em 2015, 95% dos bebês nasceram em ambientes hospitalares e, de maneira geral, pode-se dizer que os serviços oferecidos à disposição na hora do parto são os mesmos na maioria dos hospitais. A diferença está na presença de um especialista em bebês prematuros, uma UTI-Neonatal e, claro, a política interna da equipe médica. Mensalmente ocorre a Infoabend (noite de informações) que é oferecida pelos hospitais aos pais grávidos. É uma ótima chance para visitar o lugar onde você terá o primeiro encontro com seu bebê.

Em 2011 quando dei à luz a minha filha mais velha, eu e meu marido optamos por um parto hospitalar. Tivemos a sorte te ter acesso a um hospital antroposófico. A diferença está em junto à medicina convencional haver a base holística no acompanhamento dos pacientes. No meu caso, isso foi importantíssimo, pois na época pudemos esperar pelos sinais do bebê para sua chegada – que veio com grande “atraso” para os olhos médicos: 42 semanas + 4 dias (40 semanas é o “normal” para a maioria dos médicos). A indução que recebi foi através de homeopatia, massagens e acupuntura. Em hospitais tradicionais essa possibilidade é raríssima.

O parto na Alemanha costuma ser muito medicalizado. Segundo os dados de uma pesquisa de 2004, somente 6,4% dos partos que aconteceram naquele ano puderam ser vivenciados sem nenhum tipo de intervenção médica. As intervenções mais frequentes são: anestesia peridural, episiotomia, indução do parto, exames de toque, ruptura artificial da bolsa, fórceps, a própria cesária, dentre outras.

O amor pela nossa cria faz surgir um enorme instinto de segurança, materno e paterno. Queremos o melhor e o mais seguro para nossos filhos. Esse é o principal fator que levam os pais a escolher o hospital para o momento do parto. Mas por incrível que pareça, a própria Organização Mundial da Saúde reconhece o parto domiciliar como o mais seguro para a saúde e integridade tanto da mãe quanto do recém-nascido – e não o parto hospitalar, como muitos creem. Respeitar essa legítima necessidade de segurança é muito importante. Porém, faço um convite a uma reflexão por meio de duas perguntas: Será que a necessidade de segurança só pode ser suprida de fora (pelo médico, pela tecnologia) e não pode ser de fonte interna? Como está a conexão e confiança com meu corpo e com o meu bebê?

Se mesmo assim você ainda prefere dar à luz no hospital, mas também gostaria de um pouco mais de cuidado e atenção exclusivas (pois no hospital, além de você, as parteiras e médicos terão várias outras parturientes ao mesmo tempo), você tem duas opções: uma é procurar uma “parteira especial” (Beleghebamme) que além de fazer partos domiciliares, ela tem um contrato com alguns hospitais e pode te atender nessa estrutura hospitalar. É assim: o seguro de saúde cobre os custos dela e do hospital, com exceção dos 250 € pela sua disponibilidade nas duas semanas anteriores e posteriores à data prevista para o parto (valor que pode variar e também vale para o parto nas casas de parto e parto domiciliar). Ela fará todo seu pré-natal (com ou sem acompanhamento de um médico, a escolha é sua) e, portanto, vocês já terão certa intimidade, fator CHAVE para que você possa relaxar e se entregar na hora no parto. A única questão triste, é que as parteiras alemãs estão sofrendo uma pressão enorme vinda dos seguros de saúde, exigindo-lhes taxas exorbitantes de seguro e com isso quase lhes impossibilitando de trabalhar. Por isso, essas parteiras Beleghebamme estão mais em extinção do que a própria onça pintada.

A outra opção é a doula para te acompanhar durante o parto – às vezes também ao longo da gestação e pós-parto. Devido à crise das parteiras, as doulas vem surgindo na Alemanha, ainda que silenciosamente. Em grandes centros urbanos (onde muitas brasileiras residem) é possível encontrá-las. A questão do idioma também é importante ser levado em consideração, pois são tantas as dinâmicas que influenciam a mulher a relaxar e a dilatar no momento do parto, que encontrar alguém com a qual você consegue se comunicar é essencial. Infelizmente não existem muitas doulas que falam português na Alemanha (mas eu sou uma delas!), mas tendo sorte, você pode encontrar alguma que fale espanhol ou inglês. Os serviços de uma doula são pagos particular e podem variar entre 450€ e 750€.

 

Casa de parto

Existem poucas casas de parto (Geburtshaus) espalhadas pela Alemanha e com isso, a capacidade lota rapidamente. Se você pretende ter seu bebê neste ambiente, informe-se o quanto antes.

As casas de parto são dirigidas somente por parteiras, cujo foco de trabalho diferencia-se em muito de um hospital. Aqui há acompanhamento exclusivo desde a gestação em espaço aconchegante e preparado para o nascimento, além de apoio para um parto com autonomia, saúde física e emocional. Além disso, essas casas costumam oferecer diferentes tipos de cursos como yoga gestacional, curso de preparação para o parto, encontros com as novas mamães e seus bebês, dentre outros.

Parto domiciliar

Em 2012, somente 1,5% dos nascimentos na Alemanha ocorrem em casa, sejam eles planejados ou não. Isso difere-se muito da Holanda, que mesmo passando por mudanças semelhantes às alemãs, tem ainda uma taxa de 30% de partos domiciliares.

O medo de alguma complicação é o principal fator que impede muitas mulheres em escolher a possibilidade do parto domiciliar. Mas nem toda complicação é sinônimo de pânico ou necessidade de ir às pressas para o hospital. As parteiras estão preparadas com seus estudos, experiências e materiais à sua disposição para prestar o atendimento necessário, para mãe e/ou para o bebê. E, em caso de emergência, é claro que se pode seguir de carro ou ambulância para o hospital mais próximo.

Com o acompanhamento de uma parteira muito experiente, dei à luz a minha segunda filha, em nosso quarto num clima familiar, seguro e acolhedor. Foi lindo, suave e sem dor, uma experiência transformadora! E assim como a mais velha, ela também nasceu de 42 semanas + 4 dias.

No próximo texto irei partilhar sobre os serviços de apoio no pós-parto na Alemanha.

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