Ano sabático, se descobrindo através do caminho

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Ano sabático, se descobrindo através do caminho

Após seis meses de viagem, parece que a ficha começa literalmente a cair sobre diversas questões, dentre elas sobre o porquê de algumas vezes necessitarmos parar, dar um break em nossa vida, um reset em algumas situações, para seguir mais leve e principalmente mais consciente de si.

Após aproximadamente 200 dias longe de casa, da família, dos amigos, dos olhares afetuosos, sem falar sua própria língua, sem poder se expressar na completude que só seu idioma te proporciona, sem comer as comidas que seu paladar deseja, sem poder correr para seu refúgio local, sem poder usar as roupas que você ama, sem poder discutir sobre os assuntos que você tem referência, enfim, sendo privada de algo que nem você mesma poderia imaginar que tanta falta faria, é que você realmente consegue olhar para si mesma de fora e entender seu processo com respeito e muita dignidade.

Apesar de tanta privação, que falando assim pode soar ruim mas não é, o mais interessante do processo de ‘estar sozinha no mundo’ é poder se reinventar, e nessa reinvenção se descobrir novamente com uma infinidade de possibilidades, afinal, longe de suas referências habituais você acaba se conectando com os mais variados contextos,  interiorizando novas referências e naturalmente se reconstruindo. No meu caso, de uma maneira mais orgânica, saudável e totalmente alinhada com quem eu realmente quero ser para o mundo.

Foto: Arquivo pessoal

O poder que estar sozinha traz a tona tem muito a ver com a busca de forças dentro de si, já que se algo acontecer fora do planejado (que é o que mais acontece), a única pessoa que pode te ajudar é você mesma – e isso não é maravilhoso? A possibilidade de criar alternativas, de descobrir novas possibilidades para problemas casuais, de se manter equilibrada e feliz dentro dos mais variados contextos é a maior dádiva que eu encontrei até agora na viagem.

As grandes alegrias estão nas pequenas coisas, como despertar e escutar uma música que te transporta a qualquer canto do mundo, inclusive sua própria pátria; encontrar no mercado do outro lado do mundo leite condensado e fazer um brigadeiro de panela; caminhar sem destino e encontrar um parque incrível cheio de animais que você nunca viu, pois são típicos de outros climas e regiões; parar e observar o fluir de um rio com águas cristalinas no meio de uma cidade; melhorar a cada dia um outro idioma com expressões que somente vivendo no local é possível; descobrir-se cozinheira por ter a grana curta e necessitar improvisar; encontrar em algum flea market, ou mercado de pulgas, uma peça usada maravilhosa por um preço que você pode pagar; finalizar a leitura de um livro por mês; descobrir por semana um som diferente; visitar museus vazios por conseguir ir em dias e horários que todos estão trabalhando; assistir um filme no cinema no meio da tarde; surpreender-se com um hostel maravilhoso e aconchegante; enfim, poderia citar facilmente mais uns 20 exemplos que somente escrevendo este texto me vêm à mente, mas o ponto é que foi nos pequenos prazeres que me conheci de verdade.

Foi após duas gripes e febre que entendi que preciso de cuidados, e que a maior interessada na minha saúde sou eu, sendo assim, inseri organicamente novos hábitos no meu dia-a-dia, como beber muita água, comer muitas frutas e verduras e dormir o quanto meu corpo pede, sem pressa para visitar este ou aquele local, sem obrigações com nada além de minha própria tranquilidade e bem-estar. Dessa forma, fui entendendo meu ritmo, aceitando que sou alguém que prefere fazer menos coisas, mas quando faz que seja com qualidade e senso de presença, foi assim também que aceitei melhor o meu corpo, e consegui olhar para ele com mais carinho e sem muita cobrança estética, entendendo que se não o movimento muito, não necessito de tanto combustível (comida) e vice-versa.

Adaptar-se tem sido uma grande descoberta, pois após entrar em contato com tantas culturas, conhecer tantos hábitos inimagináveis, acompanhar rotinas tão distintas das minhas, a única conclusão que eu consigo chegar é que somos todos iguais com diferentes maneiras de ser, ansiamos por coisas parecidas, mas as concretizamos de formas diferentes, somente exercitando a empatia e tendo muito respeito às diferenças é que poderemos chegar a um outro estágio de conexão, mais puro e amoroso.

Hoje sigo viagem – ainda me faltam 6 meses – cheia de saudade, mas definitivamente com muitas experiências inesquecíveis, pessoas incríveis que conheci e hoje chamo de amigos, paisagens estonteantes que vi, lugares maravilhosos que visitei, histórias para contar sobre dificuldades que enfrentei, enfim, o saldo positivo é infinitamente mais poderoso.

O mais valioso até o momento deste espaço no tempo que abri a mim mesma foi poder constatar que dedicar-se ao que nos traz paz gera felicidade, que focar nos seus verdadeiros propósitos te deixa em equilíbrio com tudo que te rodeia, e que estar em conexão com o tipo de vida que você acredita ser verdadeira te retorna em sensação de plenitude capaz de preencher todos os ‘vazios’ que você sentia.

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Natália é de Mirassol, uma pequena cidade no interior de São Paulo. Já morou em vários cantos do Brasil e hoje vive seu ano sabático aventurando-se pelo mundo sem roteiro predeterminado. Já passou por alguns destino da Europa e até o final do ano pretende passar pela Ásia, incluindo Japão. É Relações Públicas de formação, mas sempre trabalhou com varejo de moda, atuando na área comercial e no desenvolvimento de equipes. Apaixonada por pessoas, natureza, música e movimentos culturais está sempre em busca daquilo de melhor e mais característico que as regiões visitadas tem a oferecer.

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