Aprendendo na prática a maneira americana de ser

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Foto: pixabay.com
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Completamos 30 meses vivendo aqui em Michigan no começo deste mês. Agora estou
muito diferente da mulher que chegou em 2015, em todos os sentidos. Não trabalho
mais fora, mas de certa forma, aqui é mais trabalhoso. São tarefas do dia a dia, de cuidar
e manter uma casa, que no Brasil passavam desapercebidas. Ao menos pra mim, passavam.

Sim, no Brasil eu tinha ajuda e sim, a minha cota de trabalhos domésticos diários era
insignificante. Incluía o mínimo, como tirar a mesa do jantar e ordenar os armários das
crianças. Não se pode negar que lá era prático, era fácil ter ajuda. Mas eu era mais feliz?
Será? Porque aqui tenho uma sensação constante de viver plenamente.

Faço o que a minha família precisa. Sei onde está tudo e como fazer o que é necessário. Não tenho pessoas alheias vivendo dentro do nosso lar. Não preciso sentir pena de alguém que poderia estar cuidando da própria casa e dos seus filhos, mas faz isso por mim, na
minha casa, por pura e simples necessidade.

Acabo de tirar da máquina de lavar a terceira carga do dia. Lençóis, toalhas, roupas
nossas e das crianças. Agora é hora de estender tudo, já colocando as roupas para secar
em cabides, assim não preciso ter o trabalho extra de passar a ferro. Secadora de roupas
são apenas para itens de cama, mesa e banho. Edredom (outro item que eu só mandava
lavar em lavanderia no Brasil) agora lavo em casa.

Recolho diariamente talvez uns 30 itens espalhados pela casa, desde brinquedos, meias, papéis, sapatos. Tudo vai para o seu devido lugar, e lá ficam até as 4 da tarde, quando as crianças voltam da escola e a bagunça (eu chamo de vida) começa novamente. Posso estar lá, ao lado deles, em cada lição de casa, em cada lanche da tarde, e isso não tem preço.

Se a garagem está empoeirada, pego mangueira e vassoura e limpo, no meu tempo. Organizo. Recolho folhas do quintal. Não preciso pedir ou mandar alguém fazer, e isso é um tremendo alívio. Aspirador pela casa faz parte do dia a dia, já que duas crianças correndo, entrando e saindo e três gatos passeadores não me deixam outra escolha. Sou a única responsável pela nossa própria desordem, mando e desmando em nossa bagunça, sou feliz em nosso caos domiciliar e mais feliz ainda quando tudo brilha pelo meu próprio
esforço.

Faço eu mesma, da forma como quero. Já até esqueci do famoso pano e balde que no Brasil faz parte de toda limpeza. Aqui tudo é mais prático: os americanos têm wipes, tipo paninhos de bebê, para tudo. Tem wipes para a bancada de granito, wipes para os eletrodomésticos, wipes para limpeza geral, wipes antibacterianos e por aí vai. Até as crianças já sabem: aconteceu algum desastre, pode ir pegar o wipe e limpar.

Lolo, 11 anos, e Nico, 5, já aprenderam muito aqui e continuam aprendendo. Não só em
tarefas domésticas ou na escola, mas cultura e educação em geral também. Aqui criança
segura a porta para os mais velhos. Criança cumprimenta. Criança ajuda quem precisa.
Sei que tudo isso acontece no Brasil também, mas não é em todo lugar que se vê. Aqui é
o contrário. São poucos os lugares onde não se vê.

Crianças prestam favores, fazem trabalho voluntário desde cedo. Crianças descobrem formas de ganhar dinheiro ao invés de pedir aos pais. Aqui se aprende que nada vem de graça, que não existe uma auxiliar do lar arrumando seu quarto e recolhendo suas roupas sujas. Os adolescentes nas férias, em vez de viajar, pegam trabalhos temporários. A feira do livro na escola não tem funcionários. São pais voluntários que vão lá montar, vender e guardar tudo pós-evento. Me sinto privilegiada em poder educar meus filhos diante de uma realidade dessas.

Voltando ao dia a dia em casa, tenho um pouco do Brasil sempre pronto: feijão caseiro.
Esse descobri como fazer na marra, é a comida favorita das crianças. Era inevitável
aprender, já que se eu não cozinhasse em casa, não encontraríamos em nenhum outro
lugar. Hoje preparo o básico da culinária, porém sempre com a pretensão de evoluir. Em
tempos brasileiros eu não tinha intimidade nenhuma com a cozinha. Não sabia nem
temperar, nem misturar, nada. Mas vou aprendendo. É a isso que tenho me dedicado
desde que cheguei. E nada dá mais prazer do que aprender, absorver, viver uma nova
cultura que aos poucos vai enraizando e abraçando você e sua família.

De uma total anti-dona de casa no Brasil (não só por ter trabalhado fora, mas também
por ter sido mimada toda minha vida) hoje até eu me surpreendo com a facilidade com
que se pode dar conta do recado. Manter limpa e ordenada toda uma casa e jardim,
preparar jantar para a família, levar crianças para atividades extras toda tarde e ainda ter
tempo para ser feliz. Sair com as amigas, almoçar fora, fazer supermercado, aulas e
claro, escrever. O que mais se precisa?

O tempo nos mostra que não, não é nada fácil estar longe do país que amamos, não é fácil estar longe da família e dos amigos que te viram crescer. É difícil estar longe das paisagens familiares, dos cheiros que só o lugar onde crescemos tem, dos abraços que só sentimos em casa. Mas passar por tudo isso num país onde você é respeitado, onde seus filhos têm liberdade e onde a educação é a prioridade, faz sim tudo ficar muito mais simples.

E daí de um segundo para outro você entende que está bem aqui, e que qualquer preço ou esforço a pagar por isso é pouco perto da overdose de vida real que você está recebendo.

Leia outro relato de mais uma brasileira pelo mundo se redescobrindo nos EUA!

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Jenny é brasileira de origem sueca. Nascida em São Paulo, se formou em Arquitetura mas escrever é sua grande paixão. Tem dois livros publicados em português e mora nos EUA desde 2015 com o marido e os filhos. Viajar em família conhecendo o mundo é o que ela mais gosta de fazer. Também adora gatos, boa culinária e os extremos: neve e praia.

5 Comentários

  1. Maravilhoso o texto e super verdadeiro. Me identifico com muitos dos seus comentários. Obrigada por traduzir em belas palavras essa experiência tão linda que é viver aqui no Michigan!

  2. Oie Jenny…

    gostaria de saber como foi a adaptação escolar dos seus meninos. Eles já falavam alguma coisa de inglês? Foram bem recebidos e acolhidos na instituição de ensino? Como é o processo de escolha das escolas ae? Em Londres, por exemplo, a criança é direcionada, se houver vaga, para uma escola perto do endereço de residência declarado. Como é por ae?

    Obrigada

    Angélica Cunha

    • Oi Angelica!
      Meus filhos chegaram aqui sem falar uma palavra de inglês, aos 3 e 8 anos. A escola com vaga garantida é sempre aquela no seu bairro, a mais próxima da sua casa. Se você preferir outra, aí sim depende da existência de vagas. As escolas públicas são excelentes e meus filhos foram muito bem recebidos, tanto pelos professores como pelos outros alunos. Todos ajudaram muito no começo, integrando-os nas atividades e encontrando formas diversas de ensinar o inglês em todos os momentos (aulas, esportes, almoço na escola). Em 1 mês eles já entendiam bastante do inglês, em 6 meses já eram fluentes. Se adaptaram super rápido à nova rotina. Espero ter ajudado, fique à vontade para perguntar mais se precisar 🙂
      Abraços!
      Jenny

      • Jenny!!!!

        Muito obrigada pela resposta!!! Me ajudou muito. Ainda estou iniciando as minha pesquisas e coleta de informações sobre os EUA. Acho que a minha jornada americana começará daqui a 4 anos apenas (meu pequeno terá 8 anos), mas já estou me informando. Informação é poder, né não?! :)….Certamente entrarei em contato contigo novamente. Aceitas receber e-mails?

        Grande abraço

        Angélica

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