Arábia Saudita – “Mulher no volante…” Por que não?

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O ano de 2014 já está quase terminando e a Arábia Saudita continua sendo o único país do mundo em que a mulher é proibida de dirigir – apesar de não existir uma lei que as proíba.

Você que sempre me acompanha por aqui e pelo Carioca Travelando, sabe que eu sou extremamente aberta a entender e aprender diferentes culturas e tradições. Mas “mulher ser proibida de dirigir”, é um ponto difícil de engolir, concorda? A gente respeita, mas aceitar… não importa em que parte do mundo você esteja, com cidades emergentes se desenvolvendo a passos rápidos, sempre existirão “gaps” no transporte público, por menores que sejam. Você há de concordar comigo, que nos dias de hoje, dirigir não é um “luxo”, mas uma necessidade.

Por enquanto, mulher por aqui só no carona...
Por enquanto, mulher por aqui só no carona…

Então porque será que, em pleno século XXI, as mulheres que vivem na Arábia Saudita ainda não podem dirigir?

Compartilho com vocês 3 das razões que frequentemente escuto por aqui…

  1. O trânsito na Arábia Saudita é muito ruim (eu, carinhosamente, chamo o trânsito daqui de “mata-mata”), e seria muito perigoso para as nossas “rainhas”.

Para os defensores da idéia, isso é inclusive um ponto positivo, afinal não querer que a mulher dirija na Arábia Saudita, significa protegê-la dos males do trânsito por aqui (Oi?). Mas por que será que o trânsito na Arábia Saudita é tão ruim? (Dô-lhe uma, dô-lhe duas, dô-lhe três…) Quem são os únicos no volante por aqui, minha gente?

A Arábia Saudita infelizmente é reconhecida com um dos lugares mais perigosos para se dirigir no mundo. De acordo com vários estudos e uma matéria do jornal Gulf News de março de 2014, somente em 2012, foram 598,300 acidentes no país – uma média de 1,614 por dia e 67 acidentes por hora – atuais estatísticas confirmam que esses números estão subindo.

Grande parte dos motoristas contratados no país, vem de países onde as leis de trânsito são precárias ou simplesmente inexistentes. Além do mais é comum por aqui (pasmem!), ver crianças entre 8-15 anos de idade dirigindo. (E acredite, mesmo depois de quase 3 anos vivendo na Arábia Saudita, me assusto (e me apavoro!) cada vez que vejo essa cena). Aparentemente as crianças são mais confiáveis no volante do que uma mulher adulta.

Diversos estudos porém, contestam essa idéia e dizem que o trânsito seria muito mais seguro se tivéssemos mais mulheres no volante. Alguns links comprovando essa afirmação abaixo (em inglês):

  1. Mulheres tem outros afazeres domésticos, como cuidar da casa, dos filhos e da família, e não podem “perder tempo” dirigindo.

Logo, na visão dos que defendem mantê-las sentadinhas no carona, as mulheres devem focar toda a sua atenção ao que realmente interessa nessa vida: ser uma boa esposa, boa mãe, filha, dedicando-se aos cuidados da casa e da família. “Dirigir pra que?” (Já tô até imaginando a enxurrada de comentários aqui…) Já temos muita louça para lavar, certo?

Eu particularmente penso que seria o contrário: dando mais mobilidade a mulher, teríamos mais tempo para aproveitar as crianças e a família em casa – ao invés de ficar esperando os motoristas para nos buscar e levar para todos os lados. Sem contar que muitos desses motoristas falam pouco ou nenhum inglês (ou árabe), – e quando se perdem… ah quando se perdem… (e dá-lhe meditação), aí mesmo é que se vai um bom tempo jogado fora (rodando no trânsito do carrinho bate-bate).

  1. Mulheres não devem dirigir pois o véu que cobre o seu rosto (“niqab”, aquele que deixa somente os olhinhos de fora), dificulta que elas enxerguem a estrada e os sinais no trânsito propriamente.

Independente de você concordar ou não com a cultura do uso do véu dentro da religião islâmica, eu preciso dizer à vocês que eu mesma já experimentei esse véu que cobre o rosto (o “niqab”). E acredite, dá sim para ver tranquilamente por aquele espacinho onde apenas os olhos ficam a mostra. Sinceramente não considero isso uma desculpa plausível (aliás, cá entre nós, não tem desculpa para as mulheres não poderem dirigir nos dias de hoje, né?). Já vi mulheres dirigindo com o niqab em vários países como nos Emirados Árabes, Kuwait, Jordânia, Bahrain, entre outros países árabes, e creio que elas não sejam menos cuidadosas e atentas no trânsito por usar o véu.

Mulheres com o "niqab" em um shopping na Arábia Saudita
Mulheres usando o “niqab” em um shopping na Arábia Saudita

De toda maneira, fiz esse post, atendendo a pedidos, a fim de que possamos entender um pouco o que se passa na cabeça dos que são “a favor” de manter as mulheres longe do volante nesse país cheio de peculiaridades.

Paródia sobre a proibição das mulheres no volante – foi viral (Não deixe de assistir! Independente da mensagem, é uma bonita capela).

Volta e meia vemos movimentos de mulheres Sauditas lutando pelo direito de dirigir no seu país. Há anos atrás não era possível sequer tocar nesse assunto, e hoje a passos curtos (mas passos dados!), vemos alguns movimentos dentro e fora do país batalhando por esse direito já adquirido há décadas em outras nações.

Eu sinceramente torço para que as mulheres sejam autorizadas a dirigir na Arábia Saudita o quanto antes. Toda essa discussão, tem o seu aspecto positivo e traz esperanças de que, devagar, devagarinho, as coisas estão melhorando. Permitir que as mulheres dirijam não será apenas a reafirmação de um direito adquirido, mas também uma melhora na percepção que a comunidade global tem da Arábia Saudita.

Para mais informações sobre o tema, seguem os links abaixo (em inglês). E você, o que acha disso tudo? Compartilha aqui conosco a sua opinião sobre o assunto.

15 Comentários

    • Oi Carla,
      O que eu já vi acontecer (através dos jornais e da mídia), é que a mulher que é pega dirigindo, vai presa e o marido/tio/pai/irmão (ou qualquer “responsável” da família do sexo masculino), tem que ir na cadeia para soltá-la. Para isso ambos assinam um termo dizendo que a mulher se compromete a nunca mais dirigir por aqui. Se ela for pega dirigindo novamente, ambos vão presos de vez.
      Respondendo a sua pergunta, eu jamais me arriscaria a dirigir por aqui. Antes de morar aqui também pensava como você, que não conseguiria ficar sem essa independência. Tudo é passageiro, e as experiências e aprendizados que vivo por aqui ficarão comigo pra sempre – e ficar sem dirigir por um período não é o fim do mundo. Para sair, tem táxi, ônibus do condomínio ou com o maridão – e quando viajamos para outro país pego um pouquinho o carro porque fico com saudade 😉

  1. Carla, parabéns pelo relato. Eu também fiquei chocada com relação a permissão de meninos dirigirem! Beijo grande, inclusive à Aline, acima, pois também a acompanho. 🙂

  2. Penso que é apenas machismo nada mais, disem que as mulheres tem o direito de ser protegidas e não dirigir é uma forma de proteção e de conforto. Mais acho que por traz é machismo mesmo. Eu particularmente odeio dirijir, só dirijo somente em ultimo caso adoroo uma carona , eu não ia sentir falta.

    • hehehe… sabe que eu também não senti falta de dirigir por lá, Keila? Para sair do condomínio basta “ir de princesa” com o maridão ou ligar para um motorista. Um beijo e obrigada pelo seu comentário aqui 🙂

  3. Oi Carla, sigo o seu blog há alguns meses e adoro, parabéns…
    Sou portuguesa e dentro de poucas semanas irei com a minha filha de 3 anos para Ryiade ter com o maridão que já lá está há um mês e meio.
    A minha opinião, pelo menos por agora, não sei se irá mudar quando aí chegar….mas tenho que respeitar as regras, estou indo para a Arábia Saudita por opção própria, logo tenho que respeitar, claro que não concordo, por todos os motivos e mais alguns….conduzo há quase 20 anos e em Portugal sou completamente independente no que a saídas diz respeito, vou no meu carro onde preciso de ir ou onde me apetece…mas estive a viver no último ano em Malta e apesar de ser permitido as mulheres conduzirem eu nunca o fiz…e sobrevivi perfeitamente….é tudo uma questão de hábito.

    • Oi Carmo, Seja bem vinda à Arábia Saudita! Qualquer dúvida que eu puder ajudar é só falar. Lá no cariocatravelando.com tem muitos artigos com dicas e curiosidades da região que podem ajudá-la, dá uma olhada lá.
      Um grande abraço e muito obrigada por compartilhar a sua experiência conosco 🙂

  4. ferdinando Bastos só de São Paulo 14- 12- 2014 moro no jardim peri santa cruz mia opinião é concordo com você Carla cultura a gente tem que respeitar .um abraço Deus te abençoe ok.

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