Colômbia – Desigualdade social

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Foto: arquivo pessoal
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Uma vez me perguntaram: Você tem vontade de mudar de país? Quer ser pobre em país desenvolvido ou rico em país subdesenvolvido?

Esta pergunta é forte, carrega uma série de juízo de valores, até preconceitos, e é capaz de levantar várias polêmicas. Por trás dela, existem pontos profundos a serem pensados. Mas é uma pergunta interessante para ser analisada por quem está planejando morar fora, pois, em algumas perspectivas, principalmente a materialista, ela faz sentido. Vamos lá, então, a algumas reflexões.

Muitos brasileiros com confortável condição de vida, no Brasil, se mudam para países como EUA ou Inglaterra e se deparam com aspectos que acabam se queixando, como a falta de serviços ou os preços astronômicos cobrados por eles. Não só serviços, mas também uma série de outras coisas, o que faz com que não consigam ter os mesmos acessos fáceis de antes, como, por exemplo, a carro, faxina, babá, manicure etc. Mas, em compensação, tem o glamour e a riqueza cultural de se viver em um país de primeiro mundo.

Já quando você vai para um país menos desenvolvido, como foi o meu caso, a surpresa, para o bem ou para o mal, foi exatamente oposta. Meu poder econômico aumentou, tudo é muito mais barato e acessível, tanto bens quanto serviços. E, no meu caso, foi algo bem chocante. Para dar um exemplo prático, uma faxina que, no Brasil, eu vi por R$ 150,00, na Colômbia, eu vejo por R$ 50,00. Uma unha por aqui vale menos que R$ 10,00. Um eletrodoméstico está três vezes mais barato e o aluguel de um apartamento, às vezes, até quatro vezes menos. E isso vale para a maioria das coisas. Se comparar com Brasil já parece barato, principalmente serviços, imaginem comparar com a Inglaterra? Quando eu volto para o Brasil e vejo os preços de alguns produtos, me sinto até roubada.

Escuto muitos estrangeiros falando que aqui é o lugar para se viver bem e economizar, guardar dinheiro. E isso é verdade. A Colômbia é um país com uma grande riqueza cultural, é a terra de Gabriel García Márquez e de Fernando Botero, e que vem crescendo e proporcionando novas oportunidades. Mas a vida aqui é menos extravagante, sem excessos consumistas. Tem bons restaurantes, bons serviços, dá para viajar fácil pela América Latina, e se você quiser ter extravagâncias, você consegue. Mas o ambiente é um pouco menos convidativo e, no final do dia, você sente que não é mais ou menos feliz por causa disso. Você tem acesso econômico, maior que no Brasil, sem necessitar de exageros que nos fazem escravos do consumo.

Mas, este é o lado bonito da história, a história que gringo passa a viver. Me sinto uma princesa, pois posso mais que no Brasil e, isso, eu sei que não vou viver quando voltar. Porém, toda a história tem seu lado ruim. E um deles é a desigualdade social. Grande parte da população é bem pobre. Pobre de não ter geladeira, nem fogão e nem banheiro em casa, ou seja, nenhum acesso. Por isso, aceitam empregos com ganhos tão baixos e se submetem a condições ruins de trabalho. Por exemplo, tem muitas empregadas chamadas internas, que moram com seus empregadores e, no fundo, não têm horário fixo de trabalho. Dependendo do patrão, estas empregadas acabam tendo que trabalhar quase o dia todo.

É obvio que desigualdade também tem no Brasil, mas aqui parece maior e mais próxima. Eu mal cheguei no país e, na primeira semana, quatro pessoas já me procuraram pois necessitavam de emprego. Muitas vezes são as próprias mães que oferecem as suas filhas para trabalhar como faxineiras e estas acabam deixando seus estudos.

Muitos acabam se envolvendo com drogas, por falta de dinheiro. Tive uma pessoa que trabalhou comigo, por uns dias, cujo marido estava na cadeia por tráfico de drogas, para a família não passar fome. Quando eu fiquei sabendo, me deu aquele sentimento dúbio de querer ajudar e dever de ajudar, mas, ao mesmo tempo, vem um medo de acontecer alguma coisa com você e sua família.

Aí, eu volto para a pergunta do começo do texto: quer ser pobre em país desenvolvido ou rico em país subdesenvolvido?

Não sei o que é melhor e só posso falar de um dos lados. Estou vivendo muito bem e aproveitando tudo o que a Colômbia pode me proporcionar. Neste país de riqueza cultural, acesso e qualidade de vida e valores menos ostentação, mas sem grande glamour e cercada por desigualdade, que me abala por saber que faço parte do sistema. Ainda existe muito preconceito quando você diz que vai se mudar para a América Latina, as pessoas não sabem o quanto os países se desenvolveram e existe uma espécie de ignorância sobre a qualidade e cultura destes países.

Ou seria melhor viver em uma país com mais igualdade, muito mais riqueza cultural pelos anos de história, muito menos conforto, até um desconforto e mais glamour? Afinal, o que é a verdadeira riqueza?

Queria deixar aqui uma reflexão e não necessariamente uma resposta. Na verdade, nem sei se tem resposta, pois tudo na vida tem seu lado bom e seu lado ruim. Tudo vai depender do que casar mais com as necessidades de cada um naquele momento, com os valores do momento. Se quer se aventurar mais; se quer mais estabilidade; se quer mais conforto; se quer fazer um pé de meia; se quer focar no bem estar dos filhos; ou em estudos, enfim, mil e uma possibilidades. Acredito que riqueza se pode ter nas duas opções. Tudo depende do seu olhar sobre as coisas, de sempre se buscar o melhor de cada lugar e buscar a felicidade não importa onde você esteja.

1 COMMENT

  1. Acredito que a desigualdade que você vê na Colômbia é a mesma que existia no Brasil a um tempo atrás. Eu já passei um tempo no Nordeste e via meninas de 12 anos, ou menos, trabalhando como domésticas em tempo integral, praticamente uma escravidão moderna, pois o salário dava apenas para ajudar a família a sobreviver. Ainda há muita pobreza, porém a miséria já não é mais tão gritante como se via. Mas penso que a pergunta que você deixou para reflexão não tem resposta, vai depender mesmo dos valores de cada um e o que cada pessoa consegue suportar ou não.

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