Croácia – Como foi aprender uma língua eslava

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Como você imagina que é a língua croata? Ou como entende as línguas eslavas? Já imaginou aprender uma língua que parece com a língua russa? Pois é. Em um ano morando na capital da Croácia, aprendi a língua deles e queria contar pra você como foi aprender uma língua eslava, mais especificamente o croata.

Como comentei mais amplamente no meu texto anterior, assim que cheguei a Zagreb, descobri que o curso de Geografia não possuía turmas específicas para estrangeiros e por isso, teria de assistir às aulas com os alunos croatas e, portanto, em croata. Não estava nos meus planos aprender a língua local, mas em uma situação como essa, achei que fosse a melhor solução. Assim, encontrei um local onde se ensinava o croata para estrangeiros, mas que cobrava um valor extremamente caro pelo curso para uma estudante que não recebia bolsa-auxílio nesse processo de mobilidade acadêmica.

Resolvi explicar minha situação para eles e pedir por algum tipo de ajuda, então me disseram que eu poderia tentar bolsas pela Faculdade de Filosofia (onde se localiza essa escola de croata), pela Faculdade de Ciências (onde eu curso Geografia) e até pela Universidade de Zagreb. Segundo eles, enquanto não saísse o resultado das bolsas, eu poderia começar a frequentar as aulas.

Ufa!

As aulas eram bem intensas, até por ser um curso intensivo com encontros todos os dias da semana. Eram duas horas e meia com muitas explicações, temas novos, novas regras gramaticais e nada fazia sentido, nadinha! Eu estudava em casa, mas quando chegava na aula não entendia nada do que estava acontecendo ou do que me perguntavam. Resultado: o primeiro mês foi de muita descoberta, mas também de muita frustração.

O alfabeto e a pronúncia das letras é razoavelmente fácil para quem fala português porque muitos sons são parecidos com os sons que pronunciamos, com a diferença de que se escreve diferente. Darei alguns exemplos pra você entender melhor do que eu estou falando.

Exemplos de leitura (como se escreve – como se lê):

  • J = i

Dobro jutro (bom dia) – Dobro iutro

  • Č, Ć = tch (a pronúncia dos dois é praticamente igual)

Dobra večer (boa noite) – Dobra Vetcher

  • Š = ch

Šest (seis) – Chest

Fazia também aulas de fonética as quais ajudavam na pronúncia e acentuação correta das palavras croatas, e com elas aprendi duas características muito legais do alfabeto deles. Primeiro é que toda letra tem apenas um som possível. Isso quer dizer que eles não precisam fazer aquele exercício quando criança em que a professora fala uma palavra e a gente tem de adivinhar se escreve com “s” ou “z”, com “u” ou “l”, e assim por diante, porque cada letra tem somente uma opção de pronúncia. Segundo é que se pronunciam todas as letras de uma palavra. Não funciona, por exemplo, como o francês, com palavras que tenham muitas letras e em que a combinação delas muitas vezes é importante para se formar a pronúncia correta dela.

Ótimo, isso quer dizer que em um dia aprendemos a pronúncia das letras do alfabeto e no outro podemos ler todas as palavras que se vê nas ruas e também nos jornais. E essa felicidade dura 5 segundos, quando se percebe que se lê, mas não se entende nada, isso porque 99% das palavras não têm nenhuma associação com suas traduções no inglês nem no português.

Algumas dificuldades iniciais: decorar os números (jedan, dva, tri, četiri – um, dois, três, quatro) e os verbos (učiti, igrati, željeti –estudar, jogar, querer). Além disso, há dificuldade com o nome de muitos objetos/comidas/animais (kišobran, bilježnica, juha, piletina, rajčica, pas – guarda-chuva, caderno, sopa, frango, tomate, cachorro).

Conjugação do verbo “moći”(poder). Foto: arquivo pessoal

Essa primeira parte mostra que a grande dificuldade para quem tem o português como língua nativa, é o vocabulário. A vontade é de engolir um dicionário porque quanto mais você tenta memorizar essas palavras, mais elas te confundem. Mas ok, sigamos.

Até aí já está bem assustador, eu sei, mas ainda fica um pouco mais difícil. A língua croata, assim como a polonesa, ucraniana e russa, por exemplo, possui os chamados “casos”, que modificam os finais de algumas palavras de acordo com o complemento verbal e também dependendo do sentido da frase. Além disso, para cada caso há uma flexão diferente se a palavra é masculina, feminina ou neutra. No português não temos isso, mas se tivéssemos, seria algo como “eu vou à igreju”, “eu estou na igreji” e a palavra é “igreja”.

Essas, em geral, são dificuldades de muitas pessoas que não sabem nenhuma língua eslava e deseja aprender uma. A partir do terceiro mês, as coisas começaram a fazer sentido e eu podia minimamente entender as perguntas e responde-las com frases bem sucintas, conseguindo associar mais coisas e praticar a língua nas minhas necessidades diárias. E quão importante foi perder o medo de falar!

Antes de eu vir pra Croácia, um amigo meu croata que aprendeu português em menos de seis meses no Brasil me disse que o segredo do aprendizado de uma língua em tão pouco tempo é a convivência com os “nativos”. Em todas as oportunidades que você tiver de falar com pessoas daquele país, na língua deles, fale. O começo será um pouco frustrante porque as conversas não durarão mais do que 2 minutos, mas com o tempo, a fluência virá naturalmente.

Minha maior convivência com os croatas foi no meu sexto mês de intercâmbio quando fui trabalhar em um restaurante em Dubrovnik, a cidade mais turística da Croácia. Era verão e segui o fluxo dos estudantes croatas indo para a costa do país para conseguir uma boa quantia de dinheiro com o turismo. Consegui esse dinheiro, mas o mais incrível foi que eu era a única funcionária estrangeira em meio aos mais de 40 croatas que trabalhavam no mesmo restaurante, além de eu ter trabalhado na recepção, o que aumentou a necessidade de também me comunicar com turistas croatas na língua deles.

Sobre o trabalho, acho que esse tem assunto para outro texto. O importante é que esse emprego foi de grande ajuda, somado ao fato de no segundo semestre do meu intercâmbio eu ter morado com uma croata que estudava português, ter frequentado as aulas do curso de Geografia em croata e até ter feito prova no fim desse período em croata. Fiz também muitos amigos croatas que não sabiam muito bem falar inglês e por isso me “obrigavam” a falar croata.

Além do benefício do aprendizado de algo totalmente diferente de tudo o que vi na vida, quando visitei a Eslovênia, Bósnia e Herzegovina e a Sérvia, consegui me comunicar usando o croata, pois nesses países as línguas são impressionantemente parecidas. Também quando fui à República Tcheca e à Eslováquia, conseguia ler os cardápios e entendia grande parte dos ingredientes dos pratos. E por último, assistindo a um documentário com falas em russo, consegui entender algumas palavras também. É como se um novo mundo tivesse se aberto.

Enfim, foi uma experiência única pelos altos e baixos que teve, mas principalmente pela superação que exigiu. Fez-me pensar na minha vida, no tempo que perdi sem fazer nada pra aprender algo novo e em quantos conhecimentos novos fui/sou capaz de assimilar em tão pouco tempo. Somos todos!

6 Comentários

  1. Olá, colega de BPM Renata!

    Adorei o seu texto e fiquei feliz em saber que vou me sentir um pouco em casa quando for à Croácia, embora ainda esteja penando para aprender o polonês 🙂

    Do zobaczenia!

  2. Oi, Renata. Tudo bem? Você responderia umas dúvidas rápidas? Eu pretendo ir pra Croácia para estudar croata antes de entrar na faculdade. Tenho duas dúvidas. Como fazer o contato com a escola de idioma aqui do brasil(já li em alguns lugares que não é possível realizar a matrícula aqui), e se na Croácia tem vestibular. Eu realmente não consegui essas informações ainda e a minha ultima opção seria ligar para o Consulado, pois sou do Rio de Janeiro.
    Obrigada!

    • Oi Erika, tudo bem?
      Não sou a Renata mas espero ajudar, o site para estudar Croata é http://croaticum.ffzg.unizg.hr/ e eles respondem as mensagens tranquilamente em inglês. Dependendo do curso que quer realizar os preços variam até 600 Euros por semestre.
      Quanto ao vestibular para o curso, não há. O que há é uma entrevista no primeiro dia de aula para ver qual é o melhor horário para você e em qual turma se encaixaria.
      Espero ter ajudado.
      Obrigado.

    • Olá, Erika, tudo bem e com você?
      Peço perdão pela demora, mas o Alexandre respondeu da melhor forma, acredito. Eu estava pesquisando sobre o vestibular porque realmente não tinha informações sobre, mas as informações que consegui as mesmas do Alexandre. Estudei croata nessa escola, chama “Croaticum” a qual é bem acessível. Há duas opções basicamente: ter duas aulas na semana e isso custa em média 200 euros, ou ter aulas todos os dias da semana e isso por quase 700 euros. As aulas são em inglês e os professores muito bons.
      Mais uma opção também se já quiser iniciar o estudo do Brasil mesmo é o site http://www.hr4eu.hr/ feito por estudantes da Universidade de Zagreb para facilitar o acesso à lingua croata.
      Peço desculpas novamente pela demora, e espero que dê tudo certo!

  3. Estou aprendendo croata sozinha, em casa mesmo. As dificuldades são muitas mas é muito gostoso perceber o nosso progresso e ver que somos capazes de tudo, se nos esforçarmos.

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