Desigualdade salarial e licença maternidade nos EUA

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Foto: pixabay.com
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Antes de mudar para os Estados Unidos não tinha muita noção de como um país tão desenvolvido e considerado uma superpotência teria tantos problemas sociais relacionados às questões de saúde e às questões trabalhistas. Pois bem, esses problemas aqui são reais, afetam diretamente as mulheres e sempre geram muitas discussões.

A questão da desigualdade salarial

Apesar de existirem leis nos EUA que garantem igualdade de gênero para homens e mulheres no ambiente de trabalho, essas leis nem sempre funcionam quando tentamos colocá-las em prática. A situação de desigualdade salarial nos Estados Unidos não é tão gritante quanto em muitos outros países, mas aqui também existe discriminação salarial para com as mulheres. De acordo com o último censo realizado nos Estados Unidos, as mulheres são o equivalente a metade da força de trabalho norte-americana, no entanto, recebem apenas 77% do que os homens do país recebem.

A lei “Lilly Ledbetter Fair Pay Act” proíbe que tal discriminação ocorra, mas na prática a história é muito diferente. Muitas empresas inserem cláusulas nos contratos de seus funcionários dizendo que estes não podem dizer para o outro funcionário quanto ele ganha, de modo que, caso isso aconteça, o funcionário que tocou no assunto pode ser demitido ou até mesmo processado pela empresa. Sim, isso acontece aqui. Desta forma, e com o fato de muitas vezes não haver transparência na empresa, a mulher fica “de mãos e pés amarrados” na hora de saber se há igualdade salarial no seu ambiente de trabalho.

Em 2014 os Estados Unidos amarguraram o 20° lugar dentre 142 países em um ranking de igualdade de gênero realizado pelo Fórum Econômico Mundial. O índice mede as disparidades de gênero no acesso a recursos e oportunidades. Uma descoberta que chama atenção é que os EUA fica atrás de alguns países com muito menos desenvolvimento econômico. Ruanda e Nicarágua, por exemplo, ambos têm menos de US $ 9 bilhões em PIB, mas ambos estão entre os 10 melhores países do mundo quando se trata de igualdade de gênero.

Trabalhei durante cinco anos em uma empresa americana no estado do Missouri em uma área dominada por homens: marketing de esportes de velocidade. Durante parte desses 5 anos houve épocas em que eu era a única presença feminina no escritório. Até hoje tenho dúvidas se eu recebia o mesmo salário que os homens recebiam. Além disso, sempre foi muito nítido a forma como eu sempre tive que me esforçar muito mais para ter qualquer tipo de reconhecimento, pelo simples fato de ser mulher.

Mesmo havendo uma hierarquia no escritório e eu estar ocupando um cargo mais alto do que o de muitos homens, tive muitos problemas. A maioria dos homens não aceita receber ordens de uma mulher (se ela for estrangeira então, nem se fala!), a maioria não gosta de ser chamado atenção por uma mulher mesmo que saiba que tenha cometido um erro, e de forma alguma admitem como são indiscretos em muitas situações. Imagine que você precisa fazer uma consulta rotineira no ginecologista, mas para pegar umas horinhas de folga deve explicar pro “chefinho” que vai ao médico. Nessa conversa para ele conceder as horas de folga, ele te pergunta qual médico, o motivo da consulta e no fim ainda solta a famigerada pergunta: “você não está grávida, está?! Vai precisar tirar licença maternidade?”

A licença maternidade

No Brasil, se uma funcionária que tem carteira assinada ficar grávida, o empregador por lei não poderá demiti-la, a não ser que pague uma multa altíssima. Nos EUA apesar de existir a “Pregnancy Discrimination Act” desde 1978, que diz que ser proibido demitir ou tirar do cargo uma funcionária apenas por ela está grávida, mais uma vez, na prática essa lei nem sempre funciona. Muitas vezes a mulher é demitida quando anuncia a gravidez para o empregador e esse alega que não a está demitindo por ela estar grávida, e sim, por falta de verba na empresa ou reajuste administrativo. No fim das contas, todos sabem que o motivo real da demissão foi a gravidez, pois o empregador não quer ter que bancar a licença maternidade daquela funcionária, mas é difícil provar que houve tal discriminação e fica o dito pelo não dito.

Enquanto no Brasil as mulheres têm direito a pelo menos quatro meses de licença maternidade, as mulheres americanas por lei não têm direito a licença remunerada. Na maioria dos casos são concedidas no máximo doze semanas de licença, mas o empregador não é obrigado a remunerar a funcionária, ou seja, ela fica na total dependência da boa vontade do empregador. Imagine que você tem um bebê, que obviamente depende de você para tudo, e dentro de doze semanas você terá duas opções:

1) Voltar ao trabalho e deixar seu bebê recém-nascido em uma creche por tempo integral ou;

2) Largar o emprego, cuidar do seu bebê e tentar voltar ao mercado de trabalho algum tempo depois sem garantias.

Com raras exceções, essas são as únicas alternativas que as mães americanas têm. Sim, existem mulheres que trabalham de casa, mulheres que trabalham meio período, ou até mesmo as que não desejam trabalhar, mas essas são as exceções. A grande maioria das americanas atualmente opta pela opção de deixar os filhos na creche, não por falta de amor aos pimpolhos, mas porque não tem condição financeira de largar o emprego. Com a crise econômica que se abateu na terra do Tio Sam em 2008 e os altos índices de desemprego, muitas mulheres se tornaram “por livre e espontânea pressão” a provedora oficial do lar, ou pelo menos passaram a ter que dividir as contas com o marido e deixaram de trabalhar apenas para ter independência financeira.

O governo norte-americano não obriga a concessão de licença maternidade remunerada. No entanto, alguns governos estaduais como o da Califórnia são um pouco mais generosos. Lá a licença maternidade remunerada é obrigatória. Um estudo realizado pelo National Bureau of Economic Research concluiu que a licença maternidade remunerada na Califórnia beneficia não apenas os bebês e as mães, mas também a economia.

Financiada por um imposto vindo da folha de pagamento e distribuído pelo governo do estado, o programa de licença remunerada, batizado de LFR, garante seis semanas de licença remunerada de 55% do salário, com um teto de US$ 1.075 por semana. Sim, isso ainda é muito pouco comparado a países na Europa e ao Brasil onde as mulheres recebem muito mais e por muito mais tempo, mas comparado a outros estados norte-americanos, isso já foi um grande avanço social. Foi através do LFR que mães californianas agora não ficam sob tanta pressão para voltar a trabalhar o quanto antes. Assim, estão menos cansadas, são produtivas quando retornam ao trabalho, e podem amamentar por mais tempo, garantindo a saúde de seus bebês.

Em 2013 a senadora Kirsten Gillibrand criou um projeto de lei a nível federal que faria empregadores oferecerem três meses de licença maternidade e pagando 66% do valor do salário, o Family Act. No entanto, o mesmo está parado no Congresso há mais de um ano. Mesmo que fosse aprovado, não iria corrigir completamente um sistema que afeta metade da força de trabalho americana. Em um país onde a renda familiar média é de $ 53.000 ao ano, 66% de um salário pode não ser suficiente para sustentar uma família inteira.

Ainda assim, o Family Act iria mudar drasticamente a vida de muitas trabalhadoras norte-americanas. Uma das razões pelas quais as mulheres ganham menos do que os homens nos EUA se deve ao fato de que existem muito mais mulheres trabalhando em subempregos do que homens, ou ocupando cargos onde elas trabalham menos horas. Além disso, a discrepância salarial também cresce na medida em que as mulheres envelhecem ou não conseguem avançar em suas carreiras. Infelizmente isto é observado nos EUA principalmente quando as mulheres começam a ter filhos.

Quer saber mais? Leia aqui.

21 Comentários

  1. Olá, Lorrane, tudo bem? Sou estudante de jornalismo no Mackenzie, em São Paulo e, juntamente com um colega, estou fazendo uma matéria sobre a desigualdade salarial nos EUA. Entrei em contanto com o brasileiras pelo mundo na página do Facebook e me passaram esse link para dar uma lida no texto (muito bom, por sinal) e conversar com você. Nos gostariamos de lhe fazer algumas perguntas, se possível.
    Deixei o meu email para contato aqui. Seria muito importante para a gente se você pudesse nos ajudar.
    Agradeço desde já 🙂

  2. Apenas através da produção que se obtém riqueza, o dinheiro é apenas um vale produção, agora oq vc não contou é que um professor de ensino médio e fundamental tem casa própria um carro excelente e o dinheiro vale pois tudo vai para o preço. Lá o nível de desigualdade é baixíssimo, tem uma grande classe média que aqui no Brasil sano ricos e os super ricos, fácil acesso ao crédito parcela com juros irrisórios, tenho um amigo que instala tv a cabo e tem piscina e hidromassagem em casa mora nos EUA. Lá não tem TETA pra mamar eles odeiam burocratas deve ser por isso que são o país mais rico do mundo.

    • Prezado Henrique,

      Obrigada por acompanhar o Brasileiras Pelo Mundo.

      Gostaria de esclarecer alguns pontos onde percebi certo equícovo de sua parte:

      – Primeiramente, os EUA já não é um país socialmente igualitário há certo tempo. Na verdade, a porcentagem de desigualdade aqui vem aumentando a cada ano. Motivo pelo qual o governo teve que criar auxílios (semelhante ao bolsa-família, por exemplo) para cidadãos de baixa renda. Por favor, verifique o site do Census norte-americano para comprovar o que estou afirmando. Segundo a Economic Policy Institute, se somarmos o patrimônio das 400 pessoas mais ricas dos EUA, chega-se ao equivalente à US$ 2,3 trilhões de dólares – mais do que todo o patrimônio de 36 milhões de famílias americanas.

      – Segundo, esse fácil acesso ao crédito ao qual o senhor se refere também não é algo verídico. Aqui para se construir crédito é necessário fazer dívida, um sistema que levou o paía literalmente à beira da falência em 2008/2009. Um sistema que fez inúmeras famílias perderem absolutamente tudo e gerou um dívida de $17,9 TRILHÕES de dólares. Dívida essa da qual o país levará décadas para se recuperar. Foi-se o tempo em que todos aqui tinham acesso à tudo e que os EUA eram o país mais rico do mundo.

      Terceiro e último ponto: licença maternidade não é “teta” e sim um benefício que é bom para a saúde da mãe e do bebê. Conforme expliquei no texto, além do benefício ser bom para a saúde, também é bom para a economia do país.
      Países com economias sólidas, alto índice de desenvolvimento, com melhor qualidade de vida e igualdade social (ex: Finlandia, por exemplo) são unânimes em conceder tal benefício tanto para homens quanto para mulheres.

      Se tiver alguma dúvida me encontro à disposição.

      Continue nos acompanhando,

      Lorrane

      • Prezado Rony,

        Conforme expliquei ao Henrique no comentario logo abaixo, não deixei de analisar nenhum ponto importante nesse texto. Acho que o que falta a muito de nós, brasileiros, é deixarmos de ver os EUA como uma ilha da fantasia, onde todos tem de tudo, onde existe trabalho em abundância, com enormes salários para todos, independente de nível de escolaridade. Isso infelizmente não é verdade. Aqui existem inúmeros problemas sociais muito graves, uma quantidade enorme de desabrigados, problemas de segregação racial que geram confrontos violentos entre policiais e civis, cartéis de droga, alta quantidade de pessoas que vão literalmente a falência devido ao desemprego, hipoteca de casa ou problemas de saúde. Aqui não existe, por exemplo, atendimento de saúde público sabia? Uma consulta médica de emergência pode custar, facilmente, milhares de dólares em questão de algumas poucas horas e não existe auxilio do governo como em países europeus. Portanto, a questão da desigualdade salarial e licença maternidade são apenas alguns dos muitos problemas norte-americanos que foram analisados no texto e que as pessoas muitas vezes não gostam de admitir que existem por aqui. Algumas por falta de conhecimento, outras por não ser conveniente para elas. No entanto, esses problemas vem se tornando um problema tão serio para a sociedade norte-americana, que atualmente, é um dos temas centrais de discussão entre candidatos a Presidencia dos EUA. Espero, como mulher e residente deste país que este, assim como tantos outros problemas, sejam solucionados o mais rapido possivel.

        Se tiver alguma duvida, continuo a disposição para quaisquer esclarecimentos.

        Lorrane

    • Prezado Julio,

      Acredito que voce não tenha lido o artigo por completo, pois nele é explicado os benefícios não apenas para as FAMILIAS (já que criança alguma é feita apenas pela mulher), mas também PARA AS EMPRESAS/ESTADOS que concedem a licença maternidade e igualdade salarial. Por gentileza, peço que continue nos acompanhando e que quando quiser deixar comentarios, que estes sejam CONSTRUTIVOS.

      Obrigada.

      Att,

      Lorrane

  3. Se prepare Lorrane, pois, aqui no Brasil o Bolsonaro está querendo criar uma lei para tirar das mulheres a licença a maternidade. E o salario da mulher será menor que o do homem!

  4. Interessante é que mesmo o EUA tendo leis mais engessadas nesse quesito da licença maternidade e outros direitos do trabalhador, os brasileiros ainda preferem tentar ganhar a vida lá em subempregos, como disse a autora, por vezes na ilegalidade, do que viver num país com a nossa gloriosa lei trabalhista, que o funcionário tem tanto ou mais direito que os próprios empregadores. Sobre você ter se sentido deslocada em um ambiente de trabalho que é majoritariamente masculino, eu já passei por algo parecido, só que ao contrário, mesmo a minha área sendo tecnologia de sistemas, tive, por necessidade, trabalhar no agendamento de exames de um laboratório, vulgo telemarketing receptivo. Para muitos, seria um subemprego, mas se eu tivesse esse orgulho de “não descer de cargo” ou de área, não teria conseguido pagar a faculdade. Mesmo essa empresa sendo constituída por 95% de mulheres, o cargo e o salário eram um pouco melhor que um salário mínimo (outra coisa absurda), e até os supervisores não ganhavam quase nada se comparado aos outros salários menores. Isso se deve ao fato de serem mulheres majoritariamente trabalhando ou porque a área do telemarketing não é valorizado? Ainda segundo a autora, “a maioria dos homens não aceitam ordem de mulheres”, você pode ter tido essa impressão ao trabalhar somente com homens, mas essa seria uma pequena amostra para você poder generalizar ao ponto de fazer da opinião uma regra. Quem não admite receber ordens, seja de homem ou mulher, é insubordinado e não entende as relações profissionais e tampouco sobre hierarquia, quem foi estagiário sabe muito bem o que é estar na base da pirâmide. Por fim, sobre a questão da mulher ter um filho, fazendo uma breve análise, isso na maioria das vezes é uma decisão do casal, se planejaram para isso, agora pense se você fosse dona de uma empresa e recebe a notícia de gravidez de uma funcionária, certamente levaria em consideração essa situação dela e tentaria ajudar de alguma forma quando ela fosse se ausentar por causa da criança e ter que retornar mais tarde desempenhando a mesma função. Essa ajuda é o salário integral sem ônus para a funcionária, no Brasil, ela pode se ausentar por até 180 dias, são 6 meses sem participar dos negócios da empresa e ganhando o seu salário integral. Para a mulher é tudo de bom, mas para você, empregador, terá um prejuízo financeiro em relação a essa ausência programada, como se fala vulgarmente “funcionário se paga dentro da empresa”, pois então quem irá produzir por ela durante todo esse tempo? Sei que é muito fácil olhar uma situação apenas por um ângulo, embora a questão seja mais complicada para estruturar as condições desde direito do que pelo direito em si, do qual ninguém discorda que é justo, é certo que todas mulheres devam receber um suporte durante esse tempo de afastamento, só não sei se os termos são tão apropriados e justos para ambas as partes, vejo uma decisão unilateral que favorece apenas o funcionário.

    • Prezado Carlos,

      Obrigada por acompanhar o Brasileiras Pelo Mundo.

      Em resposta à alguns de seus comentários:

      – A maioria dos homens não aceitam ordem de mulheres. Nos meus mais de 11 anos de carreira passei pelos mais variados ambientes de trabalho, tanto no Brasil quanto no exterior, e afirmo novamente, sem sombra de dúvidas que a maioria dos homens não gostam de aceitar ordem de mulheres. Muitos acatam, mas nem sempre com a mesma naturalidade que acatariam de um homem. Isso muda um pouco em países europeus e parcialmente nos EUA, mas no Brasil isso é ainda mais evidente. Por mais que tentemos esconder, nós, brasileiros, vivemos em uma sociedade extremamente patriarcal. Esse patriarcalismo está tão enraízado que muitas vezes nem percebemos e tentamos argumentar o contrário. Vejo isso dentro das mais diversas camadas da sociedade e não apenas dentro de um ambiente profissional.

      – Quanto a questão “filhos”, concordo que deve ser uma decisão planejada pelo casal. Mas acrescento que também deve haver planejamento por parte do empregador, que sabe que precisará arcar com os custos de uma funcionária que irá se ausentar por conta da gravidez. Esse argumento de que a licença maternidade no Brasil só protege a funcionária não deve mais ser usado. Existem países que dão MUITO mais do que 6 meses de licença maternidade para a mulher, com benefícios, e possuem uma economia muito mais forte do que a brasileira. Muitos inclusive dão licença até para os pais. Existem inúmeros estudos que mostram os benefícios e aumento de produtividade de funcionárias(os) que puderam cuidar de seus bebês nos primeiros meses após o nascimento e como isso influencia na economia, portanto, não vejo isso como uma decisão unilateral que favorece apenas um lado. Acho que tal argumento, poderia ser classificado como uma visão imediatista de empregadores que só enxergam o que estão perdendo naquele primeiro momento, e não o que poderão ganhar dentro de alguns meses.

      • Prezada Lorrane, agradeço por ter respondido, só não repliquei antes pois pensei que seria alertado via email, mas tudo bem, faça-o agora.

        Concordo com você, embora não ache vergonha alguma em dizer que fui criado num sistema patriarcal, minha mãe criou três filhos com o meu pai, que por trabalhar fora, só víamos à noite. Minha mãe sempre trabalhou, em um consenso com o meu pai, numa decisão pautada pelo nascimento do primogênito, fez com que ficasse em casa para cuidar dele; posteriormente cuidaria de mais dois. Não vejo vergonha alguma nesse sistema, pois minha mãe foi uma rainha em todos aspectos e o meu pai também, conseguiram, nesse sistema, nos dar valores morais. E se fosse ao contrário? Seria ótimo do mesmo jeito, triste é os pais de hoje que têm que deixar seus filhos com terceiros porque ambos trabalham. Respeito sua opinião, discordo porque sei que essa raiz patriarcal não é um mal do homem, pois é uma visão defendida por muitas mulheres; da mesma forma é o machismo. A causa não está no homem.

        Sobre a gravidez, o empregador se preparar parar arcar os custos de uma gravidez de uma funcionária seria o mesmo que os pais se prepararem para o mesmo quando a filha entra na puberdade. Repito, são decisões e como tal devem ser divididas para que ninguém saia prejudicado. O empregador, infelizmente mesmo, se protege usado medidas preconceituosas, como você disse, pedindo exames ou mesmo sondando a vida pessoal para “certificar” que não “dará prejuízo”. Antes da lei, demitiam apenas em saber que estava grávida, agora, em não muitos casos, demitem pós período de estabilidade. As leis devem ter aplicação prática e abranger todos os casos, inclusive de algumas mulheres que utilizam a gravidez para evitar uma demissão ou casos análogos, ou que fazem corpo mole por estarem nessa condição, como se fosse, perdão da palavra, uma doença. Não é achismos, é vendo, convivendo e observando em cada lugar em que trabalhei. Meu argumento pode até ser imediatista por não contemplar todos os critérios, mas se fundamenta no princípio de igualdade, qualquer casal gostaria de se afastar para cuidar dos seus filhos. A mãe ainda possui uma carga de cuidados que lhe são naturais (amamentação), mas os homens, os de verdade, se importam e querem estar juntos; mas a lei pouco se importa com isso, afinal, na sociedade patriarcal o homem é de ferro, não chora e não sente. Esse é o nosso erro, pois devemos levantar essa bandeira por nós mesmos, como as mulheres vem fazendo, é nisso que admiro a luta e a valentia. Desculpe se me prolonguei, é que advogar leis sem resolver outras questões são, infelizmente, mais paliativos.

        Até mais.

        • A causa do machismo não está no homem. O homem então não é o maior agente e beneficiário do sistema machista e patriarcal, nessa sua visão. Está tudo errado. Como dizer que o homem não é a causa, se vivemos numa sociedade patriarcal onde tudo é criado para beneficiar homens, inclusive e principalmente em se tratando de leis? A maior expressão de você sequer ter ideia do que está dizendo é afirmar ter orgulho de ter sido criado num sistema patriarcal. Eu tenho vergonha de ter sido criada num sistema patriarcal, onde mulheres são submetidas a jornadas duplas e até triplas enquanto que para o homem a ‘obrigação’ é unicamente trabalhar fora e teoricamente sustentar a família – o que já sabemos ser inverdade na maioria dos lares brasileiros, que dependem principalmente da mulher. Por que sempre é a mulher que fica como responsável pela criação das crianças e por que é ela quem tem que abdicar do direito de poder ter uma vida enquanto mulher e ser humano para além da maternidade? Seu pensamento está confuso, vou tentar ajudar a clarear as ideias… Gostaria de ler apenas UM argumento seu que justifique que o machismo não é causado por homens para influenciar e direcionar a sociedade em seu benefício. O machismo é tão enraizado em nossa cultura que está naturalizado, como bem se vê na sua fala.

          “Triste é ver os pais de hoje que têm que deixar seus filhos com terceiros porque ambos trabalham.” Essa é a realidade de muitas famílias, não apenas no Brasil e sim, no mundo. Tanto homens quanto mulheres têm aspirações e devem ter as mesmas oportunidades na vida. Muitas dessas famílias onde ambos trabalham não podem se dar ao luxo de que um dos dois permaneça em casa, pois a renda precisa ser complementada. E por que tem de ser a mulher para ficar com os filhos e não o marido? E nas famílias homoafetivas, e outras composições familiares como mães solo, pais solo, o que fazem essas pessoas que precisam trabalhar, tendo ou não um parceiro(a) na vida? Toda a sua fala está impregnada de machismo, quer você aceite ou não. Você pode considerar a sua mãe uma ‘rainha’ (palavrinha usada por machistas para designar a mulher cuja maior virtude na opinião dos machistas é a de administrar o lar e cuidar das crianças, já que isso, “quem faz melhor são as mulheres”-outro estereótipo machista), porém você já perguntou pra ela quais sonhos ela tinha e quais desses sonhos se realizaram? Se ela estiver condicionada pelo machismo, o que é bastante possível, pode até mesmo ser que ela diga que o maior sonho dela era casar e ter filhos, né?

          Homens também são vítimas do próprio machismo, como você mesmo reconhece ao dizer que ‘na sociedade patriarcal o homem é de ferro, não chora e não sente’. Não precisa ser assim e essa é a luta do feminismo. Ao contrário do que muita gente acredita, o feminismo não prega o ódio aos homens e sim, o reconhecimento das pessoas como seres humanos capazes e que merecem as mesmas oportunidades e um tratamento justo perante a sociedade: isso, tanto para homens quanto para mulheres. E é justamente por isso que o feminismo bate na tecla de que o patriarcado precisa, antes de qualquer outra coisa, reconhecer seus privilégios e se abrir para as mudanças.

          É fundamental que leis como a da licença parental compartilhada – que inexiste nos EUA e Brasil mas já é uma realidade na Escandinávia, por exemplo – seja obrigatória e respeitada pelas empresas. Estamos falando de seres humanos, e seres humanos merecem respeito em sua humanidade. A constituição de uma família, seja ela de qual formato for, é um direito fundamental que precisa ser respeitado. O que acontece é que empresas em países como os EUA colocam a lucratividade acima de qualquer humanidade, e por isso há tantas pessoas trabalhando horas extras e se matando de trabalhar, sem poder ter tempo com sua família, seus amigos, enfim, ter uma vida social ativa. É fundamental que as empresas reconheçam que é preciso um óvulo e um espermatozoide para que haja um feto, e que a responsabilidade pela gravidez não é apenas da mulher, salvo nos casos em que ela opte por essa condição e mesmo que ela seja a única responsável, ela precisa ter o direito a uma gravidez tranquila, ainda que trabalhando, e direito de se ausentar se for preciso. E é fundamental que o direito da mulher de se tornar mãe caso ela queira seja respeitado juntamente com seu direito a querer continuar tendo uma carreira profissional, tanto durante a gravidez quanto após se tornar mãe de fato.

          Sobre seu argumento de grávidas que fazem ‘corpo mole’ eu só tenho uma coisa a dizer: você não sabe o que é uma gravidez e nunca saberá, pois homens não engravidam. Cada mulher tem um organismo e cada gravidez é diferente de mulher para mulher. Portanto, evite os julgamentos sobre algo que lhe é desconhecido. Se uma mulher grávida diz ter um mal estar, deve-se no mínimo acreditar nela, pois gravidez é algo que mexe com o corpo todo, no sentido físico e emocional. Eu já estive grávida e sei como é. Como eu disse antes, empregadores dos EUA parecem visar apenas o lucro, esquecendo-se de que estão lidando com seres humanos.

          Leis para proteger a mulher, que é mais vulnerável no sistema, são urgências que precisam ser tratadas de imediato. As mães devem ter o direito a uma licença prolongada ou mesmo opções para poder ter a cria perto, como creches na própria empresa e intervalos para amamentação durante o expediente. Os homens, em vez de questionar o que está sendo feito ou reivindicado pelas mulheres, deveriam pensar a longo prazo e se juntarem a elas nessa luta, pois os benefícios no fim podem se estender a eles mesmos, principalmente no que se refere à formação de uma nova família e as prioridades que um filho demanda.

          Caso deseje ler mais a respeito: http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/medio/a-dupla-jornada-das-mulheres/
          Tem ainda esse artigo de uma jurista, falando sobre leis trabalhistas para mulheres no Brasil: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2518
          E pra fechar, pesquisinha básica com um tema recorrente: o machismo, sua naturalização e consequências: https://www.google.dk/search?q=como+o+machismo+est%C3%A1+naturalizado+na+sociedade&oq=como+o+machismo+est%C3%A1+naturalizado+na+sociedade&aqs=chrome..69i57.12974j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8 – aqui tem vários artigos, recomendo esse em especial: http://unisinos.br/blogs/ndh/2013/09/09/reflexao-sobre-a-naturalizacao-do-machismo/

          Espero que as leituras sugeridas sirvam para reflexão, abertura do pensamento crítico e para lhe ajudarem a enxergar melhor a realidade, vislumbrando novas possibilidades.

    • Caro William,

      Obrigada por acompanhar o Brasileiras Pelo Mundo.

      Bastante infeliz o seu comentário e “sugestão”. Se você me conhecesse, saberia que eu trabalho PARA o Brasil e meu contrato segue as regras da CLT mesmo vivendo nos EUA. É justamente por isso que eu posso fazer a analogia que fiz no texto, tenho conhecimento de causa. Estou sempre aberta a comentários que diferem da minha opinião, no entanto, para que a discussão sobre o assunto se mantenha em um nível construtivo é necessário que os somentários deixados pelos leitores também sejam construtivos.

      Obrigada,

      Lorrane

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