Dez motivos para não morar na Islândia

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O trenó é muito prático em dias com neve e gelo. Foto: arquivo pessoal.
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Há pouco tempo, listei aqui alguns bons motivos para morar na Islândia: é um belíssimo país, seguro, pacífico, tranquilo, um lugar (teoricamente) perfeito, o sonho de muitos. Por que, então, tem tão pouca gente? Alguns geógrafos contestarão e não concordarão com o que direi a seguir: mas, se aqui fosse uns 20 graus mais quente, a Islândia seria uma Palma de Mallorca, com praias lotadas e turistas tomando cerveja em balde, de canudinho, pela noite afora. Dito isto, vocês já podem adivinhar o primeiro motivo para não morar aqui, quase no topo do mundo – como eles mesmos costumam dizer.

  1. O Clima

Na verdade, me deu vontade de fazer uma piadinha neste texto e enumerar os motivos assim: 1. o clima, 2. o clima, 3. o clima, etc. O clima da Islândia é predominantemente frio, com invernos longos e verões de temperatura amena. Aqui nunca faz calor, nunca mesmo! A temperatura máxima que já presenciei em Reykjavik foi 22°C. Dizem que já ouve um dia de 30°C no oeste, mas isso foi manchete de jornal e uma festa só, todas as piscinas públicas lotadas! A única vantagem é que, em um clima desses, não há inseto que aguente. Digo e repito que adoro esse fato sobre a Islândia: nem baratas, nem mosquitos, maravilha!

Os invernos são tempestuosos e ventos de 100km/h podem ocorrer em qualquer estação, mas, imaginem uma ventania dessas com temperaturas baixas, sintam o clima neste vídeo

  1. Invernos ruins

Vocês podem estar pensando: mas isso não faz parte do clima? Sim, faz, mas há países frios que têm invernos relativamente “estáveis”, com dias bonitos e onde a neve ameniza a falta de luz. O inverno é longo, muito escuro e instável, especialmente em Reykjavik, onde não neva tanto como no norte do país, por exemplo. Para os que dizem gostar de frio, sugiro passarem uma temporada na Islândia entre setembro e março e depois a gente conversa. Não venham esperando cenário de pista de esqui em St. Moritz, não…

Tempestade comum no inverno islandês. Foto: arquivo pessoal

3. A língua

Eu já falei sobre minha experiência com o idioma islandês nesse texto. É uma língua antiga, de gramática e vocabulário complicados, um desafio. Todo mundo fala inglês na Islândia, até crianças, mas se você quiser se integrar na sociedade, inteirar-se dos acontecimentos, conseguir um emprego bom e se sentir gente, tem que aprender a língua, o que vale para qualquer país.

  1. O custo de vida

Como eu também já mencionei aqui no blogue antes, a Islândia é o quarto país mais caro do mundo, mas os salários ocupam o 36° lugar na lista dos melhores, o que significa que não temos poder aquisitivo bom. O crescimento galopante do turismo tem contribuído para a especulação imobiliária e o aumento dos preços em geral, principalmente, nos ramos de lazer e gastronomia. E isso é mais um motivo para não morar aqui…

  1. Diversão cara

Como já diziam os sábios Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, e isso, na Islândia, não é tão fácil, não. Você tem que ganhar muito bem para poder se manter e ainda conseguir dar uma saidinha, mesmo que seja um cinema no dia da promoção. Há alguns eventos com entrada franca ou abertos, principalmente no verão; mas, no inverno, são pouquíssimas as opções. Jantar fora é sempre uma brincadeira bem salgada; uma cervejinha num barzinho, então… Até um cafezinho, numa lanchonete simples, custa aqui o mesmo que em alguns hotéis 4 estrelas por aí…

  1. Transporte público sofrível

Eu adoro esse adjetivo, não existe palavra melhor para definir o sistema de transporte público na Islândia. É caro, os ônibus são raros e você ainda tem o clima para tornar sua espera bem agradável… Os islandeses tiram carteira de motorista com 17 anos e todo mundo tem carro. Para quem não dirige, como eu, ou não tem carro, usar o transporte público é uma prova de paciência e bravura. Na minha opinião, é triste.

  1. Sociedade pequena e fechada

Uma amiga minha alemã, muito positiva, bem no estilo Poliana, disse uma vez que a vantagem de uma sociedade pequena como esta é uma certa “unidade cultural”, pois existem um gosto e uma identidade comuns. Eu achei isso quase “fofo”, mas não concordo.

Apesar de ter uma capital bastante cosmopolita para o seu tamanho, aberta e descolada, a Islândia é relativamente provinciana ao imitar os outros escandinavos e estadunidenses descaradamente. Também observo comportamentos quase infantis com relação a modas, seja no vestuário, seja na alimentação ou mobiliário. É interessante de se observar, mas pode ser chato de se viver, eu acho.

Outra coisa são as pessoas: tive a sorte de entrar numa família maravilhosa, muito carinhosa e acolhedora, mas lamento confirmar aquele famoso esteriótipo sobre os povos nórdicos. É muito difícil fazer amizade com nativos. Meus amigos islandeses, ou são casados com estrangeiros(as), ou moraram muito tempo no exterior. Por outro lado, os islandeses são maravilhosos, prestativos e tolerantes, bem humanos – depois que você “quebra a casca” e tem a honra da convivência com eles.

8. O isolamento geográfico

Com o turismo crescente (30% neste ano e expectativa de 40% no ano que vem), o número de voos para a Islândia também aumentou consideravelmente. Mas, mesmo assim, você não encontra opções baratas para ir passar um fim de semana fora, como nos outros países europeus. Ofertas da Easyjet por quaisquer 20,00 EUR/trecho, ai, quem dera! Nem ir para a Groenlândia, que é aqui ao lado, é barato. Então, se você não for rico, qualquer viagenzinha tem que ter planejamento, e o orçamento tem que estar mais gordo.

  1. Fenômenos naturais

Se você é medroso ou paranóico, não pode morar aqui: terremotos (ainda que pequenos) são rotina e, a qualquer hora, um vulcão pode entrar em erupção. O vento é veloz, muito veloz! Não temos tsunamis (eu aprendi “maremoto”, mas é a mesma coisa, não?), porque as placas tectônicas aqui estão se separando, ao contrário das da Ásia. E tempestades, com chuva ou neve são normais, como eu disse acima. Muitos lugares cheiram a enxofre por causa das fontes de água termal e gêiseres, ou a peixe (por causa de fábricas ou armazéns de pesca).

10. O décimo motivo eu não achei. Não um motivo geral, este será questão de gosto. Pode ser o Estado ligado à Igreja – o que, na verdade, nem influi muito nas decisões ou na mentalidade política, pois estamos num país muito liberal, no qual duas pessoas do mesmo sexo casam “no religioso”. Pode ser a comida, muito peixe (há quem não goste), cordeiro. Pode ser porque as coisas aqui não são tão sérias e não funcionam tão perfeitamente como em alguns lugares da Europa. A Islândia, na minha opinião, é um daqueles bons exemplos de amor ou ódio: não há meio termo, não há como gostar “mais ou menos”. Há como se acostumar, isso, sim. Mas uma coisa é certa: a Islândia não é para os fracos.

13 Comentários

  1. Olá Erika,

    Lendo o seu texto, notei tantas similaridades entre a Islândia e a Holanda, onde moro há 16 anos. Porém tudo parece realmente mais extremo na Islândia, tanto os pontos negativos quanto os positivos.
    Eu já vivo reclamando do clima holandês. Imagina eu vivendo aí, então! Mas é como você mesma escreveu: há como se acostumar.
    A Islândia sempre esteve na minha “bucket list” de lugares que eu ainda preciso visitar um dia. No final de abril, finalmente vou realizar esse desejo. Estarei indo com marido e filho por uma semana para Reykjavik e redondezas.
    Fora a natureza espetacular, queria muito ver a aurora boreal. Porém, li que os melhores meses para isso são entre outubro e março. O que você acha? Tenho chance ainda?

    • Olá, Roze,
      muito obrigada por ler e comentar., fico feliz que gostou do texto!
      Em abril já está bem claro, as chances de ver a aurora são menores do que em março, mas nada é impossível nos primeiros dias do mês. No fim do mês, já não temos mais noite, aí a aurora não aparece mais…
      Boa sorte com a sua viagem, qualquer dúvida, estamos aqui.

  2. Seu texto foi compartilhado hoje num grupo do Facebook de brasileiros na Dinamarca e deu o que falar…
    Eu gostei muito e embora deseje visitar a Islândia, penso que dificilmente eu me adaptaria a tanta neve e frio mas quem sabe do que o ser humano é capaz? Fico admirada com a sua coragem e perseverança de tantos anos de Europa do Norte, tendo
    vindo da região do Brasil de onde você vem. Deve ter sido uma mudança e tanto! Ao mesmo tempo, acho fantástica a capacidade de adaptação do ser humano, ainda mais quando tem um motivo forte para isso. O amor é um bom motivo…
    Beijos e obrigada por mais um delicioso texto 🙂

    • Obrigada, Cris!
      Puxa, fiquei até emocionada com o comentário! É verdade, o que a gente não faz por amor? Principalmente o amor às crianças, pois, hoje em dia, acho que não tem melhor lugar para elas crescerem do que esta sociedade pacata e pequenina, apesar do gelo e das loucuras que também acontecem por aqui de vez em quando…
      Super obrigada por compartilhar aí na Dinamarca, também. Fiquei curiosa para ver os comentários, pede para o pessoal comentar no blogue?
      Sou super grata por fazer parte da família BPM.
      Beijo grande 🙂

  3. Olá ! Segundo comentário meio aqui , realmente vc consegue passar para o leitor algo quase como se estivéssemos aí ! Estou me organizando para ir por esses dias por ai, tentando convencer a esposa! Vi um episódio do mundo pelos brasileiros e acho que vc é a Erika de lá correto ? 😁 Parabéns mais uma vez de um leitor Mossoroense – Natalense! Abraços

    • Olá, Carlos,
      muito obrigada por ser um leitor assíduo, fico feliz que você gosta dos artigos!
      Eu participei, sim do programa “O mundo segundo os brasileiros”, já vai fazer dois anos!
      Desejo boa sorte nos preparativos da sua viagem, qualquer coisa, estamos aqui.
      Abraço!

  4. Ótimo texto, Erika! Seus textos me deixam cada vez mais intrigado — e, de certa forma, pensativo, até perturbado — sobre o sonho de morar na Islândia. Seu trabalho por aqui no blogue é maravilhoso, parabéns, e, novamente, ótimo texto. Abraços.

  5. Hi, I undestand a little bit that you write and as a french family living in iceland for 2 years we totally agree with you about climet, geography, social, and viking thinking!
    Bless

  6. Olá, Erica! Parabéns pelo blog. Eu e meu marido vamos para a Islândia no final de maio passar uma semana. Seus relatos são os mais esclarecedores e bem escritos (isso faz toda a diferença!!). Gostaria de saber se é preciso reservar os tours pela internet ou dá pra escolher quando chegar? Não vamos alugar carro então dependemos de poder conciliar uns 4 passeios nessa última semana de maio numa agência daí. Corre o risco de não ter lugar? Obrigada. Abs

  7. Hahahahaha…Toda vez que sinto alguma insatisfação na minha vida, abro o Google e fico vendo as fotos maravilhosas desse País. Desta vez, fiz diferente e li seu texto! Adorei! Nada como um choque de realidade. Pena que agora vou ter que procurar outra válvula de escape para as minhas angústias! Grande abraço!

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