Diferenças entre Estados Unidos e Holanda – Parte 2

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No meu texto anterior, abordei aspectos como clima, parques, densidade demográfica, transporte público, sistema educacional, sistema de saúde e leis trabalhistas na Holanda e nos Estados Unidos. Aqui dou continuidade às comparações entre esses países com enfoque mais aprofundado em dois temas de meu interesse: patriotismo e consumismo.

  1. Patriotismo

Ainda que existam diferentes definições de patriotismo e nacionalismo, este estudo argumenta que o consenso entre pesquisadores da área é de que patriotismo seria “o grau de amor e orgulho pela sua nação”, enquanto nacionalismo seria um “senso de superioridade e necessidade de dominância sob o estrangeiro”.

Contudo, até mesmo patriotismo, que tende a ser visto como uma qualidade positiva, pode resultar em discriminação de pessoas de outras nacionalidades, conforme disserta este capítulo. De acordo com este estudo, símbolos patriotas cotidianos como a bandeira dos EUA despertam nos estadunidenses um sentimento de superioridade em relação a outros países.

Um estudo de 1998 concluiu que estadunidenses são as pessoas mais patriotas do mundo – na época, 90% dos sujeitos responderam que prefeririam ser cidadãos dos EUA a quaisquer outros países. Contudo, uma enquete de 2016 revelou que 52% dos respondentes se consideravam “extremamente orgulhosos” de serem estadunidenses – um declínio significante em comparação a 70% em 2003.

Este artigo científico concluiu que o patriotismo difere bastante entre grupos – pessoas jovens com bom nível de educação não apresentam quaisquer fortes formas de sentimento patriota, enquanto pessoas mais velhas com menor nível de educação adotam todas as formas de sentimento nacionalista avaliadas no estudo.

Os dados que trago sobre a Holanda diferem dos apresentados acima porque existem menos dados comparáveis disponíveis. Começo pelos resultados da última eleição: em março de 2017, holandeses rejeitaram o partido de Geert Wilders, candidato de extrema direita, que incitava valores nacionalistas e pretendia acabar com a imigração de muçulmanos para a Holanda, além de retirar a Holanda da União Europeia. Contudo, este partido foi o segundo mais votado.

Este artigo da Universidade de Amsterdã destaca uma nuance deste tema, o “nacionalismo antinacionalista” holandês, caracterizado por um orgulho em afirmar que os holandeses são um povo aberto, tolerante, progressista, e não patriota. Entretanto, os autores argumentam que essa identidade cultural é justamente uma apresentação moderna de um nacionalismo antigo que tem diversas consequências políticas, tais como a demanda social por “integração” de estrangeiros na cultura holandesa para que sejam aceitos na sociedade, que, por vezes, significa abrir mão de aspectos de sua própria cultura.

Casas com bandeiras dos EUA em Columbus, Ohio. Fonte: acervo pessoal.
  1. Consumismo

Nesta definição acadêmica, consumismo é “uma forma de vida que sacrifica outros bens para maximizar o consumo de bens econômicos, apesar de este consumo exceder a necessidade”. De acordo com a Associação Psicológica Estadunidense (APA), as pessoas dos EUA, cada vez mais, gastam mais do que ganham, a porcentagem que eles guardam na poupança caiu de 11% de sua renda em 1982 para menos de zero em 2008, e o número de pessoas que vão à falência financeira é recorde.

O número de shoppings nos EUA aumentou duas vezes mais rapidamente que a população entre 1970 e 2015, e os EUA têm 40% mais área de shoppings que o Canadá, 5 vezes mais que o Reino Unido e 10 vezes mais que a Alemanha. Lorrane, autora do BPM, já escreveu sobre a quantidade de roupas jogadas no lixo nos EUA, consequência da compra desenfreada de roupas.

O problema chega a tal ponto que, na Black Friday, sexta-feira do feriado de ação de graças em que lojas oferecem descontos gigantescos, pessoas são machucadas e até mortas nas multidões. Em 2016, foram 10 mortos e 105 feridos. O vídeo acima deste texto retrata uma multidão gritando e entrando em uma loja à meia-noite da Black Friday de 2011. Às vezes, as multidões quebram as portas das lojas ao entrar.

As razões para o consumismo, argumenta a APA, seriam especialmente duas:

A) Autocontrole é mais difícil quando se está sob estresse, com prazos no trabalho, ou em uma relação pessoal difícil. Além disso, o pesquisador Bruce P. Rittenhouse da Universidade de Chicago diz que “a razão pela qual estadunidenses se mantêm ligados ao consumismo é porque este tem uma função religiosa de dar às pessoas uma resposta ao problema existencial de significado” – ou seja, vida sem sentido, pessoa consumista.

B) As pessoas são muito expostas a propagandas nos EUA. Esta análise destaca que o estadunidense típico terá visto quase 6 milhões de anúncios de publicidade aos seus 16 anos, o que significa mais de um por minuto em que a pessoa está acordada. A associação de pediatria dos EUA diz que esta exposição à publicidade tem efeitos muito negativos nas crianças, tais como obesidade, má-nutrição e uso de cigarro e álcool, e que educação em mídia pode diminuir alguns desses efeitos.

Já na Holanda, 78% da riqueza do país está em poupanças – a maior taxa da Europa – com mais de metade dos holandeses dizendo que guardar dinheiro é o seu maior objetivo financeiro. Uma análise do Banco Central Holandês concluiu que as famílias holandesas guardam mais dinheiro quando os preços caem.

Em 2015, a Holanda proibiu publicidade de alimentos para crianças até 12 anos (nos EUA, há forte oposição a tal medida, ainda que evidência científica indique que este é o melhor caminho). Por exemplo, personagens de desenhos deixaram de aparecer em embalagens de alimentos não saudáveis como bolachas recheadas.

Além disso, a regulamentação de publicidade para crianças (página 44 deste código) estabelece que não é permitido manipular as crianças com mensagens que ignoram a sua capacidade de compreensão e expectativas, encorajar a comprar explorando a sua falta de conhecimento ou confiança em adultos, e, muito interessantemente, não é permitido sugerir que a posse de certo produto lhes confere vantagem social ou física.

O perfil de consumo na Holanda tem apresentado tendências políticas – o chamado consumo político. Consumidores políticos se expressam no ato de comprar: boicotam ou reduzem o consumo de certos produtos (por exemplo, marcas que utilizam trabalho escravo e infantil) e adaptam seu estilo de vida para refletir valores (por exemplo, se tornar vegano).

Este estudo revelou que um terço dos holandeses comprou alimentos baseados em preocupações com o meio-ambiente e animais em 2013, enquanto 15% boicotou produtos em 2014. A porcentagem de pessoas que boicotam produtos triplicou desde 1970 (na época, 5%), mas ainda é baixa em comparação a Noruega, Finlândia, Suécia, Suíça e Alemanha. O mesmo estudo concluiu que estes consumidores políticos são geralmente pessoas altamente educadas, jovens e mulheres. As mesmas tendências acontecem nos EUA, e uma enquete de 2017 mostrou que 25% dos estadunidenses disse já ter boicotado marcas por razões políticas.

Em sua tese de mestrado, Pieter van de Glind avaliou se a população de Amsterdã está disposta a se engajar em uma modalidade chamada “consumo colaborativo” – ao invés de comprar itens para uso individual, compartilhar, emprestar e trocar itens dentro de uma comunidade. Sua análise concluiu que 84% das pessoas estão interessadas em participar! Finalmente, a Holanda tem sido pioneira em negócios sustentáveis – por exemplo, todos os trens já são movidos 100% à energia eólica, e os aeroportos serão até 2020.

Gostou destas informações? Na sequência, abordarei temas como eutanásia, aborto, prisões, maconha, assistência social, imigração, diversidade, sucesso, amizades, falar uma segunda língua, veganismo, espaço pessoal e viajar no país. Deixe sua sugestão de temas nos comentários se tiver qualquer curiosidade não listada aqui! Muito obrigada e até a próxima!

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