Dinamarca – Superando problemas no relacionamento intercultural

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Fonte: Arquivo pessoal da autora
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Olá queridas e queridos,

Cá estava eu, um uma das minhas frustrantes tentativas de aprender dinamarquês, assistindo o pitoresco reality show “gift med første blik” (“casados à primeira vista, em português), no qual pessoas que nunca se viram antes são “combinadas” por uma série de especialistas, e se casam em seu primeiro encontro. Os casais têm que passar cinco semanas juntos e optar por continuarem juntou ou por se divorciarem, e por mais que a premissa do show possa parecer estranha, ela faz sentido aqui na Dinamarca, um país que conta com uma taxa de divórcio de 46%, ou seja, praticamente a metade dos casamentos celebrados no país dos contos-de-fadas termina em ruptura.

Toda vez que encontro brasileiras e brasileiros, sempre acabamos comentado sobre as dificuldades nos nossos relacionamentos amorosos com dinamarqueses. Se já é difícil ter um relacionamento amoroso saudável, equilibrado e feliz com alguém que nasceu e cresceu no mesmo país que a gente, que fala a mesma língua, que também se criou vendo os mesmos episódios repetidos de Chaves na TV, ouvindo É o Tchan nas festinhas do colégio e afundando as mágoas ao som de Reginaldo Rossi, imagine o quão desafiador é ser bem-sucedida no casamento se comunicando em outra língua, com uma pessoa que cresceu em um país com expectativas sociais completamente diferentes das nossas, e que nunca assistiu Lua de Cristal, aquele marco apoteótico do cinema brasileiro que pautou o meu ideal de relacionamento e me fez acreditar, por anos, que o Sérgio Mallandro era o arquétipo do príncipe encantado.

Nestes anos juntos, meu marido e eu protagonizamos brigas dignas de novela mexicana dublada, daquelas exibidas à tarde no SBT, antes de nos sintonizarmos, e isso não aconteceu do dia para a noite: foram necessárias diversas conversas e mudanças de ponto de vista até que pudéssemos nos entender, e volta e meia ainda ainda temos momentos desafiadores. Por isso, achei que seria interessante partilhar as principais lições que aprendi nesses anos ao lado do meu amado (e paciente) esposo e espero, de todo o coração, que este post ajude àqueles que ainda estão buscando um equilíbrio na nada fácil tarefa de construir uma relação intercultural harmoniosa.

Em primeiro lugar, ao se relacionar com um dinamarquês, é necessário deixar as suas expectativas para trás e tentar entender o outro lado sem julgar, pois por vezes nós nos esquecemos de que a outra pessoa cresceu em outra cultura, com outras normas sociais e outros parâmetros, e interpretamos as atitudes do outro como algo direcionado a nós.

Vou lhes contar uma fábula doméstica: certo dia, depois de passar horas na cozinha fazendo o jantar, vi meu marido se levantar da mesa para ir servir-se de uma segunda porção sem sequer perguntar se eu também gostaria. Neste momento, eu simplesmente montei num porco (como dizemos lá no Rio Grande do Sul) e, bufando de raiva, esbravejei que ele era um mal-educado e que não se importava comigo (creiam-me, sou a fiel herdeira da tradição italiana do drama familiar cotidiano).

Pois bem, por mais que a atitude dele tenha sido descortês, a verdade é que ela não tinha nada a ver comigo, e sim com o fato de que ele foi criado em uma sociedade individualista, na qual cada um se levanta para buscar sua comida e não é hábito esperar pelo outro. Parei para analisar e me dei conta de que nenhum dos meus colegas- homens ou mulheres- segurava a porta para mim no trabalho quando eu estava carregada de sacolas, ou se oferecia para me trazer um café quando eles iam buscar os seus. Para falar a verdade, quando eu dizia “vou buscar um café. Alguém quer também?”, meus colegas me olhavam com um misto de incompreensão e desconforto, porque eles não estão acostumados com essas práticas de civilidade, que são extremamente comuns em outros países. Eles também não esperam por você, e frequentemente caminham passos a sua frente, lhe deixando literalmente para trás.

Já por outro lado, quando meu marido cozinhava, eu podia elogiar a comida por horas, mas se não dissesse as palavras mágicas “tak for mad” (obrigada pela comida), percebia que ele ficava incomodado, pois aqui na Dinamarca é deselegante não agradecer explicitamente, e especificamente nestes termos, quando alguém cozinha para você ou mesmo pede uma pizza delivery. A lição que aprendi é que antes de julgar e rotular meu querido cônjuge como um crápula insensível, é mais produtivo conversar, tentar entender e chegar a um acordo sobre as práticas que são importantes para cada um de nós. E não, não é porque estamos na Dinamarca que temos que agir como dinamarqueses, mas é saudável que cada casal dialogue e estabeleça o que faz sentido para os dois.

Além disso, por vezes também é necessário superar nossa eterna frustração com as lacunas do sistema educacional dinamarquês e sua repercussão em nossos cônjuges. No Brasil, um jovem de classe média terá estudado em um colégio particular e terá, em regra, se empenhado para sorver todos os espectros da gama do conhecimento imprescindível para lograr aprovacão no vestibular ou no Enem, como a ordem das civilizações da Mesopotâmia antiga ou o ciclo reprodutivo da salamandra.  Pensar em não fazer faculdade, aliás, é um crime passível de punição severa, variando entre o ostracismo familiar e o eterno tratamento carinhoso de “folgado”.

Já na Dinamarca, a equidade salarial faz com que muitos jovens optem por uma educação técnica desde o ensino médio, voltando-se desde cedo para aspectos mais práticos. Obviamente, os requisitos deste tipo de eduçacão são outros, muito menos enciclopédicos e muito mais “mão na massa”, e com uma competição baixíssima para ter acesso ao ensino superior, a pressão de ler e compreender a versão dinamarquesa do Sermão da Sexagésima é bem menor.

Como resultado, nós brasileiros frequentemente nos espantamos e nos decepcionamos com a falta de conhecimento dos dinamarqueses, mesmo daqueles que ocupam altos cargos.  Expressões comuns entre nós não fazem sentido para eles, que não entendem que “aplicar os princípios de Lavoisier à culinária doméstica” significa usar as sobras do almoço para fazer o jantar, e conhecimentos elementares de física e química também mandam lembranças.

Muitas vezes este panorama nos desestimula, já que sentimos dificuldade em admirar o parceiro ou parceira, ou mesmo nos comunicar com eles. Entretanto, isso pode ser uma oportunidade de aprendizado conjunto, e também de compreender o que é realmente importante na vida do casal, afinal, de que vale ter um companheiro ou companheira versado(a) se esta pessoa não lhe apoia, não é leal ou não busca lhe fazer feliz? Eu sempre me orgulhei de ser a encarnação da Enciclopédia Barsa, e embora meu marido dinamarquês não tenha ideia da conjuntura sócio-política que levou à instauração de um período monoteísta no Egito Antigo, ele é um companheiro inigualável, cuja ternura e carinho – e, sejamos sinceros, paciência – compensam em léguas estas outras questões.

Finalmente, alguns e algumas de nós tivemos a sorte de sermos agraciados com cônjuges românticos, mas isso não é a regra na Dinamarca, um país pautado pela praticidade nórdica. Poucos são os dinamarqueses que compram flores para suas esposas, que planejam férias em um hotel com banheira de hidromassagem ou que pensam em surpresas de arrebatar o coração, mas isso não significa que eles não amem profundamente suas parceiras, e sim que eles simplesmente não foram criados com estes padrões em mente.

A falta de romantismo em si não é um problema, pois tudo pode ser resolvido com base no diálogo. Contudo, por vezes nós vamos nos ressentindo, vamos somando mágoas e dissabores, e em vez de comunicarmos nossas necessidades de uma maneira madura e saudável, simplesmente despejamos fel e frustração em nossos parceiros, culpando-os por não nos valorizarem da maneira que nós achamos ser correta. Nessa hora é importante pensar em como você gostaria de seu companheiro ou companheira conversasse com você, caso ele ou ela considerasse que algo não vai bem.

Acusações ou dramas costumam surtir pouco efeito nos dinamarqueses, que acabam se afastando emocionalmente. Ao invés disso, que tal conversar em tom amigável, salientando que essas coisas são importantes para você, e não que a pessoa fez algo errado?

Enfim, meus caros e caras, viver um relacionamento intercultural é certamente desafiador, mas também nos faz crescer muito e, com muito carinho e compreensão de ambas as partes, é possível ser plenamente feliz com sua cara-metade dinamarquesa.

Beijos e até a próxima!

23 Comentários

  1. Nossa, Camila, eu estava precisando ler algo assim hoje, obrigada rs. Meu marido é eslovaco e às vezes parece que somos de planetas diferentes! Em relação a romantismo e interesse cultural não posso reclamar, porém sempre surgem situações em que pensamos completamente diferente. Às vezes me empolgo e falo alto, ele já acha que estou brigando, pois os eslovacos em geral são bem contidos. Eu odeio cozinha e sala integradas, já que no Brasil isso não é muito comum e minha mãe sempre está lavando a cozinha inteira e reclamando de como esse espaço fica engordurado. Ele ama cômodos integrados e não entende a minha birra, então já viu o dilema na hora de escolher o nosso apartamento. Quando começamos a namorar eu não tinha o hábito de tirar os sapatos ao entrar em casa, aí já viu o sermão que levei… É uma luta diária, mas então penso em tudo o que você mencionou: o companheirismo, o amor etc. Aí respiro fundo, me acalmo e sigo em frente. Um beijo, boa sorte pra gente rs.

    • Oi Samantha!
      Muito obrigada pelo seu comentário! Olha, eu também me identifiquei com os seus relatos…rsrsrsrrs…..essa de tirar o sapato foi uma longa briga, porque às vezes eu chegava em casa pra ficar 5 minutos antes de sair novamente, e mesmo assim tinha que tirar o sapato. Também sucumbi à cozinha integrada, apesar de achar que é um saco ter que ficar limpando o tempo todo, porque não dá só pra fechar a porta pra disfarçar a bagunça.
      Claro, com o passar do tempo a gente acaba dando risada, mas no início é complicado. Espero que vocês sejam muito felizes, e que esses desafios os tornem ainda mais unidos.
      Beijos

  2. “é possível ser plenamente feliz com sua cara-metade dinamarquesa.”
    Excelente texto, me vi a cada palavra e episódio relatado. Obrigada!

  3. Que coisa mais deliciosa e acalentadora de ler! O meu é peruano, mas mora na Alemanha há 12 anos – é uma mistura de culturas, tradições e costumes incontáveis. É bastante desafiador estar com ele, mas muito gratificante. E essa atitude de respeito que temos que ter, e a qual você elabora muito bem, me fez amadurecer muito.
    Um beijo!

    • Oi Helena, tudo bem?

      Muito obrigada pelo seu comentário. Nossa, você deve viver na pele esses desafios, ainda mais com uma mistura mais complexa ainda! Fico feliz em saber que esses desafios lhe proporcionaram amadurecimento, e admiro a sua atitude de respeito e gratidão. Beijos e até a próxima!

  4. Nossa que texto incrível, esses foram alguns motivos porque meu relacionamento acabou. Fora que você explicou exatamente como eu me sentia sobre essas diferenças culturais.Que linda que você é, já virei fã, como faço para segui-la?Beijos e parabéns pelo excelente texto.

    • Oi Danubia, tudo bem?
      Muito obrigada pelo seu comentário! Essas diferenças culturais não podem ser subestimadas, não é? No dia-a-dia, elas se somam e vão tomando dimensões gigantescas, frequentemente levando ao fim do relacionamento. Eu espero de verdade que, apesar do término, você hoje esteja feliz 🙂 E fiquei muito lisonjeada com essa fã 🙂 Você pode seguir meus textos aqui no Brasileiras pelo Mundo. Beijos

  5. Boa tarde ,Camila. Gostei muito da suas dicas Meu marido é austríaco,muito diferente de nós brasileiros, fico na luta constante. Mas é verdade com sabedoria amor e muito diálogo é que vencemos ,sei que não é tão fácil ,mais o bom é que aprendemos muito.

  6. Texto excelente e delicioso de ler. Obrigada por trazer a tona pensamentos que nao sao so meus, e sim comuns aos casais interculturais. Fico feliz em nao ser a unica a passar por esses ‘perrengues’, e nem a unica tentando a cada dia se colocar no lugar do outro e ponderar a cada divergencia. Sorte e empatia pra gente, sempre. 🙂

  7. Não vivo na Dinamarca e sou bem casada com um brasileiro mas mesmo assim amei! heheheheh
    Obrigada por compartilhar e nos estimular a ser pessoas melhores. bj e até a próxima

  8. Camila
    Faço minhas literalmente TODAS as suas palavras. Vivo há quase 15 anos a “aventura” diaria de um casamento entre o yin e o yang – uma médica brasileira com PhD e um håndværker dinamarquês que cresceu na fazenda. Conheço até do avesso a descrição dos desafios que você ilustrou 🙂
    Crescemos muito com os ups and downs, e com toda sinceridade não trocaria nossa vida recheada de diferenças e dificuldades por nada nesse mundo. Quero por vezes mudar de país, mas carregando o maridão a tiracolo :-). E graças a Deus ele embarca nas minhas ideias malucas, e assim vamos tocando essa vida intensa e nada entediante entre uma “portuguesa” de sangue quente e um viking de sangue frio (mas com o coração maior do mundo).
    Que você seja muito feliz na sua “aventura” com o seu príncipe viking – e que vivam o amor e o diálogo. Grande abraço!

    • Olá Thais, tudo bem?
      Adorei ler seu relato e sua história de vida, e acho que encontrar esse equilíbrio é uma jornada fascinante. Espero que sua trajetória siga cheia de compreensão e diálogo. Muitos beijos!

  9. Oi Camila,

    tambem sou colunista do BPM e casada com um egipcio. Apesar de ser um universo totalmente diferente da Dinamarca, ainda sim me identifiquei muito com seu texto. Ate conhecermos um pouco mais da cultura e configuracao mental do outro, sempre tendemos a pensar que as atitudes deles sao contra a gente e nao algo esperado e aceitavel no contexto deles. Tambem protagonizamos brigas e brigas e so comecamos a nos entender depois que moramos um tempo no pais de cada um, pois inicialmente nos conhecemos, casamos e moramos em um terceiro pais. Quando moramos um tempo no Egito e depois um tempo no Brasil, constantemente nos pegavamos falando “Ahh, por isso aquela vez ha dois anos voce agiu assim naquela hora ou naquela briga”. E um constante exercicio de paciencia e empatia.

    E apenas uma observacao: tambem me deixa louca ele nao entender nada de biologia na hora de tomar um remedio ou um minimo de quimica e fisica para ser aplicada na hora de cozinhar. Ele escolheu humanas e passou longe de tudo isso na escola.

    Adorei o texto!

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