Entrevista com Marina Duque, cientista política em Harvard

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Fonte: acervo pessoal
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A Paula, autora aqui do Brasileiras pelo Mundo, teve o prazer de entrevistar a doutora Marina Duque, que, atualmente, faz pós-doutorado em Harvard no Programa de Segurança Internacional. Marina fez doutorado em Ciência Política na Ohio State University e trabalhou como diplomata no Brasil. Nesse texto, ela conta sobre sua trajetória e oferece dicas valiosas a quem quer também fazer carreira nesta área! 

BPM: Onde você cresceu? Como decidiu que queria estudar Relações Internacionais?

Marina: Nasci em Belo Horizonte, e desde criança tinha muita vontade de conhecer outros lugares. Comecei cedo a estudar outras línguas, muitas vezes sozinha mesmo. Pegava discos dos Beatles e ouvia até tirar as letras de ouvido, e assistia a filmes com um caderninho na mão para anotar palavras novas. Quando uma amiga do colégio me contou que uma agência de intercâmbio tinha um concurso de bolsas, me inscrevi na hora. Aí ganhei uma bolsa para fazer intercâmbio nos Estados Unidos, o que foi uma experiência ótima. Eu tinha interesse em outros países e em ciências sociais, mas não conseguia escolher uma disciplina só, como história ou economia. Quando ouvi falar do curso de Relações Internacionais, que tinha influência de várias disciplinas (e a palavra “internacional” no nome!), soube que era o meu curso.

BPM: Como foi a sua trajetória até ir fazer doutorado na Ohio State University (OSU)?

Marina: Quando comecei a me preparar para o vestibular, a Universidade de Brasília (UnB) era a única universidade pública que oferecia o curso de Relações Internacionais. Então estudei bastante até passar no vestibular de lá, que era bem concorrido. Além de português e inglês, o vestibular colocava ênfase em matemática e física – o que me levou a fazer até cursinho preparatório para o ITA! Valeu a pena cada minuto. Me encontrei na UnB, onde muitos dos meus colegas vinham de vários cantos do Brasil e tinham os mesmos interesses que eu. Por estarmos na mesma cidade que o governo federal, tínhamos oportunidades ótimas de estágio ainda durante a faculdade. Como me interessava por segurança internacional, fiz estágio no Ministério da Defesa (MD) e depois fui convidada a trabalhar lá. Na época eu estava decidindo entre seguir carreira acadêmica ou trabalhar no governo. Como não havia uma carreira para civis no MD, resolvi sair de lá e fazer mestrado na UnB. Também comecei a estudar para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática, fazendo cursinho e lendo um livro por dia para dar conta da bibliografia. Foi uma alegria passar no concurso, ainda mais porque vários amigos da UnB passaram junto. Trabalhei por alguns anos no Itamaraty, onde tive experiências como participar de reuniões da Unesco, preparar visitas de chefes de estado e participar de negociações para construir (literalmente) uma ponte entre o Brasil e a França. Mas a vontade de fazer pesquisa permanecia, então resolvi pedir licença para fazer doutorado.

BPM: Como você se preparou para o doutorado nos Estados Unidos?

Marina: Para identificar os programas de doutorado que me interessavam, consultei o ranking do US News & World Report e o website de cada departamento para ver se havia professores com quem gostaria de trabalhar. Como há muitos programas de doutorado, cada um tem uma identidade específica. Por exemplo, o programa da OSU é conhecido pela diversidade de perspectivas teóricas e metodológicas. Para selecionar candidatos, os departamentos prestam atenção não somente nas notas como também em quanto a pessoa se encaixa no perfil do departamento. Para preparar meus materiais, procurei exemplos online e dicas de professores na minha área (como essa e essa). Também usei o livro “Cracking the GRE, que tem edições atualizadas todos os anos. Não é necessário enviar um projeto de doutorado.

Marina com os professores Richard Herrmann, Randall Schweller e Alexander Wendt (da esquerda para a direita), sua banca, no dia da defesa do doutorado. Fonte: acervo pessoal.

BPM: Existem diferenças marcantes entre atuar nesta área no Brasil versus nos Estados Unidos?

Marina: O campo de Relações Internacionais foi fundado recentemente no Brasil, e ainda há poucos programas de doutorado na área. A pesquisa mais influente tende a ser conduzida nos EUA ou na Europa. Os EUA enfatizam mais o treinamento em métodos de pesquisa – área que considero importante. Também existem mais opções de programas de doutorado bons com critérios de admissão semelhantes (GRE, TOEFL), o que cria ganhos de escala para quem tenta uma vaga de doutorado. Os candidatos mandam sua inscrição direto para o departamento, que geralmente oferece vagas com bolsa ou outras formas de financiamento. Como contrapartida, os alunos trabalham como assistentes dos professores ou dão a própria aula.

Nos EUA, as Relações Internacionais são uma sub área da Ciência Política, o que me levou a aprender bastante sobre política em geral e ter uma visão mais abrangente da minha área. Além disso, há tipos de pós-graduação diferentes dependendo dos seus objetivos profissionais. O doutorado acadêmico dura em média 6 anos e talvez não seja a melhor escolha para quem não quer seguir carreira acadêmica. Há mais ênfase em profissionalização – e parte importante disso é o diálogo constante com os seus pares, seja em seminários em que se apresenta pesquisa em andamento ou reuniões com o seu comitê durante a escrita da tese.

BPM: Como a mulher é tratada ou vista nessa área no Brasil e nos EUA? Que barreiras comuns as mulheres enfrentam, e o que podemos fazer para seguir em frente?

Marina: Nos EUA, manifestações abertas de preconceito são bem menos toleradas socialmente, ainda que aconteçam às vezes. Há mais consciência sobre problemas como preconceito e discriminação, assim como vocabulário para falar deles e estruturas institucionais de apoio. Mas a proporção de mulheres ainda é baixa. Na minha turma de doutorado, eu era a única mulher estudando Relações Internacionais (em um total de sete alunos). Não foi uma experiência fácil, mas tive a sorte de contar com o apoio dos professores, que me incentivaram a participar em aula e se mostraram abertos a conversar sobre questões de gênero. Com o tempo me senti à vontade para falar se alguma coisa me incomodava. Percebi que isso não era um problema pessoal meu, mas sim um problema social. Acho importante encontrar uma comunidade com que se possa conversar sobre essas coisas. A minha comunidade tem se expandido cada vez mais com iniciativas como Women in Conflict Studies, Journeys in World Politics, Visions in Methodology e Women Also Know Stuff.

Marina, muito obrigada pela sua entrevista. O BPM agradece a disponibilidade e gentileza de compartilhar a sua trajetória de sucesso conosco. Temos certeza de que você vai inspirar outras mulheres brasileiras a chegarem lá também.

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