Eslovênia – Começar de novo

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Falar de esperança, para quem está longe de casa (mesmo que há tanto tempo que talvez aquela casa já não seja a morada de sua alma e coração), é como falar de rotina. De rotina, dia a dia, feijão com arroz. Viver em outro lugar, no estrangeiro, no que nos é estranho, demanda essa capacidade de acreditar, essa fé, essa vontade infinita de que dê certo.Todo dia, o dia todo.

Os desafios são muitos e em vários campos, a começar pelo novo idioma, que por mais que você até conheça, não é teu. Eu posso falar quatro idiomas diferentes do meu, mas quando eu digo “eu te amo”, tem que ser em português… Quando digo “eu detesto”, também. Ainda não achei palavra mais carinhosa que “carinho” e nem palavra que tire de meu coração um suspiro como “saudade”. Vamos aprendendo, dominando o novo idioma e isto nos muda também. É muito interessante porque passamos a nos expressar, a fazer interjeições, como jamais fizemos. Tentamos então aprender o novo idioma, esperamos aprender, temos fé.

E assim, com fé e umas palavras novas no bolso, vamos nos virando. Tentamos nos adaptar às situações novas, aos novos amigos, ao novo emprego, ao desemprego eterno, à casa, ao clima, às pessoas, aos novos parentes, à comida, às leis. Fácil não é, mas não é impossível também, não. Precisa ter fé, precisa sonhar, precisa querer mais que tudo – e precisa de disciplina.

Vejo que o grande desafio, porém, é o emprego. Sem emprego, ficamos em casa, às vezes cuidando dos filhos. E nosso vocabulário no novo idioma se resume a chupeta, fralda, xixi e cocô. Então, vai um conselho: saia! Saia, já! Coloque uma roupa e vá passear, vá conhecer gente, faça um esforço, converse com outras mães na pracinha. Do jeito que der. Vale até mímica. O importante é não se reduzir, não se encolher no espaço apenas de sua morada. Vá e descubra o que existe na cidade que você mora. Europa não é como Brasil e, em geral, ninguém vai tentar te relocar no mundo, você tem que fazê-lo. Vá ao consulado, pesquise se existe algum Conselho de Cidadãos. Pergunte se existem grupos na internet. Em muitos países, existem os grupos de expatriados. Descubra e vá a um encontro, conheça gente, se mostre ao mundo, descubra com quem vive há mais tempo como é a vida aí, neste novo lugar.

Trabalho voluntário é excelente, se você tiver tempo. Então, se puder, mãos à obra. Você vai conhecer gente, vai servir, vai criar um propósito e isto vai ajudar a renovar sua fé, vai te dar ânimo para seguir buscando seu novo lugar. Pesquise os cursos que são oferecidos gratuitamente, acesse o portal do Ministério da Relações Exteriores, lá tem muita informação sobre brasileiros pelo mundo.

Como psicóloga, vejo a depressão como um grande e maior desafio a ser vencido. Precisamos reconhecê-la, primeiramente, porque muita gente chama a depressão de tristeza, falta de ânimo, disposição etc. Precisamos, antes de tudo, reconhecê-la para, a partir daí, vencê-la. É difícil, claro. Os amigos no Brasil acham que vida na Europa é como nos filmes. Tem gente até que se casa em castelo, mas o roteiro depois nem sempre segue o script.

Não estou dizendo aqui que todo mundo tenha depressão quando imigra, mas estou dizendo que, pela minha experiência e convivência com muitas mulheres que migram, muitas têm e não sabem. É difícil mesmo. A vida deveria ser ótima, tem castelo, tem neve, tem príncipe, mas parece que a dama não está feliz. É que somos mais que mães, que esposas, que filhas. Somos uma entidade separada também. Temos uma identidade, um sonho. “Sonho meu… sonho meu.. ”, que, às vezes, fica para trás.

É preciso calma também, porque assim é a vida e tudo demora. Esquenta e esfria. Mas não demore-se você. Você, não! Vá buscar, vá fazer o bem.

Dividimos o tempo e adoramos o ano novo porque ele significa recomeço. É como se pudéssemos tentar tudo de novo, ou tentar o novo. Então, aproveite! O ano está só começando. Olhe para dentro um pouco para ver melhor lá fora. Onde foi parar seu sonho? Onde está sua força, sua coragem? Ou você se entregou?

Restitua seus sonhos, sua identidade. Busque. Você já cruzou um oceano, talvez um deserto, e chegou até aqui. Siga em frente. A vida é boa… quase sempre. O melhor da vida é a busca, o caminho trilhado, os belos encontros e até os desencontros.

Bonito é viver, seja lá onde for, aproveitando a viagem, usando seus talentos – que certamente você os tem – para você e os que te cercam. Bacana é ser autor da sua obra e olhar e ver que você é capaz, que você produziu, que você está ali, na sua obra. Se reconheça.

Descrevendo assim, parece fácil, mas não é. E, se fosse, nem estaria aqui falando a respeito. Mas eu escrevo para mulheres! Para quem tem “a mania de ter fé na vida”.

Eu amo a vida. No frio da Europa, no calor de matar do Brasil. Eu amo viver, sou como o Mia Couto: “me dá uma preguiça ser triste…”. E isso não quer dizer que nunca sinta tristeza, mas ela não faz parte de mim. Não vivo buscando ser feliz a todo custo, busco desafios, me desafio, e é quase sempre aí onde se esconde minha alegria – e meu cansaço também. Sigo…

Em 2017, se desconecte e recomece inteira. Acreditando que os desafios são diferentes, a língua é estranha, o frio é intenso, ou o calor, mas sua essência, não. Quem pode, pode! Se você podia, pode e poderá! Não podemos tudo, mas podemos muito. Feche o livro de auto-ajuda e leia Sartre: “Não importa o que fizeram com você. Importa o que você faz com o que fizeram de você”.

Você veio tão longe, para quê? Levante-se e deixe de ser espectadora dessa vida nova e diferente. Vá e escreva seu roteiro e, aí sim, aí sua vida na Europa, ou onde quer que  esteja, virará um filme bonito de se ver e viver. Feliz você em 2017!

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Marta e carioca, psicóloga de formação, e trabalhou 25 anos como relações públicas internacional e gerente de vendas para uma joalheria.Teve a oportunidade de conhecer muitos lugares no mundo todo, mais de 60 países,e portanto fazer o que mais gosta: conhecer pessoas e viajar. Fala inglês, francês , espanhol e italiano e está no desafio de aprender o esloveno, idioma do marido que conheceu em uma viagem ao Alaska. Mora em Liubliana, tem uma filha e hoje divide seu tempo entre cuidados com ela, os eventos culturais do Projeto Sementeira para a comunidade brasileira e eslovenos e sua empresa, a Brasilis, que faz consultoria em negócios, eventos e turismo de experiência. Na lista ainda, como escreve poesia, um livro aos poucos vai nascendo.

6 Comentários

  1. Lindo texto que revela um pouco da sua linda Alma.
    Parabéns por poder revelar sua essência e compartilhar sua humanidade♡
    Uma das inúmeras formas de criar um mundo melhor.

  2. Marta, adorei o texto!
    Moro no Japao desde 92. Meu marido eh japones e medico da Cruz Vermelha.
    Em abril, passarei uns dias em Liubliana. Ficaria muito feliz se pudesse te encontrar!
    Um grande abraco!

  3. Nossa que texto Lindo Marta!
    Ainda estou no Brasil, mas estou pesquisando sobre o país que quero viver. Quero me casar de novo e mudar totalmente minha vida. Sou administradora, Psicologa Organizacional, Coach, Corretora de móveis e Cantora. Mas esqueça toda a minha formação acadêmica, pois sei que só serei feliz sendo cantora. Só adiei a felicidade, kkkk.
    Tenho 55 anos e fé na vida. Me identifiquei demais com seu jeito de falar. É isso aí, a mudança assusta algumas pessoas, mas eu sou uma camaleoa.
    Boa sorte, siga na carreira de escritora, você tem talento.
    Beijinhos!!!

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