Espanha – Valência à Primeira Vista

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Adaptar: ajustar, adequar, por em harmonia e em conformidade, acomodar-se às circunstâncias. Nossa vida é uma eterna adaptação. Nos adaptamos a nosso corpo, a nossa família, a nossa casa, a nossos amigos, a nossa língua e cultura e principalmente às mudanças. Não é só a comunicação e o pensamento que fazem do ser humano uma espécie animal diferenciada, mas também a capacidade de se adaptar, do mais simples ao mais complexo. Não que essa seja uma atividade fácil, pelo contrário, requer paciência e valentia, mas permite lançarmos ao mundo e ao desconhecido.

Quando cheguei à Valência, com minha vida em três bagagens e a esperança de um novo recomeço, sabia que encontraria muitas adversidades. Pensar que a língua não era um empecilho tão grande, que a cultura é mais similar que a nossa, que os espanhóis são um pouco latino e a gastronomia encantadora, me confortou em princípio, mas apenas com o passar dos dias e com a inserção local, é possível sair do status de turista para o de cidadão.

Com certeza, o idioma e o sangue quente espanhol nos aproxima e assim facilita a adaptação, mas também me deparei com estranhezas e peculiaridades, assim como com agradáveis prazeres. Ainda é cedo para concretizar as ideias, enfim este é meu quinto mês em terras valencianas, mas deixo aqui minhas primeiras impressões.

Algumas características não são apenas típicas dos valencianos, mas também se encaixam a qualquer espanhol, como por exemplo, a adoração por “espanholizar” tudo. Seja uma palavra mundialmente conhecida no mundo tecnológico, seja um simples nome de uma bebida. Em tudo há uma versão em espanhol. Por exemplo: WIFI (uai fai) aqui é uifi; site (saite), aqui é sítio web. Se vai a um bar e está cedendo por um Gin Tônica, é melhor pedir ao barman uma Ginebra. Sem contar os títulos dos filmes. Claro, que também fazemos isso no Brasil e em outros países, mas na Espanha é como se não pudesse deixar uma única palavra em sua versão original. A famosa princesa Cinderela, para os espanhóis é conhecida como Cenicienta. E eles ainda se espantam quando mencionamos os nomes “tradicionalmente” conhecidos.

Se não bastasse, o mais difícil aqui em Valência é encontrar um cinema com a apresentação dos filmes em sua versão original (VO). A dublagem em espanhol impera nas telonas. Há 3 cinemas que possuem VO, sendo que em apenas um deles todos os filmes são apresentados assim, nos demais há pouca disponibilidade e em horários específicos.

Se sentir uma imensa vontade de uma sobremesa ou esqueceu de comprar a bebida para uma festa de amigos, após às 11 da noite terá problemas para encontrar uma loja ou mercado aberto. Há raríssimos quiosques ou lanchonetes abertos durante a madrugada, quem dirá 24 horas. Aos domingos só as grandes redes de lojas e supermercados abrem. Assim como os restaurantes possuem um “horário de descanso” (não confundam com siesta), ou seja, fecham sua cozinha entre às 16 e 21 horas.

Outra dificuldade que encontrei em Valência foi em fazer amizades. Os valencianos são mais fechados que os espanhóis do sul e muito “bairristas”.  Criar grandes vínculos com a população local é algo que muitos estrangeiros se queixam por aqui.

Agregado a isso, podemos ver o idioma valenciano muito presente em toda a sua comunidade. Claro que pelas ruas a linguagem comum é o castelhano, porém quando vamos a museus ou órgãos e eventos públicos, senão único, a prevalência é o idioma local.

Uma outra coisa que chama a minha atenção desde o principio, é a quantidade de árvores carregadas de mandarinas (parecida com a nossa tangerina) pelas ruas. A Comunidade Valenciana é reconhecida mundialmente por sua grande tradição no cultivo de citrinos, e atualmente ocupa um total de 3.973 hectares. Não sei qual é a qualidade das mandarinas espalhadas pelas ruas e creio que, devido a poluição dos veículos, não são recomendadas para o consumo, mas que não deixa de ser visualmente interessante e curioso. Uma árvore assim em minha cidade natal teria seus frutos arrancados em poucas horas.

Quando comecei a buscar um salão de beleza, me espantei com a quantidade de indicações, principalmente de franceses, de cabeleireiros chineses. Nunca imaginei cortar meu cabelo em uma rede make in China. Pois aqui há um bairro chinês repleto de salões a baixo custo e de qualidade. A calle Pelayo possui um salão colocado ao outro, e fica difícil selecionar pois os preços são praticamente tabelados (8 euros o corte). Arrisquei e sai bastante satisfeita com o resultado. O único problema é que a grande maioria dos profissionais não falam espanhol, então é melhor apresentar uma foto do corte que deseja.

A cidade de Valência tem cerca de 108 km de ciclovias que permite ao ciclista mover-se com segurança e eficiente por toda a rede urbana local. Além disso, a cidade possui um serviço público de aluguel de bicicletas, a Valenbisi, que conta atualmente com 2.750 bicicletas distribuídas em 275 estações. O serviço de aluguel é simples e está disponível 24 horas por dia.

Por fim, como não mencionar Las Fallas, uma forte tradição Valenciana que se tornou uma grande atração turística para a cidade e para todas as localidades onde são realizadas. A versão popular de sua origem se deu pela união dos carpinteiros que, na véspera do dia de seu patrono São José,  queimavam em uma fogueira de purificação, batatas fritas e restos de madeira, para limpar suas oficinas antes da entrada da primavera.

As festividades vão de 15 a 19 de março, mas no último domingo de fevereiro ocorre a abertura oficial com o ato de Crida e a partir de 01 de março, são realizados todos os dias às 14 horas, mascletás populares (disparos pirotécnicos). Atualmente, este festival tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, o que aumentou ainda mais sua visualização internacional e o orgulho de toda Valência.

E assim é minha Valência apenas à primeira vista…

2 Comentários

  1. Marcela bom-dia

    Gostaria de saber como é a vida cultural da cidade: exposições, teatro, música, shows e museus.
    Estive na cidade em 2015 por 4 dias e adorei andar pela cidade, principalmente pelo Jardín del Turia.
    Grato.

    • Olá, tudo bem?
      Este é justamente o tema do meu próximo artigo que será publicado em junho na BPM. Convido-a de antemão a ler.
      VaLência está repleta de cultura e história, principalmente museus, exposições e música. Como temos 2 grandes auditórios musicais, espetáculos não faltam. Além disso, com o início do verão, os parques da cidade, como Túria e ao redor da praia, são palcos de feras de arte, gastronomia e bebida e de muita diversão para todas as idades.
      A única coisa que sinto falta aqui são os concertos de grandes bandas. Valência não é um destino para a realização de shows, como os que temos constantemente no Brasil, principalmente em São Paulo.
      Você pode encontrar mais informações culturais nesses sites: au-agenda.com; ocio.levante-emv.com/agenda/; http://www.lovevalencia.com/eventos-valencia
      Espero tê-la ajudado. E continue a acompanhar as publicações da BPM.
      Beijos,

      Marcela

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