Essa nova geração de “brasileiros gringos”

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Foto: Pixabay.com
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Que os brasileiros e brasileiras já se espalharam pelos quatro cantos do mundo, nós já sabemos. O que não sabemos é como será essa geração de “brasileiros gringos” que também aumenta por aí. Não me refiro a você, que como eu, nasceu e cresceu no Brasil e agora vive no exterior. Meu texto hoje é sobre os filhos e filhas de brasileiros que nunca viveram no Brasil; nasceram em outro país, brincam com crianças que falam outra língua, vão à escola em outro país, quando muito passam férias no Brasil. Muitas vezes somente um dos pais é brasileiro, sendo este o responsável pela difícil missão de transmitir ao filho o que é ser brasileiro.

Primeiro vamos pensar aqui na missão do pai/mãe brasileiro. Como transmitir ao meu filho a cultura brasileira? O que eu faço questão de que ele goste e conserve como referência em relação ao meu país? Será que devo passar ao meu filho minhas frustrações em relação ao Brasil? São perguntas que todos os pais de “brasileiros gringos” deveriam fazer a si mesmos.

Eu, por exemplo, farei questão que meu filho abrace também a cultura brasileira, afinal, a língua e cultura são fatores importantes que estreitam o relacionamento desta criança com o restante da família no Brasil. Acredito que estes valores transmitidos fortalecem o autoconhecimento da criança, o que, com certeza no futuro, fará diferença para que se torne um adulto seguro de suas origens. Ou pelo menos, um adulto com mais histórias para contar.

Foto: Pixabay.com

Nós que nascemos e crescemos no Brasil, sempre carregaremos memórias e sentimentos atrelados às nossas origens. Não me refiro aqui apenas ao estereótipo brasileiro de carnaval, samba e caipirinha. Refiro-me também às cantigas, brincadeiras, programas de TV, cheiro de bolinho de chuva, brincar na enchente da rua, deslizar na grama com papelão, enfeitar a rua na Copa do Mundo, pintar o dente na festa junina… Coisas da minha geração que ok… já ficaram lá atrás nos anos 80 talvez. Mas, que meu filho, nascido e criado em outro país, talvez nunca entenda e/ou sinta nem que eu explique mil vezes e frite bolinho de chuva todo domingo. O país é outro, as referências são outras.

Os filhos de brasileiros que crescem no exterior não carregam as referências de Brasil que nós temos no nosso coração, é disso que estou falando. Isso não é ruim, pelo contrário. Ficamos felizes em vermos nossas crias voando por esse mundo, falando outras línguas e vivendo em realidades muito melhores sob o aspecto de acesso à educação e civilidade. Porém, o laço verde-amarelo fica cada vez mais fraco para esse cidadão do mundo. E isso no coração da brasileira aqui, pesa um pouco. Eles não vão sentir falta de algo que nunca tiveram. Eles não vão ter o Brasil como casa. Eles serão gringos no Brasil, cabe a mim fazer o possível para minimizar esse processo.

Outra tarefa complexa para os pais: aprender junto com os filhos “gringos” as cantigas, brincadeiras, histórias, contos, festas, costumes desse país onde moram. Afinal, as crianças convivem na escolinha com filhos de pais que compartilham das mesmas referências. Pais que jogam desde pequenos baseball, rugby, cricket, hóquei e vários outros esportes que você não faz a menor ideia das regras. Mães que viveram aquela realidade que só víamos em filmes da Sessão da Tarde, com cheerleaders e casas sem cercas. Sem falar na língua, que muitas vezes para nós, pais, pode ser uma barreira. A solução é sair um pouquinho do nosso mundo e também abraçar o novo mundo dos nossos filhos. Isso será bom para todos e um aprendizado constante. Não basta ser pai, tem que participar e ainda abraçar as regras sociais dos pais e mães daquele país.

Temos aí na lista de “brasileiros gringos”: Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook, que imigrou para os EUA com 11 anos de idade; temos também Michel Krieger, co-fundador do Instagram, que imigrou para os EUA com 18 anos para cursar a faculdade. É o Brasil emprestando seus talentos para o mundo. Ou será que é o mundo emprestando oportunidades para os brasileiros? Sei não…

Com base na realidade da minha infância singela em São Paulo, ainda me pego admirada com a possibilidade de se criar crianças bilíngues ou mesmo multilíngues. Fico imaginando quantos brasileirinhos incríveis existem por aí nesse mundo, sendo educados nos mais diversos contextos culturais, aprendendo vários idiomas. Por serem crianças multiculturais geralmente, são mais abertas à diversidade – algo que o mundo precisa tanto hoje em dia.

Precisamos de líderes inspiradores, precisamos de empreendedores de sucesso, e o mais importante de tudo: precisamos de pessoas de coração bom e que respeitem os que não tiveram as mesmas oportunidades. Gosto de pensar que essa turma um dia vai ajudar o Brasil.

Penso que com tantas formações e contextos diferentes, quem sabe esses meninos e meninas um dia possam, de alguma forma, fazer nosso Brasil ser um pouquinho melhor. As sementes estão sendo plantadas, em vários tipos de solos diferentes. Só depende de nós para colhermos bons frutos. Só depende de nós cultivarmos as raízes para que estas árvores cresçam firmes e fortes. Nosso futuro depende desta floresta de árvores fortes.

15 Comentários

  1. Esses filhos de brasileiros jamais retornarão ao Brasil, pois nunca trocarão o primeiro mundo pelo terceiro mundo. Pura demagogia dizer que quem tem que mudar o Brasil são os filhos de brasileiros que moram no exterior, já que essa tarefa é única e exclusivamente dos brasileiros que já estão aqui dentro. Logo, os filhos de brasileiros não são brasileiros. Portam RG, mas a realidade diz exatamente o contrário. E o melhor que podem fazer para suas vidas é não retornar a um país tão ingrato e idiota como este.

  2. Tenho uma neta australiana. Ela já veio aqui no Brasil quando fez 4 anos (agora já vai fazer 7 anos).
    Acho complicado, tento ensinar umas coisinhas quando vou na casa dela passar férias.
    Parabéns, você explanou muito bem a complexidade de tudo isso.
    Que sejam felizes e realizados, tanto aqui como lá.
    blogjoturquezzamundial
    Beijos.

  3. Analu, adorei o texto. Está bastante claro e expõe uma realidade tal e qual dos desafios de quem mora, nasce e cresce no exterior porém com laços da terra brasilis.
    Não li em momento algum uma afirmação de q os filhos nascidos no exterior irão mudar o Brasil, mas achei seu ponto de vista bastante otimista, algo q eu não tinha considerado antes, e que trouxe uma mistura de apreensão e acalento qdo me dei conta.
    Gostei bastante e espero q em Cascais estejas mais feliz q em Londres. Boa sorte em tudo q fizeres. Um abraço.

  4. Excelente texto, tenho duas brasileirinhas gringas, que não apenas cantam nossas canções de infância e brincam as nossas brincadeiras, porém também amam o Brasil, são apenas duas meninas de 2 e 4 anos, que quando escutam ou veem as cores que representam o Brasil, gritam Brasil e mais que isso, ao responderem às perguntas sobre ” quantos idiomas vc fala?” Elas resaltan firmemente, que além dos outros, elas falam português. Elas estão sendo criadas e educadas, meio a uma cultura completamente diferente a nossa, porém eu sempre tento mostrar as diferenças, o que é daqui e o como é lá… De instante, tem funcionado, Elas são muito novas, porém esse Amor, se não for cultivado, ele com certeza não brotará. Tenho as mesmas esperanças que vc “de um Brasil melhor” tudo é possível, temos que recriminar menos e apenas com fazer a nossa parte, muito já estará sendo feito.

    • Parabens Peiscylla pelo seu esforco em manter as duas culturas! Detesto qdo escuto brasileiros que aqui vem morar, demonstrar tanto desprezo por nossa cultura. Sendo casada com alemao, e vivendo nos EUA, sempre fiz questao de ensinar tanto a lingua como a cultura dos 3 paises aos meus filhos(ambos americanos: minha filha nasceu aqui, e meu filho veio com 16 meses). Essa rica heranca para eles nao foi desprezada. Eles sao muuuito orgulhosos de serem trilingues, ter tres nacionalidades, e fazer parte de tres culturas!! E agora, meu filho (22 anos) fez questao de apresentar o Brasil/familia ah namorada americana, e a minha filha (18 anos) que acabou de entrar em uma otima universidade aqui no meu estado, fez questao de se matricular nas aulas de portugues, para “melhorar”, segundo ela!! Temos amizades brasileiras, americanas, alemas, turcas, irlandesas, etc. Nao ficamos restritos ah uma cultura, sempre respeitando a do pais em que vivemos! Boa sorte na sua educacao! Nao desista!!

  5. Gostei muito do texto. Moro no exterior a 4anos e tenho um filho, atualmente com 9 anos; ele fala muito bem tanto em português quanto em inglês e na escola ele está aprendendo francês e árabe. Nos sempre passamos férias no Brasil e como mantenho contato com amigas que tem filhos na mesma idade do meu, sempre que estamos no Brasil ele reencontra seus amigos brasileiros. Isso ajuda a não distanciar meu filho da nossa cultura brasileira;ele realmente se sente parte do país, tem orgulho de falar para os amiguinhos de que ele é brasileiro e quando está no Brasil brinca com as crianças de forma natural. tentamos passar para nosso filho o sentido de igualdade, Já que o fato de morar no exterior simplesmente não torna ninguém superior aos outros.

  6. Legal, tenho 2 brasileirinhos gringos suiços (7,5), e uma filha (22) nascida no Brasil, mas que veio pra cá com menos de 2 anos… Todos apaixonados pelo Brasil e com dominio perfeito da lingua portuguesa… Sempre incentivamos este laço… Vamos no mudar em breve tb para Cascais, levando os 2 pequenos… Torço para que tudo dê certo nesta mudança de vida para eles…

  7. Analu, gostei do tema que escolheu e do seu texto. Eu tenho dois filhos nascidos na Suécia. Agora são jovens adultos cursando a universidade. Sempre respeitei que temos três culturas em casa pois eu sou brasileira, meu marido norueguês e os meus filhos suecos. Como escreveu Khalil Gibran “Podeis dar-lhes o vosso amor mas não os vossos pensamentos, pois eles têm os seus próprios pensamentos.” Dito isso, acho importante mostrar a eles a nossa bagagem cultural que é também parte da história deles. Quando ainda meninos, meus filhos as vezes reclamavam que eu falava sempre o português. Eu os animava dizendo que era a nossa língua secreta. Não exigia que respondessem em português e assim eles só realmente ativavam a língua quando precisavam – por exemplo, em visitas ao Brasil. Hoje me agradecem por terem crescido com o português. A língua é uma entrada importante para toda uma cultura. Vejo o interesse dos meus filhos em visitar e passear pelo Brasil – agora por conta própria – e até ventilar passar lá um tempo maior estudando ou trabalhando para se aprofundarem nessa outra realidade. A internacionalizacão é importante para todos e pode ocorrer de várias formas. Nossos filhos farão suas escolhas e sua própria história mas podemos ensinar-lhes a ter orgulho de suas origens. Enquanto isso é bom lembrar “a vida não anda para trás nem se detém no ontem… suas almas vivem na casa do amanhã, que vós não podereis visitar, nem em sonhos (Gibran)”.

  8. Tema interessante. O que preocupa é pensar em que eles viverão em um círculo familiar restrito (pai mãe e filho), vão perder a experiência rica em viver e conviver em círculo familiar completo ( tios, avós e primos). Adotarão o estilo de vida dos países que vivem (círculo familiar restrito) e terão olhar de amor pelo próximo?

  9. Pensando nisso no verão meus filhos participam do Parque Central Kids, um acampamento em New York que tem imersão total na língua portuguesa e na cultura do Brasil. Super indico. #ParqueCentralKids

  10. Parabéns pelo texto! Acabamos de nos mudar p USA – meu marido eh americano. Vivemos antes aqui, depois fomos p o RJ (sou carioca) e agora retornamos aqui. Por termos vivido no RJ por 7 anos minha filha ficou fluente no Português. Hoje bilingue, e logo sera trilingue – o espanhol vai entrar ano que vem pela escola. Sou super a favor de exposição a varias culturas e respeitamos a todas religiões. Ser multi-cultural neste mundo globalizado eh um super plus. Adorei sua abordagem e explicação. Compartilhei em minha pagina do fb. Vale a pena a leitura! Seja muito feliz agora em Portugal também.

  11. Muito bem Ana.escreveste muito bem esta realidade e várias manifestações são a favor de que os filhos tenham conhecimento da língua e costumes brasileiros.Muito útil este blog.

  12. Tenho lembranças antigas e opostas. Lembro da minha avó, já muito idosa, no interior do Paraná se comunicando com minha tia em polonês. Pedia comida, conversava, reclamava, tudo em polonês. Pra mim, minha avó era polonesa. Não era. Nascida no Brasil,, filha de poloneses e criada numa coloônia de poloneses, a língua era a herança que a família havia deixado. Hoje acho que somos um mundo só é que as barreiras Linguísticas podem ser superadas pelo afeto. Somos cidadão mundo é essa nova geração está provando isso.

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