EUA – Vida doméstica: porque nem sempre é fácil

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A vida editada das redes sociais muitas vezes passa a falsa impressão de que nós, imigrantes, estamos vivendo no paraíso e que o cotidiano é feito somente de rosas e jamais espinhos. Pois bem, vamos ao lado B das coisas!

Vou começar meu muro de lamentações falando sobre a “edificante” vida doméstica. Hoje acho graça em amigas brasileiras que me falam: “ah, mas não tenho mais empregada, só faxineira duas ou três vezes por semana….” Eu apenas penso: ai ai ai.

Faxineira aqui passa no máximo 3 horas na sua casa: aspira o chão, limpa a cozinha, desinfeta banheiros e só! Ao custo médio de U$ 100,00 a U$ 200,00 por visita! Quer que limpe o forno e a geladeira? Mais U$ 50. Quer que limpe os vidros? Contrate uma empresa especializada a custos altíssimos. Quer que passe a roupa? Bem, você realmente não deve nem sonhar em sair do Brasil, pois vão no mínimo te denunciar por trabalho abusivo.

Pode parecer difícil, mas há muitas vantagens. A valorização da mão de obra resulta em diferenças sociais bem menos escandalosas que no Brasil e é provável que o filho da sua faxineira estude na mesmíssima escola que o seu precioso filho, bacana demais isso!

Dito isso, imagine a rotina de uma mulher residente nesse país ianque. Se você trabalha fora o dia todo, inevitavelmente irá encontrar uma casa cheia de louças na pia, jantar por fazer e roupa para lavar te esperando depois de sua jornada de médica, cabeleireira, advogada ou balconista.

Por isso, a família inteira divide as tarefas e cada filho já cuida da sua própria louça e quarto. Aqui em casa, por exemplo, passo dias sem entrar no quarto das minhas filhas. Elas separam as roupas sujas e trazem para a lavanderia, preparam o próprio café da manhã e se dividem com os cuidados com a louça. O marido chega do trabalho e ajuda no jantar, seja fazendo a salada, arrumando a mesa ou limpando a bagunça.

Se não for feito esse esquema, a mulher pifa! A família precisa se organizar e trabalhar como uma empresa. Divisão de tarefas é fundamental.

Hoje olhando para trás, sinto vergonha dos meus tempos de motorista, babá, empregada e faxineira. É inevitável o sentimento de remorso quando lembro que deleguei tarefas tão importantes como o cuidado das minhas coisas e das minhas filhas a estranhos. Alô alô, classe média brasileira: dá pra viver de forma diferente. Acreditem!

Claro que sinto vontade de gritar quando termino de dobrar uma tonelada de roupas tiradas da secadora e vejo que já tem mais um cesto gigante para a próxima lavada! Quando chega domingo à noite, depois da pizza ou churrasco, e lembro que amanhã não terá Maria ou Márcia ou Val me ajudando. Ok! Cansa, e muito. A casa é um organismo vivo que não para de se auto-sujar e bagunçar a cada minuto, mas acho que nós, brasileiros, damos muito valor à aparência das coisas como um todo. Inclusive a doméstica.

Evidente que também detesto viver na sujeira e bagunça, mas precisa mesmo esfregar com água e sabão o piso da garagem? Faz diferença na sua vida passar a ferro a calcinha ou a cueca?

Agora mesmo estou aqui, escrevendo, ouvindo música, tomando vinho e deixando os restos da cozinha para depois. Ninguém morre por isso.

Temos braços, pernas e criatividade para darmos conta de tudo isso e muito mais. Minha faxineira, que é quinzenal, só virá semana que vem, o que significa que amanhã terei que aspirar a casa toda e colocar muita coisa no lugar, se não quiser viver em uma situação de apocalipse nos próximos dias.

Mas devo admitir: cuidar da casa aqui é mais fácil. Um spray de limpeza resolve da pia do banheiro à cozinha. Os produtos domésticos são muito bons. Os tecidos das roupas são apropriados para as secadoras e dificilmente precisam ser passados. Camisas sociais vão para a lavanderia ao custo de U$ 1,20, cada, e voltam passadinhas e engomadas. As folhas para salada vêm sempre lavadas e você só precisa temperar. Os restos de comida dos pratos vão magicamente para o triturador na pia, e por aí vai.

Resumindo: essa vida de imigrante é uma grande aventura! Inclui desde pôr do sol magnífico à beira do Potomac River em Georgetown, até esfregar o latão de lixo com mangueira e bucha depois de perceber que alguns restos ficaram por lá de lembrança. Quantas vezes tive que guardar compras no carro, sem nenhuma ajuda, embaixo da neve e frio de -15 °C, para depois chegar em casa, descarregar tudo, pensar no jantar, cozinhar e ainda limpar tudo depois? Já procurei por um anel de brilhantes no saco do aspirador e foram várias as vezes que tive que esfregar a mancha de xixi de cachorro no carpete. Aprendi jardinagem, arrancando as ervas daninhas do jardim e varrendo as folhas no outono, descobri como desentupir a pia do banheiro e fazer o portão automático da garagem voltar a funcionar depois de uma pane, além, é claro, de nunca mais ter tido o prazer de me jogar em uma cama de lençóis limpinhos e cheirosos que não foram lavados e nem arrumados por mim. Essas são somente algumas das mil tarefas diárias que me lembrei agora.

Sem esquecer que, aquela camaradagem toda, de pedir um socorro para a vizinha, para sogra ou para a amiga, não existe em muitos casos. Estamos sempre sozinhas, tendo que contar com nós mesmas (esse, pelo menos, é o meu caso).

Quer viver o sonho americano? Se prepare! A vida passa bem longe de Hollywood e da Disneylândia e antes, tarefas que você nem sabia que existiam, irão fazer parte da sua rotina. Não se trata de desencorajar ninguém, mas sim pintar um cenário mais realista, que para mim, pessoalmente, teria sido de grande valia se eu soubesse antes.

Bem vindos à América – real, e não dos seriados de TV, com casas lindas e jardins impecáveis feitos por passes de mágica!

Tallenna

24 Comentários

  1. Muito verdade! Estar de mente aberta nessa transição é chave pra ser feliz aqui. Pessoas inflexíveis que se casam com um cônjuje americano terão que se adaptar a tudo isso e muito mais. Se não estiver de mente aberta, é divórcio na certa, porque americana, no geral. não é “dondoca” não….

  2. Amei seu texto. Não a conhecia, mas agora quero ler seu blog. Moro ha 12 anos nos EU e me identifiquei bastante com sua rotina. Apesar de não ter filhos, vivo nessa correria desse país onde o dolar não se acha em árvores como muitos no Brasil pensam. Aqui se consegue sim uma vida melhor, mas regada de muito esforço e sacrifícios.

  3. Amei a matéria, a única diferença é que aqui, sou a ” faxineira” , não tenho uma “Maria” que venha em minha casa a cada 15 dias, mas me identifiquei muito! No Brasil sou bacharel em Direito ( já tentei esquecer isso lol) minha filha estuda no mesmo colégio que alguns filhos de clientes meus também frequentam (escola católica). Mas é isso mesmo, aqui a vida é diferente, aprendi a cozinhar, limpar, etc…..
    Um grande abraço!

    • Onde você mora Patricia? Nos EUA? Realmente temos que vir preparadas para uma vida bem mais trabalhosa… mesmo as mulheres sem ajuda doméstica no Brasil, podem sempre contar com os cuidados da mãe, da sogra, da amiga ou da vizinha. E aqui somos nós por nós mesmas…nem sempre é fácil, mas vamos em frente. Obrigada por participar! Abs.

  4. Muito legal seu relato. Estou há três meses em Portugal e realmente a vida de imigrante não é nada fácil, mas apesar de todas as dificuldades relatadas, acho fora do mundo real alguém precisar sair do país pra aprender a trabalhar e cuidar de uma casa. Me desculpe e fico feliz que não tenha precisado fazer isso antes, mas essa é a realidade de muitas mulheres e não apenas imigrantes!!!! Não tenho filhos, mas no Brasil sempre trabalhei, estudei e cuidei da minha casa pq não tinha dinheiro pra pagar pra alguém. Imigrar tem outras dificuldades além dessas. Oq concordo contigo é que aprendemos nestes países que isso não rebaixa ninguém, não desvaloriza ninguém e nem mata ninguém como o brasileiro acha e nós que já faziamos isso no Brasil nao nos sentimos uns Et’s. Os nossos valores são muito invertidos!

    • Oi Natalia! Obrigada por participar…então, eu posso dizer sim que venho de uma realidade privilegiada e não considero isso uma vergonha ou um demérito. Acredito que a riqueza da vida está em nos relacionarmos e trocarmos experiências independente de nossos contextos sociais, culturais ou raciais. A realidade de uma mãe, seja aqui nos EUA ou no Brasil é complicada…precisamos de ajuda pra cuidarmos dos nossos filhos enquanto estamos fora trabalhando, estudando ou tocando a nossa vida. No Brasil, mesmo que essa ajuda não seja profissional (babá, empregada, escolinha) ainda é possível contar com a boa vontade da família, da vizinha ou dos amigos.Pelo menos aqui nos EUA isso é muito diferente e não é fácil encontrar essa “mão” amiga. Meu foco no texto é sobre isso, mesmo porque sendo mãe de três, essa sempre foi a minha experiência. Não me sinto confortável ou com conhecimento suficiente pra falar de uma vida profissional, sem filhos, porque essa nunca foi a minha realidade. (Fui mãe com 18 anos!). E claro que imigrar tem inúmeras outras dificuldades, que eu sempre procuro expor em meus textos, muito além da vida doméstica! Espero que tenha te esclarecido e continue nos acompanhando… Abs!

    • Oi Natália
      Me identifiquei com você.
      Só que continuo no Brasil, e fazendo tudo, sem mãe, sem faxineira,sem
      Vizinha, só eu mesma para fazer tudo
      Se cansa?
      Muito, mas não mata ninguém é ainda te deixa em forma.
      Se eu queria ajuda? Claro, mas fazer o que?
      Faxineira no Brasil hoje em dia só para alguns, ficou muito caro
      Mas para viver em um país com uma desigualdade social como aqui
      Eu preferia morar aí é fazer tudo e mais alguma coisa
      Se alguém quiser uma empregada brasileira por um ano, eu estou aceitando , eu mesma e já tenho visto
      Além de conhecer outra cultura , você aprende a falar como nativa.
      Aguardando proposta

  5. Muito legal e atual o seu texto! Sou brasileira, moro aqui há 13 anos e vivo uma rotina bem parecida. A única diferença é que sou esposa de militar, e dependendo da base aérea, os vizinhos são muito unidos e 95% das vezes as pessoas são prestativas e estão sempre disponível a ajudar (naquela mãozinha). Eu também sou sozinha… é difícil sim, mas na verdade, para mim, é um difícil que já ficou fácil! Kkkkkkkk

  6. Bem eu tinha tudo no Brasil, 3 ajudantes, cozinheira, arrumadeira e pessoa que cuidava do meu jardim. Troquei por viver aqui nos USA, não troca essa vida por nada, cada caso é um caso, vivo feliz sem medo de nada… adoro o Brasil, mas sempre com aquele medo d ser roubada e qq coisa parecida.

  7. Vivi na casa de um americano e 3 cachorros lindos e muito peludos, no estado de Nova York. Ele tinha na época mais de sessenta anos, divorciado e cuidava de sua casa, do seu belo jardim, de um quintal enorme de grama, preparava sua comida, tudo sozinho! Sem a ajuda de suas 2 filhas (que não viviam com ele) e mesmo assim, sua casa estava sempre limpa e bonita. Minha mãe inclusive, também separada, teve que trabalhar fora para nos criar e por não termos uma irmã (que acabaria fazendo o papel de segunda mãe), eu e meu irmão cuidavamos da casa e de nossa roupa e comida sozinhos. E ai de nós se deixassemos a casa uma bagunça. Como este americano, também conheci outros que faziam e fazem tudo sozinhos em suas casas, mesmo tendo uma boa qualidade de vida. Ao contrário, de muitas pessoas pobres que conheço, aqui mesmo em Costa Rica, numa sociedade machista, onde as pessoas não sabem lavar o prato que comem e as mamás por outro lado estragam seus filhos e não os ensina a se virarem sozinhos. Desta forma, nos aqui temos nossos imigrantes ilegais que nos ajudam com a casa, o jardim e de tudo um pouco, os nicaraguenses. A vantagem é que aqui o custo desta mão de obra é infinitamente barata e podemos nos dar ao luxo, seja por falta de tempo ou preguiça mesmo, de ter nossos próprios “serviçais”.

  8. Gostei muito do seu texto. Essa vida, eu já tenho aqui no Brasil mesmo. Trabalhando como professora, com dois filhos, cada um teve que aprender a cuidar da casa e até a cozinhar para que as tarefas fossem feitas. Tenho muito orgulho de dizer que, assim, meus filhos cresceram com responsabilidade e não dependendo de ninguém para realizar essas tarefas. Parabéns por ser transparente ao escrever e apresentar a simplicidade que pode ser a nossa vida.

  9. Aqui em Joinville SC faço tudo isso des dos 15 anos, hj tenho 23, uma filha de 5 anos que vai completa 6 essa semana. Claro q tenho os familiares p ajudar se eu precisar, mas não gosto muito de contar c ajuda da família não rsrs. Meu sonho um dia é conhecer NY mas no momento tá difícil💸💵 e até morar se der, mas me falaram q é complicado conseguir moradia legalmente..
    Abraco

  10. Aqui no Brasil, há muito tempo que não podemos contar com parentes e amigos, porque a maioria também está trabalhando! “Hellow”, o Brasil também mudou, só que infelizmente, nossos governantes não investem nossos impostos em benefícios para nós e sim para eles! Os horários das escolas, as distâncias percorridas e o transporte deficiente nos sacrificam muito mais! E o nosso ganho irrisório em relação a inflação monetária corrói os nossos ganhos! Uma diarista hoje, cobra de R$ 130,00 a R$ 180,00 e também não colocam as mãos em armários, geladeiras e roupas, como antigamente; e eu não acho que sejam exploradoras, porque eu mesma já trabalhei em casas de famílias, quando criança e tinha que fazer tudo! No Brasil, as mulheres sofrem por serem as “mamãezonas” e fazer TUDO para os filhos e se deixarem escravizar por eles!!!

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