Fazendo estágio em produtoras de Hollywood

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Enquanto eu estava estudando roteiro na UCLA Extension, tive a oportunidade de fazer dois estágios em produtoras de Hollywood. Foi uma oportunidade bem interessante, não só por vivenciar o dia-a-dia de empresas que criam filmes e séries famosas como também, por observar as diferenças de ambiente de trabalho daqui e do Brasil.

Pra começar, as regras gerais de estágio são bem diferentes. Enquanto no Brasil um estágio pode durar dois anos, nos Estados Unidos ele é bem breve, cerca de três meses. No Brasil, são 6 horas de trabalho, de segunda a sexta. Aqui, são 8 horas, dois ou três dias da semana. E no Brasil, ele é pago enquanto aqui, geralmente não pagam nada, apenas te dão créditos.

Pra quem quer ser roteirista de filme e tv, os estágios mais comuns são os de Development, uma área entre Roteiro e Produção. Basicamente, você vai fazer coverage, ou seja, ler roteiros e escrever análises sobre eles. Foi exatamente o que fiz no meu primeiro estágio!

Tudo começou quando um executivo da Bold Films foi na minha aula dar uma palestra. Ele falou sobre o processo criativo por trás dos filmes que eles haviam feito. Nada mais, nada menos que Nightcrawler, Drive e Whiplash. Três produções independentes com roteiros ótimos. Ao fim da palestra eu já estava pensando: “Meu Deus, preciso estagiar nesse lugar”.

Perguntei pro meu professor se poderia ter o contato do palestrante. Ele preferia não dar o contato direto, mas fez toda a ponte, perguntando a ele se tinha oportunidade de estágio na produtora, encaminhando meu currículo e uma cover letter (que eu mandei pra mil amigos e minha terapeuta antes de encaminhar, de TANTO que eu queria que desse certo). Alguns dias depois eu estava fazendo um teste (eles me mandaram um roteiro pra ler e tive que escrever um coverage). Enfim fiz uma entrevista, esperei ansiosamente pela resposta, e logo comecei!

O escritório da Bold ficava na Sunset Blvd, pertinho da lendária loja de discos Amoeba e dos cinemas Arclight. Logo na recepção, você já dava de cara com um set de bateria usado no filme Whiplash! Mais cool, impossível. Outra coisa bacana era a imensa sala de reunião, cuja janela dava pro letreiro de Hollywood. Também tinha uma cozinha enorme com comida à vontade, pãezinhos, nutella, frios, biscoitos, cereais, café, chá, etc… (foi lá que desenvolvi todo um novo conhecimento em snacks americanos).

Outra coisa que eu achava o máximo é que às vezes as pessoas levavam seu bichos de estimação pro trabalho! Tinha um gatinho que estava lá praticamente todo dia e de vez em quando saía passeando pelas mesas. Outro cara tinha um cachorrinho cego que às vezes vinha também.

O trabalho em si, era o seguinte: Eu pegava um roteiro, lia direto por cerca de 4 horas, depois escrevia o coverage e mandava pra executiva de criação e pros assistentes dos outros executivos. Esse roteiros são enviados por agentes de escritores ou requisitados pelos executivos caso tenham levantado algum interesse. Minha função era ser um primeiro filtro, analisando alguns elementos básicos como estrutura, diálogo, personagens, credibilidade da história, que tipo de público poderia atrair e ainda, que atores ou diretores poderiam estar agregados ao projeto.

Claro que os roteiros mais “quentes” vão direto pros assistentes ou pros executivos. A função dos estagiários é justamente analisar o que os executivos não tem tempo de ler, resultado: tem muito material ruim. No entanto, como roteirista, achei super interessante conhecer tantos novos materiais e escritores. Li muita coisa bacana também e confesso que cheguei a lacrimejar na mesa várias vezes, de tão emocionantes que ficavam os roteiros!

Quando estava terminando o curso, fiz outro estágio, na Wise Entertainment. O interessante é que um dos presidentes da companhia é um brasileiro! Tive a oportunidade de trabalhar com materiais do Brasil que seriam adaptados para o público americano. Nesta produtora eu trabalhei mais criando um deck de apresentação pra um projeto específico, explicando como uma série de livros brasileiros seria adaptada pro público americano. Também fiz algumas traduções de sinopses de séries brasileiras que ainda não tinham saído do papel e um pouco de coverage.

O bacana dessa produtora é que eles tinham uma preocupação genuína em contribuir pro mundo de alguma maneira com a mensagem de seus filmes e séries, principalmente no que diz respeito à diversidade, cidadania, questões das mulheres e dos imigrantes. Por mais que determinado roteiro tivesse bastante drama ou temas interessantes, sempre tinha aquela cobrança de mandar uma mensagem maior para o público.

A moral da história é que assim como no Brasil, fazer estágio é super importante. Não só pelas coisas que você aprende como pelos contatos que faz e pela experiência de trabalhar num ambiente super diferente do que estamos acostumados.

As diferenças, além daquelas que apontei no começo, estão muito no lado social. Aqui as coisas são muito mais objetivas, pessoal trabalha e vai pra casa, no máximo deixam uns 10 minutinhos pra jogar conversa fora. As pessoas nem almoçam juntas, geralmente pedem delivery e comem na mesa mesmo, ou tiram meia horinha.

Todo mundo é super bem educado, mas frios ao mesmo tempo. Demora pra fazer uma amizade e também não vi muito happy hour. Estranhei isso um pouco afinal depois de 2 anos fora eu ainda falo quase que todo dia com amigos do meu antigo trabalho e já recebi a visita de alguns deles aqui em Los Angeles. Mas essas são apenas mais algumas das diferenças culturais que a gente tem que entender quando mora fora.

Sei que pra gente que está acostumado a ver o estágio com um primeiro emprego é difícil entender essa ideia de estágio não-remunerado e com certeza tem muita furada por aí. Por isso acho que vale a pena fazer se você encontrar algo que realmente te ensine e amplie seu network.

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