Filipinas – A Semana Santa como experiência metafísica

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Nas Filipinas, a fé pode até não mover montanhas, mas é capaz de levar milhares de pessoas às ruas na Semana Santa para vivenciar coletivamente a paixão de Cristo. É uma catarse, sem dúvidas. O país, que tem a terceira maior população cristã no mundo, é conhecido pelos episódios de crucificação e auto-flagelação de parte dos fiéis.

Para compreender a importância que a data tem no calendário local, é preciso olhar para o passado. O primeiro país a colonizar as Filipinas foi a Espanha. Com isso, vieram a fé católica e os processos de catequização das populações indígenas, de forma semelhante ao que aconteceu no Brasil. A herança colonial pode ser percebida nos números: as Filipinas são o único país asiático com população predominantemente cristã, com exceção do Timor Leste. São 92,5% de cristãos, dos quais 81% são católicos. É muita gente.

Agora imaginem toda essa massa de fiéis indo às ruas. A Semana Santa, aqui em Manila, é caracterizada principalmente pela Visita Iglesia, que é uma espécie de peregrinação por ao menos 7 igrejas próximas na sequência. A rigor, essa visita deveria ser feita na Quinta-Feira Santa, mas aqui o calendário se expande e muitos fiéis começam a fazer o percurso antes, no Domingo de Ramos. Muitos também escolhem visitar não 7, mas 14 igrejas. Dia desses, vi inclusive o anúncio de uma visita formatada para ser feita de bicicleta. Há diversos roteiros, incluindo igrejas em todos os pontos da cidade. A tradição é tão importante que existe ate um site, Visita Iglesia Online, feito para os filipinos que moram fora do país acompanharem as homilias e se sentirem parte das celebrações.

Além da Visita Iglesia, outro aspecto que caracteriza a Semana Santa nas Filipinas é a chamada penitensya (penitência em tagalo, o idioma local). É comum ver a multidão abrir caminho para grupos que passam se autoflagelando. Num primeiro contato, achei chocante ver pessoas completamente ensanguentadas seguindo sob o sol quente do auge do verão filipino. Quando compreendi a dimensão da fé no país, no entanto, vi o fanatismo com menos preconceito.

A crucificação é uma das marcas da Semana Santa nas Filipinas
A crucificação é uma das marcas da Semana Santa nas Filipinas

O ápice da fé – ou do fanatismo, de acordo com a interpretação – talvez seja a crucificação. Nas encenações da Paixão de Cristo, há fiéis que se pregam à cruz de verdade, no intuito de vivenciar na pele o sofrimento de Jesus. Algumas províncias no país tornaram-se conhecidas pelas crucificações. A principal delas é Pampanga, onde milhares de católicos seguem em procissões sob um sol de rachar até culminar na encenação da morte na cruz.

É neste momento que fiéis se candidatam. Há uma crença popular de que tamanha entrega traga curas e outras graças, além de expiar os pecados. Embora a Igreja Católica desencoraje a prática, há um entendimento de que se trata de uma manifestação cultural e que, portanto, não há de se proibir. O que o Departamento de Saúde faz, no caso, é alertar sobre os riscos de tétano e sobre a importância da utilização de pregos esterelizados.

Como tenho um bebê de 1 ano, ainda não viajei até Pampanga para ver a crucificação. Achei mais seguro participar das celebrações aqui em Manila, perto da minha casa. Eis algo, para mim, muito interessante no país: as procissões estão espalhadas por toda a cidade. Nós optamos por fazer a Visita Iglesia pela manhã bem cedo, de modo a evitar o calor e as grandes aglomerações. Bem, não teve muito jeito. O verão nas Filipinas é impiedoso não importa a hora. E, quanto às multidões, não é possível fugir delas quando o assunto é fé cristã.

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Fiéis rezam em frente à estação da Via Crucis na Igreja de S. Judas
Colar de sampaguita, a flor típica filipina, é depositado sobre a cruz
Colar de sampaguita, a flor típica filipina, é depositado junto à imagem de Jesus Cristo

Começamos nosso roteiro pela Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, onde funciona o monastério beneditino. A escolha foi bastante afetiva, já que meu marido estudou a vida toda no Colégio de São Bento, no Rio. Optamos por não fazer um roteiro muito fechado das 7 igrejas. A ideia era ir andando e visitar as que fossem aparecendo pelo caminho. O percurso merece uma observação: mesmo sem mapas ou endereços, é possível saber onde há uma igreja próxima apenas seguindo o fluxo dos fiéis. É muita gente caminhando – todo mundo devidamente protegido por um guarda-sol. Vimos muitos grupos fazendo a peregrinação e era comum identificá-los pelas camisetas personalizadas, geralmente com o rosto de Jesus e o nome da família.

Passamos pela Igreja de São Judas e depois pela Igreja de São Miguel Arcanjo. De lá, precisamos pegar um triciclo (meio de transporte típico das Filipinas) para chegarmos até a Catedral de Manila, talvez a igreja mais importante, localizada na cidade histórica de Intramuros. Foi lá que encontramos a maior aglomeração de fiéis. Em geral, as pessoas param em frente a cada estação da Via Sacra e fazem suas orações. A movimentação lá dentro era bem difícil. Do lado de fora, o assédio dos ambulantes era forte. Os vendedores aproveitam a data para oferecer todo tipo de artigos religiosos.

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Encerramos a jornada na Igreja de Santo Agostinho, poucos metros distante da Catedral. Era a quinta igreja que visitávamos na manhã da Sexta Feira Santa quando nosso filhote começou a se incomodar muito com o calor e o cansaço. Mesmo não tendo cumprido a rota das 7 igrejas, como manda a tradição local, fomos para casa com uma ótima recordação e com a alegria de termos feito parte de um programa tipicamente filipino.

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Feliz Páscoa!

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