Goa, e o passado português que nos une à Índia

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Casarão português em Goa - arquivo pessoal
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A cada passo, meus pés afundavam ainda mais na areia, como se quisessem criar raízes e ali permanecer. Em frente ao mar de belas praias douradas da orla de Goa, o menor estado da Índia, encontro refúgio do caos e da instabilidade sempre presentes no dia-a-dia de quem vive neste país.

Resorts paradisíacos, baladas noturnas e os prazeres da culinária local — acompanhada de uma bela Kingfisher, a cerveja indiana — compõem o cenário que, junto ao câmbio favorável do dólar, atrai turistas do mundo todo.

Na alta temporada, de novembro a fevereiro, acontecem as famosas festas de fim de ano e o carnaval goês — o que acaba por comprometer a calma e a tranquilidade. De março a maio, o verão é intenso e úmido, mas os preços mais baixos e a agitação, menor. No período das chuvas de monções, de junho a outubro, os preços e a presença turística vão diminuindo à medida que a natureza verdejante aumenta — meu período favorito para estar em Goa.

A estrada deixa para trás as nuvens cinzas da tempestade que se forma sobre o mar. A vegetação densa, repleta de coqueiros e bananeiras, revela de tempos em tempos pequenas capelas caiadas ao longo do caminho. Bahia ou Minas Gerais, percorro cada quilômetro acreditando estar em meu país.

Sigo adiante ouvindo o motor do carro, sentindo o mover das rodas sobre o asfalto me transportar para o banco de trás, onde o meu eu-menina pede ao pai que cante a música da Serra da Boa Esperança, ou que a mãe recite pela décima vez o nome da tia-avó que colecionava sobrenomes dos maridos falecidos. Dou risada acolhida por minhas lembranças, enquanto o marido sorri e pergunta em que mundo eu estou.

Atravessamos o bairro de Fontainhas em Pangim, capital de Goa, que pouco colabora para que eu volte para o mundo atual e me sinta novamente na Índia. Calçadas com mosaicos coloridos — em pedras brancas, negras e vermelhas —, telhas de terracota, sacadas com grades de ferro forjado e edifícios em estilo barroco revelam o passado português do estado.

Portugal foi o primeiro império colonizador europeu que se estabeleceu na Índia, no começo do século XVI. Foi também o último a sair, em 1961. Com o estado de Goa anexado ao resto do país, o governo indiano introduziu as línguas hindi e inglês nas escolas, desestimulando o uso do português. Em espaços públicos, estátuas de portugueses ilustres deram lugar às de heróis nacionais, como Gandhi e Nehru.

No entanto, a religião católica permaneceu, ao lado do hinduísmo e islamismo. Vestimentas locais continuaram a copiar o modelo ocidental, com muitas mulheres optando por saias e blusas a tradicionais trajes indianos, como o sári. Sobrenomes como Monteiro, Miranda, Fernandes e Gonçalves acompanham nomes como Arkanj, Bawthis e Joki, variações de Arcanjo, Batista e Joaquim. E nos cardápios de Goa, iguarias como bacalhau, rissoles de camarão e pastéis de nata figuram ao lado do curry e massala indianos. Exemplos claros de que a cultura distinta que moldou este lugar está longe de ser apagada.

Um pouco mais ao sul da capital, famílias da antiga elite indo-portuguesa guardam esse passado desafiando o tempo, o correr da história.

Em frente ao casarão datado do século XVII, o vento nas sacadas deixa escapar pelas janelas cortinas de voal e segredos sobre os quais estou prestes a descobrir….

A sala de estar é grandiosa — móveis talhados em jacarandá, espelhos de cristal belga, mármore italiano, azulejos portugueses e persianas feitas de pequenas conchas de ostra polidas… A mulher de trinta anos conduz o caminho através de um corredor — nas paredes, retratos de seus antepassados parecem lamentar o pó, as rachaduras, as manchas e o estofamento desbotado. O ar é abafado, mesmo com todas as janelas abertas a vida moderna parece não se atrever a entrar ali.

Em um salão azul, lustres e candelabros cintilam raios solares como se naquele lugar a casa se recusasse a perder o brilho das noites de bailes de gala. Demoro a perceber a presença de uma senhora sentada à janela. A matriarca da família observa a rua e, sem desviar o olhar, reconhece a nossa presença apenas dizendo que o salão de festas foi utilizado pela última vez em 1917.

Sua neta, que nos guiou até ali, está parada à porta e tem o mesmo olhar fixo para um canto da casa. Anos atrás, ela havia deixado a faculdade para ajudar a família a cuidar da propriedade, trocando o futuro que havia planejado por um passado que não havia vivido.

A seda que reveste o teto do salão se desprende em muitos lugares. Alguns pedaços permanecem pendurados, resistindo à queda. O silêncio também deixa algo suspenso no ar. Meus olhos acabam por encontrar também seu ponto fixo — como se meu eu-menina saísse saltitante do banco de trás do carro; como se, finalmente, houvéssemos chegado à casa de minha avó Rosa, com os azulejos verdes de sua cozinha colorindo minhas lembranças; como se estivéssemos — meu “eu” de hoje e meu eu-menina — de volta ao interior de São Paulo, bebendo o café com leite daquela época, acompanhado de bolos e de histórias dos tempos de Minas e do bisavô português…

A dor suave que aperta o peito é a herança portuguesa que desconhece as fronteiras do tempo, da geografia ou da nacionalidade — saudade.

Três mulheres. Nossos olhares não se cruzam. Fixos em pontos diferentes, ainda assim enxergam a mesma coisa — o que já não mais está.

 

Quando em Goa, não deixe de visitar uma dessas casas fantásticas. Três exemplos são: o Palácio do Deão, a Casa Figueiredo e a Casa Braganza.

2 Comentários

  1. Oi Cris! Este é um momento único e imperdível, visto que meu coração abarrotado de saudade, não mede termos e frases para expressar toda a saudade um grande beijo do Papai.
    Filha!
    Como é bom ter lembranças…
    Obrigada por voce existir.
    Muito sucesso e Luz em tudo que fizer.
    Bjs da
    Mãe

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