Hábitos islandeses que eu adquiri

3
4181
Casa de campo no meio do nada, a paz que aprendi a valorizar. Foto: arquivo pessoal.
Advertisement

O homem se adapta ao meio, e a mulher, na minha opinião, mais facilmente ainda…

Quando me mudei para a Islândia, já tinha virado berlinense – existem até palavras em alemão para diferenciar os nascidos em Berlim dos “berlinenses por escolha”, e eu era uma dessas, berlinense de coração, em bom português.

Adorava o jeito desleixado da cidade e, obviamente, já tinha absorvido alguns hábitos comuns em países de clima frio, como secar sempre o cabelo para que ele não congelasse na rua (aconteceu comigo logo nos meus primeiros dias de Alemanha), ou assoar o nariz sem nenhuma vergonha, ao entrar em ambientes aquecidos, mesmo que o tal ambiente fosse um restaurante – pois o seu nariz escorre imediatamente quando você passa de -16°C a 22°C – , por exemplo. Separava o lixo em cinco tonéis diferentes, não andava sobre as ciclovias, nem atravessava a rua se o sinal de pedestre estivesse vermelho (de jeito nenhum!).

Dito isto, vocês podem imaginar que o choque cultural não foi tão grande quanto seria se eu tivesse caído aqui de paraquedas, vinda direto do Brasil; mesmo assim, algumas dessas coisas que listo a seguir são tipicamente islandesas e, se o ditado diz “em Roma, faça como os romanos”, na Islândia não pode ser diferente, a gente vai sempre se adaptando…

1.Tirar os sapatos antes de entrar em casa

Este é um dos hábitos que eu já tinha e é unanimidade por aqui; não se adentra uma casa islandesa com sapatos sujos da rua, até se for convidado para uma festa, você pode trocar os sapatos num hall na entrada da casa ou apartamento onde geralmente se guardam os casacos, gorros, chapéus e os sapatos do anfitrião e dos convidados. Isso existe em qualquer país frio onde neve bastante no inverno. Se não for uma festa, todo mundo fica de meia e pronto.

2.Tomar óleo de fígado de bacalhau “de colher”

Sim, por mais nojento que isso possa soar, eu me acostumei bem rapidinho a tomar essa colherada depois do café da manhã. Não nego que engulo um copo d’água e escovo os dentes logo depois desse ato de bravura, que é absolutamente necessário num lugar onde só há 4 horas de luz no inverno. O óleo também existe em cápsulas, ele é riquíssimo em ômega 3 e vitamina D, mas dizem que puro, na colher, é mais nutritivo – e eu acredito.

As crianças também ganham todo dia uma boa colherada desse óleo nos jardins de infância e creches da Islândia; voltam para casa com aquele leve cheiro de salmão cru (apesar de o óleo ser mesmo de bacalhau), mas a gente também se acostuma a isso.

3. Frequentar piscinas ao ar livre no inverno

A piscina está para os islandeses assim como a sauna está para os finlandeses. Na Islândia não há madeira, mas há água quente e energia elétrica em abundância, então, aquecer piscinas aqui não é luxo nenhum. E os islandeses tomam banho do lado de fora, sob quaisquer condições de temperatura e pressão; chova ou faça sol. Ainda não cheguei ao ponto de ir nadar quando está nevando, mas já consigo, muito bem, caminhar no frio até a ducha, depois de nadar ao ar livre, o segredo é fazer como os nativos: depois de sair da piscina de natação, entrar numa das banheiras térmicas borbulhantes e “cozinhar” lá dentro até ter ficar vermelho de calor e meio tonto.
Toda piscina pública aqui tem algumas dessas “panelas quentes”, literalmente traduzindo o nome “heitur pottur”, com temperaturas entre 37°C e 43°C e o costume é entrar nelas antes e depois de nadar, super relaxante. O mesmo vale para o próximo hábito:

4. Ir para a praia mesmo que esteja fazendo 10°C

O verão islandês é bem ameno, mas, se o dia está bonito e, principalmente, se não tem vento, todo mundo corre para a praia de Nauthólsvík (falei sobre ela aqui) para entrar no mar aquecido ou na piscina “panela quente”. Vou mais pelas crianças do que por mim; levamos comidinhas, fazemos piquenique (no Brasil, o nome disso é “farofar”), depois, tomamos uma ducha quentinha.

5. Colocar as crianças para dormir do lado de fora

Se você estiver caminhando pelas ruas de Reykjavik ou de outra cidade islandesa, verá um ou outro carrinho de bebê “estacionado” na porta de cafés ou restaurantes, ou nas sacadas e jardins das casas. Esses carrinhos não estão vazios, têm bebês dentro! No inverno ou no verão, bebês fazem a sesta do lado de fora para ficarem imunes ao clima, as creches são obrigadas a ter um espaço para os carrinhos para a dormidinha depois do almoço e, a não ser que haja tempestade, ela acontecerá ao ar livre.

No começo, eu achava meio estranho, confesso, mas, com minhas filhas não podia ser diferente e elas também tiveram uma boa dose de ar fresco no primeiro ano de vida.

Carrinhos de bebê do lado de fora da creche para a sesta. Foto: arquivo pessoal.

6. Ir para uma casa de campo no meio do nada…

… E achar isso o máximo…

Assim como virei berlinense, já me sinto praticamente uma viking (atenção: contém ironia!). Na Islândia existem as “casas de verão”, sendo que o verão tem uma temperatura média de 12°C e a água do mar, 4°C e, na maioria das vezes, nem estão perto do mar. Mas por que essa fixação com o mar, Erika? Porque verão tem cara de praia, calor e mar, eu não sou um ser de montanha, sou uma criatura da água. E essas casas não têm a menor cara de casa de verão, se formos por essa lógica…

Mas o ser humano é capaz de aprender tudo, tudo mesmo. E olha que eu não sou uma pessoa zen, nem um pouco, aliás. Entretanto, quando você se vê cercado por tanta tranquilidade e beleza, respirando um dos ares mais puros do planeta, não há como não começar a gostar de sair da rotina para ir para essas tais casas de verão.

A maioria delas tem também uma piscininha térmica tipo “Jaccuzzi” , uma churrasqueira (tipo americana, geralmente a gás e fechada) e um terraço do lado do sol, onde a gente senta para comer ou beber alguma coisa, enquanto as crianças brincam livres ao redor da casa. Ou todo mundo sai junto para fazer uma trilha durante o dia, colher mirtilos ou “airelas” (uma frutinha que dá no musgo islandês), passear nas redondezas. É simples, mas é gostoso.

Não é a praia com tira-gosto e bebida gelada, mar morninho do norte e nordeste, nem areia branca, nem caranguejo, nem queijo de coalho, nem palmeiras, onde canta o sabiá, mas é natureza e paz, também. Em Roma, fazer como os romanos, não é tão difícil assim.

3 Comentários

    • Oi, Mari,
      Não tenho números de estatística, mas como há muitos nativos europeus de praticamente todas as línguas indo-europeias, é difícil para um brasileiro entrar no mercado do ensino de línguas. Há pouco interesse pelo português e já existem alguns professores consagrados dando aulas de português para os poucos interessados.
      Quanto à cidadania europeia, é essencial ser cidadão europeu ou do Espaço Econômico europeu ou coônjuge destes para obter permissão de trabalho na Islândia.
      Boa sorte nos seus planos!

Deixe um comentário

Por favor inclua o seu comentário
Por favor escreve o seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.