Inglaterra – Amigos brasileiros em Londres

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Quando saí do Brasil, eu e meu marido estávamos na melhor fase das nossas vidas: muito felizes em nossa casa, com a nossa rotina e, principalmente, com nosso ciclo de amigos e com as nossas famílias. A primeira vez que me dei conta de que mudar para Londres significava mudar completamente de vida foi quando já havíamos tirado alguns móveis do apartamento e meus pais levaram para a casa deles a minha coelhinha (sim, tínhamos uma coelha de estimação). Naquele dia, eu olhava para o lado e sentia um aperto, costumo dizer que era uma pré-saudade, pois eu ainda estava lá, porém sabia que dali alguns dias não teria mais aquele chão pra me apoiar ou aquelas pessoas que me entendiam pelo olhar.

Quando chegamos em Londres fizemos uma longa e deliciosa viagem, mas na volta enfrentamos o momento mais difícil de todos: o início da mudança. É engraçado como a maioria das pessoas que converso falam como se mudar de país envolvesse apenas coisas boas, como se fosse um sonho cor de rosa, que todos se adaptam facilmente, que você aprende muito e, inclusive, muitos até dizem que nem voltariam mais. Nunca entendi esses comentários, afinal, como a pessoa pode saber de algo que ela não viveu ainda? Não tem nada de cor de rosa em mudar de país. Claro que existe a parte boa, principalmente aqui em Londres, uma cidade organizada, com pessoas educadas e cheia de oportunidades, mas está longe de ser fácil.

As duas coisas que mais me incomodavam no início foram a leve queda no nosso padrão de vida, afinal, agora tudo era pago em libra e precisávamos puxar o freio se quiséssemos estudar, viajar e aproveitar um tempo maior sem trabalhar, e a outra era a saudade de pessoas que me conheciam de verdade, há anos, que tinham histórias minhas para contar. É interessante pensar que a cada lugar que você vive, você acaba se tornando outra pessoa, não apenas por tudo que aprende, mas pela cultura local, pela sua rotina e também porque ali ninguém tem seu histórico para te questionar ou até mesmo para te relembrar de coisas do passado. Você não muda sua personalidade, mas sem dúvida se torna, no olhar dos outros, uma pessoa sem passado ou apenas com o passado que decidiu contar.

Sempre que me perguntam qual foi o momento mais difícil dessa mudança até agora, digo que foram os primeiros meses de adaptação e o nosso primeiro inverno. Esses dois momentos nos fizeram entender que nada é tão simples de perto quanto parecia de longe, além disso, nos fizeram valorizar mais as qualidades do nosso país. Claro, como qualquer separação, conosco não podia ser diferente, no momento em que apareceram os problema na nossa nova relação (com Londres), só conseguíamos nos lembrar das coisas boas do parceiro anterior (no caso, o Brasil). Mas, além de tudo isso, as dificuldades nos fortaleceram, literalmente, pois criamos mais resistência para os dias frios, passamos a nos acostumar mais com a temperatura, entender melhor quais eram os programas para se fazer no inverno e descobrimos uma nova família para nos dar suporte, aliás, até mais de uma, na verdade várias.

Sempre questionei muito as pessoas que mudam de país e começam a fazer parte de comunidades brasileiras ou latinas, acho que de alguma forma perde-se o propósito da mudança, pois você dificilmente sai da sua zona de conforto quando o assunto é se relacionar com pessoas. Foi por isso que no início fiz muitos amigos na escola de inglês, e embora eles fossem partir logo, passamos a ter uma amizade bonita e bastante confortante, pois éramos cada um de um país, com idades diferentes, mas sempre nos encontrando em situações parecidas. Esses amigos me ensinaram que somos todos iguais, não importa a cultura ou a região que nascemos, todos sentimos afeto, precisamos de apoio e somos inseguros em determinados momentos da vida.

Mas enfim o inevitável aconteceu, no curso de MBA do meu marido acabamos conhecendo muitos brasileiros na mesma situação que nós e foi com o tempo, como todo forte relacionamento exige, que entendemos o quanto nós brasileiros somos unidos e começamos a dar suporte emocional e prático uns aos outros. Houve muitos problemas nessa nossa jornada londrina, separações de casais, desilusões profissionais, tentativas, erros, fracassos, expectativas e realidades conflitantes à todo instante, cirurgias, curativos, mudanças com direito a muitas caixas e malas e, claro, muitos drinques, principalmente no inverno. E assim, no meio do caos, e também das belezas que o novo representa, passamos a ser uma família: unidos, companheiros, tampando de alguma forma o buraco que aquela vida brasileira deixou para trás e, apesar de darmos o ombro uns aos outros nos momentos difíceis, também estamos sempre disponíveis para brindar as conquistas, as novidades, e, ironicamente, as próximas mudanças da vida.

Sem dúvida somos todos diferentes, de religiões a opiniões políticas, mas temos algo a mais quando estamos juntos, algo que fica difícil explicar em português e impossível em inglês, pois é algo tão brasileiro que chega a ser clichê, alguns chamam de cultura, eu só consigo chamar de uma palavra que inventei para definir: familidade.

A gente nunca entende a importância do afeto, até que enfim precisamos desesperadamente dele. A gente nunca percebe a importância de fazermos favores, até que enfim precisamos de muitos deles. A gente não percebe porque devemos dividir o que temos, até que enfim alguém nos dá o pouco que tem, a gente demora para reparar que para brindar é preciso de mais taças em volta, até que um dia esquecemos dos problemas, levamos o vinho, gastamos o tempo que não tínhamos e nos sentimos verdadeiramente felizes pela conquista do outro, como se fosse a nossa.

Se eu tivesse que nomear os fatores que favoreceram minha adaptação em Londres, com certeza seria uma lista gigante, contemplando todo tipo de coisas, como esporte, segurança, tempo para pensar, novas perspectivas de vida, enfim, poderia encher dez páginas, mas se eu tivesse que dizer qual foi o principal entre todos eles, sem nem pensar eu diria: amigos.

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