A Marcha das Mulheres em Washington e no mundo

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Estados Unidos da América, 21 de janeiro de 2017: o dia que entrou para a história dos EUA. O dia que entrou para a história da luta feminina. O dia em que mostramos ao mundo que unidas somos muito mais fortes!

Tudo começou após a eleição de Donald Trump. Um grupo de mulheres, intitulado The Paintsuit Nation, se juntou no Facebook. Paintsuit Nation foi o nome dado em homenagem aos terninhos usados por Hillary Clinton durante sua campanha eleitoral. No começo, o grupo era formado por apenas 50 mulheres, mas rapidamente se tornou um fenômeno, e lá, mulheres de todas as “tribos” passaram a compartilhar histórias pessoais que explicam o motivo pelo qual não votaram em Donald Trump. Pois bem, o Paintsuit Nation evoluiu. Através do grupo, literalmente, milhões de mulheres se conectaram, se uniram e se organizaram para protestar contra o novo presidente e seus devaneios políticos extremamente arcaicos. Os primeiros protestos ocorreram logo nos primeiros dias após as eleições. Mas tudo foi se tornando muito maior, muito mais estruturado, muito mais coletivo.

Foi aí que surgiu a Women’s March on Washington DC: mulheres do país inteiro decidiram vir a Washington para marchar em protesto a Donald Trump e sua Administração. Muitas não puderam vir à capital norte-americana, então a marcha, que aparentemente ocorreria apenas em DC (por isso o nome Women’s March on Washington), se multiplicou e se tornou algo de escalas jamais vistas na história norte-americana. Foram mais de 670 protestos de mulheres americanas e estrangeiras ao redor de todo mundo. Literalmente em todos os continentes! Sim, até na Antártida! Totalizamos mais de 5 milhões de participantes ao redor do globo! O Brasileiras Pelo Mundo não quis deixar você de fora e muitas de nossas colunistas acompanharam de pertinho a marcha em várias cidades dos EUA! Veja abaixo:

Lorrane Sengheiser, Washington, D.C.: Aqui houve a marcha “principal” devido à sua localização geográfica. Eram esperadas aproximadamente 200 mil participantes na capital norte-americana, no entanto, somamos mais de 500 mil! Vi mulheres, homens e crianças. Brancos, negros, latinos, asiáticos, muçulmanos, pobres, ricos, altos e baixos. Todos caminhando lado a lado, em inúmeros gestos de solidariedade, de respeito ao próximo, de maneira pacífica. Tinha música, tinha fantasia, tinha muito cartaz e tinha muito grito de guerra. Os temas principais foram direitos civis, saúde, educação, imigração, refugiados, meio ambiente, direitos das mulheres e da comunidade LGBT. Encontrei grupos de brasileiros, canadenses, indianos, mexicanos e muitos outros em meio à multidão. A marcha aqui começou cedo, por volta das 10 da manhã, lotou o metrô de Washington, os estacionamentos, o National Mall, os hotéis, os restaurantes. Mais de 200 ônibus vieram das mais diversas partes do país. Artistas como Madonna, Ashley Judd, Emma Watson e muitas outras ativistas se fizeram presentes no palco principal, de onde saiu a marcha. De lá, todos foram para a Casa Branca com intuito de deixarem suas mensagens ao novo presidente registradas. Diferente dos protestos durante a posse de Trump, durante a Marcha das Mulheres, absolutamente ninguém foi preso em Washington.

Gabriela Albuquerque, Nova Iorque, NY: Os EUA são considerados uma das democracias mais sólidas do mundo. Muitos duvidaram disso depois das últimas eleições presidenciais que elegeram Donald Trump. Contudo, o país e, principalmente as mulheres, mostraram a sua voz. Em Nova Iorque pude conferir de perto a manifestação. Foram milhares de pessoas marchando passivamente, segurando cartazes em repúdio às muitas ofensas proferidas em campanha pelo presidente eleito. Crianças de colo e idosos, imigrantes, famílias inteiras, negros e brancos e principalmente mulheres estavam exercendo seu papel democrático, que vai muito além do voto. Para mim, foi um exemplo para o mundo, pois mostrou que a força do povo americano não vai sucumbir facilmente a uma gestão que inicialmente se mostra racista e segregadora. Aplaudi de pé e caminhei com orgulho ao lado dessas pessoas. Uma corajosa trajetória se iniciou nesse histórico sábado de janeiro, onde grande parte dos EUA mostrou ao mundo quais são seus valores.

Protesto em Nova Iorque (Foto: arquivo pessoal – Gabriela Albuquerque)

Paula Dalcin Martins, Columbus, Ohio: A marcha em Columbus aconteceu no dia 15/01, uma semana antes das demais, porque um número muito grande de participantes viajou para Washington e marchou também no dia 21. Mais de 3 mil pessoas participaram no evento! A multidão se reuniu ao redor do Centro de Ciência e Indústria e marchou até a central do governo do estado de Ohio, a Ohio Statehouse. Placas carregavam dizeres contra Trump, pedindo o fim do machismo e racismo, a favor dos direitos reprodutivos das mulheres (principalmente pelo direito à escolha do aborto seguro e legal), pedindo reformas nas leis de imigração e o acolhimento de refugiados, e a favor de direitos humanos (havia muitas placas e bandeiras LGBT). Cantávamos frases como “Isto é como uma democracia se parece!”, “Meu corpo, minha decisão”, “Chega de Trump, chega de KKK (Ku Klux Klan), chega de Estados Unidos fascista”, “lutaremos pelas mulheres, pessoas LGBT, imigrantes, refugiados, pessoas negras, pobres, indígenas, muçulmanos, todos os grupos marginalizados!”. Ao chegar à Ohio Statehouse, continuamos repetindo nossos “gritos de guerra”, aplaudimos o grupo e ouvimos agradecimentos das organizadoras do evento. Então formamos dois cordões humanos: um que circulou toda a quadra e outro, mais interno, que circulou o prédio. E ficamos naquela formação até o evento acabar.

Protesto em Columbus (Foto: arquivo pessoal – Paula Dalcin)

Raiane Rosenthal, Los Angeles, California: No dia 21/01, no primeiro dia de trabalho de Trump como Presidente dos EUA, milhares de mulheres de todas as idades lotaram o centro de Los Angeles. Segundo a polícia, cerca de 150 mil pessoas participaram da marcha, mas os participantes e organizadores dizem que o número foi muito maior, perto de 750 mil. Independente do número oficial, foi o maior protesto da história do país, e Los Angeles, sem dúvida alguma teve uma das maiores participações. No dia da posse de Trump, chovia muito por aqui, mas no dia seguinte, abriu um sol maravilhoso que não víamos há quase um mês, foi uma benção, uma força maior para lutarmos pelos nosso direitos, por nossos corpos, pela igualdade entre gêneros, pelos direitos dos homossexuais, e para que o novo presidente entenda que a migração é um direito humano, e que a minoria tem importância, e o mais importante, que não vamos aceitar o racismo contra qualquer cor ou religião, e que juntas somos fortes e podemos tornar o mundo rosa, ou de qualquer cor que quisermos, mas que o mais importante seja passado: que o amor sempre vence. Obrigada, mulheres de Los Angeles, nascidas ou imigrantes, de todas as cores e orientações sexuais, de todas as religiões ou sem nenhuma, mães, avós, filhas, tias, irmãs. Obrigada pela força, pelas lágrimas e pelo orgulho de fazer parte de uma comunidade tão unida.

Entrevistamos algumas brasileiras que participaram em outras cidades:

Natalia Crestani, Chicago, Illinois: No último sábado, tive o prazer e a oportunidade de fazer parte de uma das dezenas de marchas das mulheres organizadas pelo mundo, começando por Washington.  A minha participação foi em Chicago, que de acordo com o jornal “Chicago Tribune”, foi capaz de reunir 250.000 pessoas de diferentes origens em torno de uma extensa agenda. O protesto em Chicago foi o segundo maior dos EUA nesse dia, atrás de Washington. Apesar de eu ter caminhado junto a milhares de manifestantes pelas ruas do centro da cidade, oficialmente a marcha foi cancelada em razão da superlotação, permanecendo somente o “rally”. As cantorias e manifestos feitos por mulheres, homens e crianças de diferentes raças, opção sexual e religião, giraram em torno dos direitos reprodutivos das mulheres, contra as posições discriminatórias do atual presidente e suas estratégias politicas em relação a minorias (imigrantes, negros e comunidade LGBT), aquecimento global, e a luta do grupo “Black Lives Matter”. Como em qualquer sistema democrático, as manifestações também geraram reações negativas, mas a minha percepção é de que não existirá uma sociedade forte e democrática sem protestos a favor da manutenção de futuros e já adquiridos direitos.

Gabriela Burian, St. Louis, Missouri: Em um sábado ensolarado, o centro de St. Louis recebeu milhares de famílias manifestando-se de forma pacífica por mais respeito às mulheres e diversidade no país. Música ao vivo e emocionados discursos mostraram a força desse movimento que apenas está começando. O evento em St. Louis reuniu mais de 10 mil pessoas.

Maria Neves, Seattle, Washington: De acordo com os organizadores, a Marcha das Mulheres em Seattle reuniu mais de 175 mil participantes. Foi uma marcha pacífica, onde pessoas de todos gêneros, raças, religiões, culturas e orientação sexual participaram. Foi possível sentir a harmonia, amor, compaixão e solidariedade dos habitantes de Seattle. Como as outras manifestações, a marcha foi em apoio a mulheres do passado, do presente e do futuro, que não aceitarão, em silêncio, os insultos ou deslegitimação de Donald Trump. A marcha mostrou que resistiremos à intolerância, ignorância e discurso de ódio.

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