Minha casa é onde o coração está

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Fonte: Pixabay
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Há quase um ano, arrebentei o casulo, despertei minhas asas e comecei a voar alto!

Escolhi investigar o meu interior renunciando o modo automático.
Viver o meu propósito de vida abrindo mão da minha zona de conforto.
Ter coragem e renunciar o medo.
Experimentar novas alternativas desconstruindo padrões.

Escolhi as incertezas renunciando a segurança e essa tal estabilidade imposta pelo sistema.
Vivenciar outras culturas, climas, idiomas e renunciar temporariamente a diversidade, beleza e riqueza da minha casa, da pátria amada Brasil.

Escolhi encarar o desconhecido renunciando o colo da família e dos amigos, o abraço que consola e conforta, o carinho que acalma e aquece o coração. Mas, como disse Da Vinci, para estar junto, não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro.

Escolhi viver um longo período longe da cidade natal, do lugar e comida preferidos, da língua materna e costumes, para voar como estrangeira, comigo mesma, e explorar o novo, meus limites, forças e fraquezas.

No próximo dia 15 de março, completo um ano de jornada pelo mundo.

Não tenho propriedades nem chaves. Apenas sonhos e experiências. Minha casa é o meu próprio corpo.

Na Suíça, onde morei por dois meses em uma comunidade situada nos alpes, tínhamos o hábito de nos reunir todas as manhãs para compartilhar experiências, cantar, meditar, apoiar uns aos outros, dar boas-vindas aos novos moradores e agradecer àqueles que decidiram levantar voo.

Centro de Unidade Schweibenalp nos Alpes Suíços
Fonte: Arquivo pessoal Vanessa Tenório (www.voenessa.blog.br)

E foi em um desses encontros matutinos, quando eu sentia muita falta da terra natal com a chegada do inverno europeu, que ouvi esta música pela primeira vez:

I´ve been travelling a day
I´ve been travelling a year
I´ve been travelling my life time
To find my way home
Home is where my heart is
Home is where my heart is
My heart is with you.

Enquanto as cordas do violão e as vozes se uniam harmonicamente para compor a canção, a melodia e os versos adentravam em meus ouvidos aquecendo a alma, o coração, energizando o corpo e nutrindo cada célula com um tremendo regozijo.

Neste processo, cada membro da família, amigo, animal, lugar, som, aroma, sabor… ia desfilando na passarela dos pensamentos. Estava tudo aqui guardadinho dentro de mim. Pude senti-los, mesmo à distância.

Aos poucos, fui descobrindo que a minha casa é onde o meu coração está. E o meu coração reside onde há paz, amor, harmonia, união, solidariedade, respeito, confiança, simplicidade e, principalmente, conexão com a Natureza, com Deus, com o universo, com o todo.

Ainda na Suíça, experimentando o meu primeiro inverno europeu, percebi que havia ondas no gélido e azulado lago Brienz. A minha reação foi instintiva: corri para a sua margem, fechei os olhos e, imediatamente, comecei a chorar ao som das ondas das praias de Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca, Reserva, Recreio, Prainha, Grumari, Costa Verde, Costa do Sol, Norte, Nordeste e Sul do Brasil. Estava tudinho aqui dentro. E, mais uma vez, pude sentir o calor da minha casa (mesmo com temperatura negativa).

O som das ondas do mar sempre me trouxe muita paz. E, naquele momento, a paz estava dentro de mim, independentemente da localização geográfica e do recurso natural que emitia o som. Foi um momento único!

Aproveitei para fazer uma retrospectiva voando mentalmente pelos 12 países que visitei neste último ano.

Conheci tantas pessoas e lugares diferentes, reencontrei amigos, experimentei outros climas, provei diversos sabores e cheiros, bebi café sem coar e água quente, vivenciei vários costumes, usei trajes novos, reduzi o número de banhos e roupas, cantei e dancei músicas jamais ouvidas, falei outras línguas, brinquei com crianças de todas as idades e conheci pedagogias inovadoras, morei em uma escola, apoiei refugiados, toquei instrumentos, desenhei, escrevi poemas, plantei, cultivei, colhi, cozinhei, fiz pão, limpei, organizei, pintei, construí muros e casas, reparei e ajudei a construir telhados, carreguei e separei resíduos, reutilizei, reciclei, costurei, palestrei, compartilhei minha estória, inspirei novos programas de voluntariado, fui modelo em loja de segunda mão, andei de bicicleta com freio no pedal, levei cachorro para creche, mergulhei num lago escandinavo, dancei na chuva e ao redor da fogueira em noite de lua cheia, fiz fogo e caminhei descalça na neve, fiz biscoitos natalinos, exercitei diferentes partes do corpo, peguei carona e, acima de tudo, recebi a abundância do universo em forma de cooperação.

Aprendi a amar à distância,
a desconstruir padrões e seguir diferentes regras,
a conviver com estranhos e com a minha própria estranheza.

Aprendi a não julgar,
a ficar em silêncio,
a respeitar o meu desconforto sem cobranças.

Aprendi a não fazer planos,
a seguir o fluxo,
a ser mais paciente e flexível.

Aprendi a viver com apenas o necessário,
a gastar pouquíssimo dinheiro,
a aceitar ajuda.

Aprendi a conviver com o frio,
a relaxar e conversar com os animais,
a apreciar o ócio.

Aprendi a conectar-me com a diversidade e com o todo,
a expandir a minha casa interna,
a ser livre.

Livre para escolher meus próximos voos e pousar onde o fluxo e a sincronicidade do universo permitirem eu habitar com o propósito que está vivo em meu coração.

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