Mudar de país acaba mudando você completamente?

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Mudar de país acaba mudando você completamente?

Já faz algum tempo que voltei, mas confesso que não estou nos meus melhores dias, talvez esta seja a razão para eu pegar meu computador às 23h de uma quinta e começar este texto na cama, enquanto assisto alguma receita no GNT que envolve carne e, portanto, que não pretendo cozinhar nunca, já que sou vegana.

Eu sempre fui muito prática e agilizada, principalmente quando o assunto era trabalho. Nunca me permitia descansar ou desgostar de algo, sempre preferi gastar meu tempo tentando do que pensando. Mas depois de ter “parado a bola” e repensado minha vida durante estes anos em Londres, percebo que continuo ansiosa, mas que desta vez me sinto uma estranha dentro de casa, pois tudo que penso, falo ou desejo mudou completamente. Passei a ser uma pessoa mais seletiva, cautelosa e menos imediatista. Comecei a entender meus sentimentos e valores, e não considerar a possibilidade de quebrá-los, nem mesmo por dinheiro e, além de tudo isso, descobri que preciso de muito menos do que eu imaginava quando me permito ser livre.

Foi no meu último dia em Londres que recebi um “NÃO” da empresa que eu mais queria trabalhar e, como diz Lenine, isso me entortou tal qual a vara. Fiquei sem palavras por um bom tempo, saí para correr com meu marido e fiz 10km sem nem me cansar. Costumo correr bem quando estou nervosa, e neste dia eu precisava digerir, entender, soltar e aceitar.

Eu poderia apostar que cada um de vocês, assim como eu, depois de terem recebido um “não” de uma empresa que realmente queriam trabalhar, tiveram vontade de ir até o entrevistador, sacudi-lo e obrigá-lo a gostar de você, pois você é a pessoa perfeita para a vaga e ponto final. Por que você é a pessoa perfeita pra vaga? Simplesmente porque você encasquetou que quer trabalhar nessa empresa e ocupar aquela vaga, e dane-se esse blá blá blá cheio de razões racionais que adoramos inventar pra contar na entrevista, afinal, caro empregador, a resposta é essa aqui: Eu quero trabalhar na sua empresa porque eu quero!!!

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Mas quanto mais eu corria, mais rápido o “não” me alcançava. Enquanto eu respirava fundo e tentava me concentrar na corrida, questionava ainda mais a decisão da empresa e tentava achar qual foi a minha falha, porque não fui a escolhida. Mas, como vocês devem saber, fazer isso é como procurar peixe no Rio Tietê, você procura, procura, não encontra o peixe, mas aparecem várias outras coisas. Eu comecei a entrar naquele processo de me desvalorizar, de achar que o problema estava em mim e nem parar para pensar que de repente, como eu mesma já fiz quando contratei pessoas, eles gostaram muito de mim e de outras pessoas, e simplesmente fizeram uma escolha.

Nesta altura, em frente à TV, deitada na cama e morando no Brasil há mais de um mês, o tempo passava e eu fazia uma entrevista mais bizarra que a outra e recebia propostas que me desvalorizavam como nunca, só que desta vez não é culpa da crise ou dos políticos (na verdade tudo é culpa deles, mas vamos tentar não entrar neste assunto hoje), a culpa é minha. Eu mudei minha personalidade, e mudei pra valer. Não quero saber de empregador com discurso machista, de empresa que quer fazer do processo de contratação uma gincana infinita e nem tampouco de aceitar um salário injusto com a desculpa de que estou apostando na empresa, afinal, quem gosta do meu trabalho aposta em mim também.

A verdade é que o que eu quero fazer eu já descobri lá na terra cinza da rainha, quero trabalhar para uma empresa responsável, que tenha propósitos, que seja ética, com salário e horário justos. É pedir muito? Parece que sim, inclusive parece uma piada para muitos por aí quando digo que todos nós deveríamos pensar nisso. Alguns dizem que se quero tudo isso é melhor eu voltar pra Londres, outros acreditam que só classe média consegue pensar nessas coisas, pois quem realmente precisa trabalhar não fica escolhendo. Ambos tem razão, mas, como eu disse, eu sou prática e bem direta. Sou classe média e não prendendo voltar pra Londres agora, portanto tenho que considerar meus questionamentos e tentar fazer o melhor que posso para encontrar uma alternativa.

Acho engraçado as pessoas pensarem que é ridículo eu estar precisando de trabalho e não aceitar por razões bestas, como o meu futuro “chefe” que me ligou oferecendo o trabalho e fez uma piada machista, mas a verdade é que de fato não posso ficar escolhendo trabalho feito dondoca, mas tenho o dever de seguir com os meus valores, mesmo nos momentos mais difíceis. Ideais e valores todo mundo tem, a questão é se consegue mantê-los vivos mesmos quando alguém te entrega um copo de água gelada em tempos de seca.

Já se passou uma semana desde o dia da receita no GNT, e eu ainda estou aqui, agora no sofá, tentando escrever este texto. O que mudou desde lá? Já encontrei meu apartamento, e embora seja um prédio velho e eu tenha mil coisas para arrumar, enfim vou morar aonde sempre quis. Meus amigos, sejam os de Londres ou os daqui, estão sempre ao meu lado sendo amigos, ou seja, me irritando e me amando com todos os seus lindos defeitos e também com seus ombros cheios de espaço para eu me encostar. E o meu marido? Bom esse sim é a razão para todos os dias eu perceber que seja como for, aonde for, eu tenho um motivo bom pra continuar sendo quem eu sou, afinal, o cara mais inteligente do mundo ainda tem me achado genial. E o emprego? Ah, se quiser me contratar e for a empresa que descrevi, então aproveite que ainda não me descobriram.

Os dias e as pessoas estão mais quentes na minha volta, acho que enfim começo a me sentir novamente em casa por aqui, embora morar fora tenha me mudado completamente e eu esteja enxergando essa tal de casa de outra maneira, com um pouco de estranheza, confesso, é como diz Renato Russo “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”.

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Johana é paulistana, vegana, trabalhou como publicitária por 10 anos mas hoje desenvolve projetos incentivando desacelerar o consumo e divulgando a moda sustentável, além disso, desenvolve projetos de consultoria de comunicação e ama escrever em seu blog para desabafar e falar sobre os erros, acertos e desafios de, depois de alguns anos morando em Londres, voltar para pátria amada e idolatrada. Atualmente mora em São Paulo com o marido.

7 Comentários

  1. Johana amei ler esse texto tão sincero e me peguei por várias vezes me identificando com sua visão de valor e de princípios

    Eu sou jovem tenho 23 anos e aos 17 comecei minha vida profissional em uma instituição bancária espanhola, para muitos de onde eu venho é um sonho “estável”, uma oportunidade de carreira com aposentadoria garantida… Mas não era bom para minha saúde e principalmente para os meus valores aos 21 conheci a empresa que represento hoje com muito amor , pedi as contas do banco e sou um novo ser, pois desenvolvi e desenvolvo todos os dias o lado HUMANO do meu ser, praticando a regra de ouro que a empresa e minha mãe pregam: Trate os outros como gostaria de ser tratada
    Desejo que você encontre uma empresa que ressoe com seu coração

    Beijos Biana

    • Pois é Bianca, não existe fórmula para felicidade, alguns preferem a estabilidade, outros a criatividade, e tem aqueles que preferem simplesmente seguir o coração. Enfim, apenas aprenda com cada etapa da sua vida e dê valor para todas as oportunidades que aparecem. Respeitar o próximo é o mínimo que devemos fazer, talvez não seja preciso gostar de todos, mas respeitar, sem dúvida, é necessário.
      Obrigada pelo apoio e desejos sinceros,
      Beijos!

  2. Amei seu texto. Falou muito da mudança que estou passando. Estou há apenas 10 meses morando fora e passei a pensar da mesma forma que você, valores foram mudando. Espero que encontre o trabalho que procure e que estes mais pessoas passem a compartilhar este pensamento no Brasil!

    • Thais, aproveite esses ensinamentos que morar fora te traz, mais do que ter experiência de trabalho ou de cursos no exterior, são as experiências de vida, pois essas são as que mais vão impactar nas suas escolhas daqui para frente.
      Desejo toda felicidade do mundo pra você e agradeço seu apoio.

  3. Nossa Joh, como te entendo! Acho que ainda estou tentando me encontrar aqui no país onde as quatro estações, aparentemente, são uma coisa só! E a vida segue andando… Beijos.

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