Myanmar – A orquídea de ferro: quem é Aung San Suu Kyi

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No Brasil, e em muitos países mesmo quando as pessoas não conhecem muito sobre Myanmar e sua cultura, pelo menos um nome sempre vem à mente da maioria: Aung San Suu Kyi.  Afinal, quem é Aung San Suu Kyi e qual é a sua trajetória política?

Uma mulher pequena e franzina; de semblante calmo e olhar sereno, mas com força de vontade imbatível e um espírito lutador incansável. Por estas características, dentre outros apelidos, ela ganhou o nome de “The Iron Orchid”, a orquídea de ferro. Pelo mundo também é  conhecida como “The Lady”e em Myanmar, muitos a chamam de “mãe Suu”. Para ter uma melhor ideia do amor incondicional do povo birmanês em relação a ela – os birmaneses a amam tanto que muitos chegam a tatuar seu rosto ou de seu pai, general Aung San, para demonstrar sua devoção – é necessário repassar sua trajetória.

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Aung San Suu Kyi. Créditos: Claude Truong-Ngoc, Wikimedia Commons.

Nascida em 19 de junho de 1945, em Yangon, é filha do general do exército birmanês, Bogyoke (General) Aung San. O general Aung San é tido como o pai da nação moderna. Fazia parte do partido social democrata e arquitetou a independência do país do Império Britânico, mas foi assassinado 6 meses antes da independência se tornar oficial. Hoje em dia ele é tido como um herói e mártir da independência birmanesa.

Em 1960, Khin Kyi, sua mãe, foi nomeada como embaixatriz na Índia. Lá, Daw Suu (“Daw” é um pronome de tratamento que mostra respeito, como “senhora”) terminou o ensino médio e depois estudou filosofia, política e economia na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Nesta época conheceu Michael Aris, com quem anos mais tarde se casou e teve dois filhos.

Em 1988, Aung San Suu Kyi voltou ao Myanmar para cuidar de sua mãe, que estava doente, em estágio terminal. Nesta época, o país estava sob um ferrenho regime militar, desde 1962, quando houve um golpe de Estado e os militares assumiram o poder, controlando o país desde então. Porém, o general que estava no poder durante o golpe, U  Ne Win, já não estava mais na cúpula da junta militar. No entanto, continuava a regir o país, sendo responsável por retaliações violentas aos protestos contra o governo militar. Daw Suu começou a criticá-lo e ao governo publicamente, exigindo democracia e respeito aos direitos humanos. Aos poucos, foi se envolvendo na política. Muitos dos que lutavam contra o regime – ativistas exigindo a democracia – quando souberam que a filha do general Aung San estava no país, a procuraram, pedindo para que ela se juntasse ao movimento pró-democracia.  Seu partido, o National League for Democracy (NLD – Liga Nacional da Democracia) nascia ali. Mais tarde, ela foi posta sob regime de prisão domiciliar, que viria a durar longos 10 anos.

Em 1991, Aung San Suu Kyi foi anunciada como vencedora do Prêmio Nobel da Paz devido a sua luta por democracia em seu país. Ainda vivendo sob prisão domiciliar, ela não pôde receber o prêmio pessoalmente. O marido e os filhos receberam o prêmio por ela numa cerimônia em Oslo, na Noruega.

Em 1995, ela foi libertada de sua prisão domiciliar pela primeira vez, no entanto, enfrentava muitas restrições para viajar. Vale lembrar que sua família – o marido e os dois filhos – continuavam morando em Londres. Em 1999 seu marido faleceu devido a um câncer, e apesar de vários apelos, não foi permitido a ela que deixasse o país para visitar o marido doente, bem como quando ele veio a falecer; ela não pode se juntar aos filhos na Inglaterra.

Em 2015, houve as primeiras eleições livres no país. Aung San Suu Kyi era, então, a líder do seu partido. Em Myanmar, o regime de governo é o parlamentarismo presidencialista. Todavia, de acordo com uma uma lei feita sob medida para ela, Suu Kyi não pôde se tornar presidente do país porque seus filhos tem uma cidadania estrangeira (britânica). Seu partido, o NLP, obteve a maioria esmagadora dos votos por todo país obtendo a maioria no Parlamento. Por lei, os militares detêm 15% dos assentos no parlamento, independentemente do resultado das eleições. Quando houve as eleições, eu não estava ainda no país, mas me lembro de acompanhar o noticiário e as atualizações dos meus amigos birmaneses no Facebook. Todos postando orgulhosos fotos do dia da votação.  Birmaneses em Cingapura (onde há uma comunidade imensa) enfrentaram horas e horas de fila em sua embaixada para garantir seu voto. Era emocionante acompanhar a trajetória deste povo e seu país rumo à democracia, sentir o quão esperançosos estavam. Com o resultado positivo o país entrou em êxtase. Oficialmente, Aung San Suu Kyi é conselheira nacional, mas ela mesmo disse, desde o começo, que estaria governando acima do presidente U Htin Kyaw. O presidente escolhido era um de seus conselheiros.

O regime militar deixou uma ferida grande no país. Milhares de mortos, torturados, desaparecidos e prisioneiros políticos. O país ainda não se recuperou completamente, pois há apenas alguns anos desde a abertura. Hoje em dia ainda existem conflitos armados em certas regiões, entre rebeldes e militares. A comunidade internacional também tem criticado Aung San Suu Kyi por não se posicionar claramente contra a violência aos “rohyngia”, como é chamada uma minoria muçulmana que vive no estado Rakhine, próximo a fronteira com Bangladesh. Eles são perseguidos por muitos, não têm cidadania em Myanmar e, em consequência, não têm direitos. A maioria dos birmaneses, apesar de serem contra violência, não os reconhecem como cidadãos, pois o argumento é de que são cidadãos de Bangladesh e, portanto, um problema daquele país. Existe até mesmo um monge budista extremista que espalha discursos de ódio contra muçulmanos. Este é um assunto extremamente delicado em Myanmar. A comunidade internacional exige de Aung San Suu Kyi que condene claramente a perseguição a esta minoria, o que até agora não ocorreu.

A situação  política em Myanmar no momento é estável, mas de um equilíbrio frágil. Apesar das críticas, analisando sua luta pela democracia e os sacrifícios pelos quais passou por este longo caminho, abdicando da vida particular em prol do seu país, é de se admirar a força e como atingiu seus objetivos sem uso de violência.

Esta é a história da “Orquídea de ferro”,  uma senhora de 71 anos que devotou sua vida a seu país e à luta pela democracia.

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