Myanmar – Diversão e entretenimento: a tradição e o novo

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Um barzinho no centro da cidade. Música ao vivo, pessoas bebem cerveja, coquetéis, dançam ao som de música ao vivo ou DJs. Uma cena comum na maioria das cidades pelo mundo, mas em Myanmar, algo ainda impensável até alguns anos atrás. O país passou os 50 anos da ditadura militar completamente isolado do resto do mundo. E por haver tantas restrições de acesso e comunicação com o mundo exterior, entrar como turista no país, nesse período, era extremamente difícil.

Desde quando Myanmar começou a se abrir para o mundo num lento processo de democratização, as mudanças chegaram avassaladoras, espelhadas inclusive na indústria de entretenimento. Jovens birmaneses, especialmente os de classe média, vivem entre dois mundos. De um lado, as tradições birmanesas, o respeito e obediência à família e a prática de sua religião (seja budista, muçulmana ou católica). Do outro lado, a sociedade de consumo e a cultura pop ocidental.

Enquanto pelas ruas é possível se ver talvez 90% ou mais da população usando trajes típicos, esta geração adotou roupas em estilo ocidental para o dia a dia, mas também para sair à noite ou ir a um clube. Em um dia você vai a um clube noturno sofisticado, bebe vodca com os amigos, dança ao som dos últimos hits americanos. No outro, você vai ao templo com seus pais. Tenho uma amiga que vive bem o estilo ocidental, adora sair para a balada, beber, dançar, mas seu pai é um monge budista (monges também adotam o celibato, mas ele se tornou monge quando os filhos já eram adultos). Às vezes, em alguns bares, até se pode ver birmaneses vestindo o traje tradicional birmanês, o longyi ( para mulheres) ou paso ( para homens). Isto é Myanmar!

Em Yangon há diversos bares para todos os gostos e bolsos. Bares estilosos, pubs ingleses, reggae bar, clubes chiques, os famosos rooftop bar, no topo de alguns prédios. Também há uma cena underground interessante; a cena punk em Yangon tem crescido bastante nos últimos anos. O documentário “Yangon Calling“, dos cineastas alemães Alexander Dluzak e Carsten Piefke, fala sobre isto. Os punks de Yangon também circularam pela mídia local e internacional pelo seu trabalho com moradores de rua: eles saem pelas ruas distribuindo comida aos sem teto.

Com relação à música tradicional, temos canções populares, algumas inspiradas no folclore, e outras típicas para certas ocasiões, como eventos religiosos ou no Ano Novo (que aqui, é em abril). A música popular foi influenciada pela música ocidental já desde os anos 30. Em 1988, houve uma série de protestos por todo país, iniciados por movimentos estudantis, para protestar contra o governo militar. Estima-se que entre 3.000 e 10.000 pessoas morreram durante os protestos, que tiveram seu auge em agosto de 88, e por isso, este movimento ficou conhecido como Revolução 8888. Após o ocorrido, foram surgindo também canções com temas como liberdade e democracia.

As rádios tocam tanto música popular quanto artistas pop birmaneses, que fazem música no estilo ocidental. Rock, pop, hip hop, até metal, tudo em birmanês. Fui uma vez num show de rock de uma banda que é muito conhecida no país. Eles cantam apenas em birmanês. Eu até conhecia uma ou duas músicas, mas não tão bem a ponto de conhecer e cantar a letra, o que foi um tanto frustrante para mim, enquanto o resto do público cantava em coro. A banda mais famosa do país é uma banda de rock chamada Iron Cross. Seus membros também tem projetos solo e são verdadeiras estrelas; seus shows são relativamente caros. Além disso, são garotos propaganda de várias marcas, inclusive internacionais. Um amigo meu birmanês é músico e trabalha compondo músicas para comerciais e jingles para rádio. Ele também trabalha como ator em comerciais, atuando uma vez junto com um dos músicos do Iron Cross, num comercial de uma famosa marca internacional de café (sim, comercial de café regado a heavy metal, isso também é Myanmar).

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Cena do filme “The Face”. Fonte: arquivo pessoal do ator Zell Roland Min Htet.

Concursos como o Myanmar Idol e o Asia Next Top Model (que une vários países ao invés de ter uma edição local) também fazem parte da cultura local. Já tive a oportunidade de conhecer aqui pessoas que trabalham em diversas áreas de entretenimento como dançarinos, coreógrafos, modelos, músicos, fotógrafos, atores. É uma geração extremamente criativa. Os birmaneses também gostam de filmes e cinema. Filmes internacionais são simplesmente baixados na internet ou se compram os DVDs piratas pelas ruas. A indústria cinematográfica local tem se desenvolvido com o passar dos anos. Antes da ditadura o cinema birmanês florescia; existem vários clássicos dos anos que hoje são vistos pela população com nostalgia. A maioria dos cinemas está em cidades grandes como Yangon e Mandalay, o que ainda dificulta uma maior distribuição. Existe um festival de cinema em Yangon, que tem como meta incentivar o desenvolvimento da indústria no país, bem como uma Escola de Filmes, fundada em 2005, por um cineasta anglo-birmanês. Esta escola surgiu como uma organização sem fim lucrativos, com o intuito de ajudar e encorajar profissionais da mídia no país. Ir ao cinema é um passatempo popular. As entradas custam em média 4000 kyats, cerca de 3USD. Entre os filmes nacionais, os gêneros preferidos são comédia, romance e ação. Um amigo meu que é ator- retratado na foto acima-, já fez alguns filmes, em sua maioria de ação, mas ainda não é um ator conhecido; seu sonho é se tornar um ator famoso. Enquanto não alcança seu sonho, às vezes trabalha como modelo e também ajuda nos negócios da família, pois mesmo não sendo uma indústria gigantesca como em muitos países mais desenvolvidos, não é uma carreira fácil a ser seguida.

Para a geração mais nova, o que vivenciam agora – a mistura de culturas, elementos tradicionais e orientais – é algo normal. Para mim continua sendo fascinante observar como mesclam com naturalidade estes elementos que, a princípio, parecem ser tão opostos. Um dos melhores exemplos para esta mistura que já vi até agora foi um rapaz birmanês que vi na rua, vestindo seu tradicional paso (o longyi para os homens) e uma camiseta do Sepultura (uma das minhas bandas preferidas e motivo de orgulho da música brasileira). Me arrependo até hoje de não ter tirado uma foto. Mas outras oportunidades com certeza aparecerão.

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