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Escócia

O que me faz falta na Escócia

Meu marido costuma dizer que depois que mudamos de país, nunca mais seremos felizes em país nenhum. Pode parecer pessimista, mas na verdade o que ele quer dizer é que nenhum lugar é perfeito. Sempre sentiremos falta de alguma coisa aqui ou lá.

Depois de quase 1 ano e meio fora do Brasil, eu posso dizer que concordo com ele. Apesar de estar muito feliz com a nossa escolha e as nossas conquistas morando na Escócia, como detalhei no post Escócia – Onde menos é mais, sinto falta de coisas que no momento parecem insubstituíveis.

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Foto: Narister Oliveira

Família e Amigos

Eu sempre fui muito apegada à minha família, e me separar deles foi um dos motivos que adiou nossa decisão de sair do Brasil. A facilidade de comunicação ajuda muito a encurtar a distância, mas tem momentos que não preenche o buraco: almoço de domingo, Natal, aniversários, doença lá ou cá, e situações práticas como precisar deixar seu filho com alguém de confiança. Privar os meus filhos do convívio com a família também é um buraco que não dá para compensar pelas redes sociais. Hoje que eles já estão bem integrados aqui, vejo que sentem saudades, mas já estão construindo vínculos que serão tão fortes quanto os que têm com a família no Brasil, porque, afinal de contas, “amigos são a família que a gente escolhe”.

Eu me considero privilegiada porque tenho amizades no Brasil que duram desde a minha adolescência, mantidas sem ajuda de rede social e que estiveram presentes em todos os momentos importantes da minha vida. Tenho tido sorte de encontrar pessoas muito boas nesta minha nova casa, e sinto que já estou escolhendo minha nova família aqui na Escócia também, mas isso não se faz da noite para o dia. Enquanto isso, eu sinto muita falta dos encontros cheios de recordações e risadas com pessoas que fizeram parte da minha vida.

Sol

Confesso que o clima na Escócia é melhor do que eu esperava, pois achava que aqui nevava a maior parte do tempo, e porque antes morei na Irlanda, onde o clima é muito similar ao escocês.  De qualquer forma, para quem vem de um país tropical, onde o sol brilha quase o ano todo, a falta de sol é um fator impactante.

A Escócia tem em média 1.250 horas (52 dias) de sol por ano, enquanto no Brasil a média de sol por ano é o dobro: 2.500 horas (104 dias). Ou seja, vou precisar de 2 anos na Escócia para receber a mesma quantidade de sol que meus amigos brasileiros recebem em 1 ano no Brasil. Esta diferença traz impactos para a saúde mental e física.

O sol tem importância vital para a absorção de vitamina D, que é essencial para o equilíbrio de diferentes órgãos e funções do organismo. A falta de vitamina D, tem que ser compensada com a ingestão de suplementos e consumo de alimentos com maior concentração desta vitamina, como salmão, arenque, sardinha, ovos, leite e manteiga.

Para a saúde mental, a falta de sol pode provocar depressão de inverno que é chamada aqui de SAD (Seasonal Affective Disorder) ou “Winter Blues”, conforme a nossa colunista Marina Lemos descreve no post Psicólogas pelo Mundo – Quando a depressão de inverno chega.

Comida

Quem foi criado comendo comida mineira e paulista como eu, com certeza vai sentir falta de muita coisa aqui no Reino Unido. A fama da comida britânica nunca foi boa, e morando aqui temos que concordar que o mundo tem razão. Acho que a falta de sol é um dos fatores, porque o cultivo fica mais restrito e a culinária se adaptou ao que era produzido aqui, mas atualmente quase tudo pode ser importado e mesmo assim a comida é insossa, repetitiva, e pouco saudável. O ingrediente principal é a batata, em todas as suas versões, acompanhada de carne, frango, peixe frito (o famoso “fish and chips’”), e muita pimenta e curry. E os doces são secos, cheios de manteiga e sem sabor doce.

Diante deste cenário, não tem como não sentir falta da nossa feira de rua cheia de frutas e legumes frescos, dos diferentes cortes de carne, dos pratos deliciosos à base de frutos do mar, dos petiscos nos bares, dos sucos naturais. Mas graças à globalização, encontramos alguns produtos brasileiros à venda por aqui, bem como frutas e vegetais importados do Brasil (o melão brasileiro aqui é mais gostoso do que no Brasil!) e de outros países que têm sol, além da nossa comidinha caseira, na Escócia, continuar com sabor brasileiro.

Língua e Cultura

Claro que tudo aquilo que aprendemos de inglês em escolas de línguas no Brasil é útil, mas quando chegamos aqui nos sentimos como crianças sendo alfabetizadas de novo. Em Glasgow temos mais dificuldade ainda porque o sotaque é muito diferente, e até os nativos em inglês têm dificuldade de entender (este vídeo mostra o drama).

Soma-se à nossa falta de fluência, as gírias e palavras locais, os nomes de lugares e pessoas que no meio do vocabulário novo fica difícil de identificar, sendo assim, as nossas tentativas de participar de uma conversa se resumem a rir porque eles estão rindo, ou entender tudo errado. Uma vez atravessei a rua e uma senhora do outro lado me falou ‘”Do you trust in God?”, eu respondi “Yes”, ela então segurou na minha mão e me puxou para atravessar a rua com ela. Na verdade, ela tinha dito “Help me to cross the road”.

No meio de tudo isso tem toda a bagagem cultural que você não tem: as piadas, a história, as tradições, as festas, os costumes. Tudo isso te lembra que você não é daqui, e que você tem que aprender de novo a falar, a rir, a comer e a ser feliz longe das suas origens.

O mais importante é enxergar o lado bom da vida na Escócia, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Se sinto falta é porque foi bom, e se quero conhecer é porque está sendo bom também.

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