O traje acadêmico, a Praxe e a Queima das Fitas em Portugal

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foto: jn.pt
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Logo quando cheguei em Portugal, no Porto, em setembro de 2010, vi inúmeros jovens vestindo roupas pretas com capas (todas com um mesmo padrão). Achei super estranho! Mas associei a um tipo farda alinhada. Lembro que minha mãe estava comigo na época e comentou que aquilo parecia uma seita. Chegou a perguntar para uma menina que estava vestida assim se era alguma religião. Foi bem engraçado! A menina, gentilmente, nos explicou que era o Traje acadêmico.

Na mesma semana almoçamos com uns amigos portugueses e comentamos o ocorrido. Até falamos que parecia muito com o filme Harry Potter.

E pasmen! A trilogia Harry Potter começou a ser escrita aqui no Porto, especificamente no Café Majestic. A escritora J. K. Rowling morou um tempo na cidade e achou tão interessante o traje que o incluiu na sua famosa trilogia.

A Universidade do Porto foi a primeira a usar o Traje. O sentido dele é a não distinção entre ricos e pobres. Os alunos desde o primeiro ano podem utilizá-los, pois o objetivo é evitar a discriminação social e poder distinguir os universitários do restante da sociedade. Hoje em dia o que é divulgado é que só pode ser usado por alunos do segundo ano da faculdade, que passaram pela praxe e adquiriram o direito de usá-los.

Foto: Artur Machado / Global Imagens

Mas o que é a praxe?

Bem semelhante ao nosso trote universitário. Só que enquanto o nosso dura geralmente uma semana, aqui o ritual da praxe dura um ano acadêmico! Começa no início do ano letivo, ou seja, em setembro. Participar da praxe é opcional. Ela é realizada pelos veteranos mais velhos do curso e quem é submetido são os caloiros (nossos calouros). Por isso, se você vier a Portugal e encontrar um grupo de pessoas com roupas pretas (traje acadêmico) junto com outro grupo fazendo atividades como cantar, ajoelhados ou deitados no chão, recebendo ordens, já sabe que está diante de uma praxe.

A praxe nada mais é que um ritual de iniciação. Nela são realizadas muitas tarefas, brincadeiras, passeatas com músicas até engraçadas, serenatas, tribunais e termina com a famosa Queima das Fitas. Existem também atos públicos de humilhação, com o objetivo de mostrar a hierarquia do grupo de veterano. Alguns são até interessantes, mas existe uma linha muito tênue entre o jogo da iniciação e a violência psicológica e, às vezes, até agressão física.

Dentre os objetivos de alguns tipos de iniciação, destacam-se o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte (adulto). O iniciado deve aprender a se fortalecer com o isolamento, sobreviver em condições precárias, estar preparado para as dificuldades da vida, etc. O objetivo final é ser respeitado como novo membro do grupo, após alguma tarefa ou ritual particular.

Vemos muito esses rituais em tribos indígenas, tribos africanas, fraternidades estadunidenses, praxes portuguesas, dentre muitos outros.

A boa da praxe gera a inclusão dos novos membros na comunidade acadêmica. Existem uma série de regras a serem cumpridas. Os caloiros são tratados como iguais, sem privilégios. Isso acaba promovendo mais a união do grupo como um todo. E se acabar se sentindo mal com algum pedido de um veterano, você pode se recusar a fazer o que foi solicitado e explicar o motivo pelo qual não poderá cumprir o pedido.

A ideia inicial da praxe é promover a integração dos alunos recém-chegados entre eles mesmos e com os veteranos. Sempre respeitando os limites de cada um.

Em 2014, o Ministério da Educação emitiu uma nota informando que ninguém é obrigado a participar das praxes. Isso foi devido a inúmeros incidentes de abuso de poder dos veteranos, o que originavam praxes violentas e abusivas.

A praxe é originária de Coimbra, e em 1916 foi escrito o ‘Código das Muitas Partidas’ por Barbosa de Carvalho. Quer conferir o código? Clique aqui!

Após 1 ano sendo praxado, os alunos finalmente podem comemorar! É a famosa ‘Queima das Fitas’. Uma semana com muita festa e eventos.

Queima das fitas

Logo no início de maio, o Porto fica preenchido de estudantes felizes ou porque terminaram finalmente o curso ou por terem finalmente encerrado o período da praxe.

A Queima das Fitas lembra um pouco no nosso carnaval (carnaval da Bahia!!). É uma semana inteira de comemorações. As aulas encerraram e só há espaço para festividades!

Se estiver visitando a cidade nessa época, verá inúmeros estudantes vestindo, orgulhosos, os seus Trajes. E tem muita coisa acontecendo: serenata, cortejo,  sarau cultural, e as famosas noites das Queimas das Fitas. Nessas noites, você vai para shows que os ingressos são baratos e lembram muito o Festival de Verão (em Salvador).

O lado negro da praxe

Um momento que deveria ser de muita alegria, às vezes é invadido por muito medo e tensão. Isso acontece quando a praxe viola os direitos humanos, e o resultado é sempre caótico. Algumas vezes as praxes são violentas e abusivas, a ponto de poder custar a vida dos novatos. Veja alguns exemplos.

  • 3 mortes em Braga – 2014
    Em abril de 2014, após uma suposta “guerra de cursos”, quatro alunos sobem em um muro e começam a pular. O muro cede e cai sobre 3 alunos, que morrem pelos ferimentos sofridos.
  • Coma alcóolico no Algarve – 2015
    Em setembro de 2015, uma jovem de 19 anos foi embebedada, enviada para mergulhar no mar e depois foi enterrada na areia. Foi internada com coma alcóolico.
  • 6 mortes em Sesimbra (Praia do Meco) – 2013
    Em 15 de dezembro de 2013, durante uma praxe noturna, 7 jovens da comissão de praxe entraram no mar da praia do Meco. Infelizmente só um sobreviveu. Especula-se que uma onda os pegou desprevenidos.
  • Símbolo do nazismo em Braga – 2017
    Em fevereiro de 2017 um aluno foi obrigado a usar um braçadeira com a cruz suástica e tirar fotos. Foi realizada denúncias pela divulgação da fotografia nas redes sociais.

Esses são alguns dos muito casos que existem. A maioria, acaba sem punição, ou é arquivado. Quer conferir alguns? Clique aqui e aqui!

Se tiver alguma dúvida, crítica ou sugestão, deixe comentários. Responderei o mais breve possível.

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Daniele é baiana de Salvador e mora no Porto, Portugal, desde 2010. É dentista no Brasil (graduada pela EBMSP) e em Portugal (Mestre pela FMDUP), Especialista em Prótese Dentária (pela ABO-BA), sócia dos Consultórios Odontológicos Bacelar Menezes e diretora financeira da VRC Marina Ville Empreendimentos. Empreendedora, autodidata, proativa, adora desafios, aprender e ensinar. Amante da boa música como Bossa Nova, Marcela Mangabeira, Boyce Avenue, entre outros. Escreve poesias, gosta de desenhos animados e de dar boas gargalhadas. É uma pessoa otimista, que busca sempre o melhor em cada situação. Ama estar rodeada com família e amigos, adora organizar eventos e festas. Ajuda muitos brasileiros da área de saúde, principalmente medicina e odontologia, a conseguirem regularizar o diploma em Portugal. Mora no Porto com o marido e a filha.

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