Procurar emprego em Madri

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Todo recomeço tem suas dificuldades, principalmente quando falamos da mudança de país: começa com a adaptação de fuso horário e vai bem mais além: comidas, idioma, hábitos, maneira de ser das pessoas, enfim, uma infinidade de coisas que nunca pensávamos ser importantes, tornam-se nossas maiores preocupações. A dica de hoje é para procurar emprego em Madri, já que não foi fácil.

Posso afirmar categoricamente que o que mais tive dificuldade foi a busca de emprego; o recomeço profissional pode não ser tão fácil se você tem que começar do zero mesmo, como foi meu caso. Eu trabalhei a vida toda em Big4s na área de Consultoria Tributária para expatriados, ou seja, trabalhava com as leis brasileiras diariamente. Eu tinha plena consciência de que não poderia me recolocar no mercado de trabalho com um mesmo cargo ou fazendo o que eu fazia no Brasil, porque eu não tinha a menor experiência em leis espanholas, europeias, nem nada do gênero.

Por isso tudo eu resolvi me matricular em um MBA aqui em Madri, porque pensei que seria mais fácil contar com a ajuda da escola no momento de buscar um novo trabalho. Eis que então começaram as dificuldades:

1- O visto. Não adianta; aqui na Espanha se você não tiver um visto de estudante que te permita trabalhar meio período, você já começa numa enorme desvantagem (para não dizer que já está descartada do processo). Não estou entrando no mérito de trabalhos sem visto, porque sinceramente não busquei e nem conheci ninguém que tenha buscado ou de fato trabalhado assim, mas em termos de trabalho com um contrato, sem visto não tem conversa;

2- O idioma. Parece um pouco óbvio, mas os brasileiros às vezes têm um pouco de resistência em aprender o espanhol como fazem com o inglês, e acabamos falando o “Portunhol”, e confundindo as famosas palavras que parecem, mas não são (“embarazada”, que significa grávida, para dizerem que estão embaraçados, de envergonhados, por exemplo), e até dizendo coisas “feias” sem querer. Não quer dizer que se você chegar na Espanha falando o Portunhol não vão te entender, mas na busca por emprego é muito importante que você domine o idioma.

3- A concorrência. Aqui em Madri temos uma das maiores ofertas de vagas de trabalho da Espanha, e ainda assim eu senti bastante preconceito com o fato de ser estrangeira latino-americana. Não foi um preconceito explícito, obviamente, mas na minha classe do MBA, por exemplo, tinham vários sul-americanos (equatorianos, peruanos, brasileiros, etc.), um australiano e outros europeus. Não preciso dizer os que conseguiram estágio mais rapidamente, né? Cheguei então à conclusão de que qualquer detalhe no CV pode fazer a diferença, e foquei bastante nos meus diferenciais.

4- O pagamento. Aqui em Madri (e imagino que no resto da Espanha também) os salários não são altos, e as ajudas de custo dos estágios podem te chocar se você está com a expectativa lá em cima: uma média de 500 euros ao mês para um estágio de jornada completa, geralmente sem pagar nenhum complemento – nem transporte e nem alimentação. Os contratos temporários geralmente pagam um pouquinho mais, mas você não tem direito nem a licença médica paga.

Bom, essas foram as principais dificuldades que encontrei. Depois de me candidatar para mais de 300 vagas (sim, sem exagero: foram mais de 300 vagas, entre estágios e contratos temporários), eu finalmente consegui me recolocar no mercado de trabalho aqui,  focando numa coisa que eu jamais pensei que fosse me levar a algum lugar na Europa: o nosso amado idioma, o português.

Comecei a ver que depois da crise em Portugal, muitas empresas transferiram a administração das filiais portuguesas à Espanha, e então começou uma procura bem alta por profissionais que falassem português. Com base nesse dado tão surpreendente para mim, comecei a buscar empregos que precisassem do idioma, e a oferta é realmente grande.

Vou dividir com vocês, então, alguns sites e ferramentas que utilizei e que me ajudaram muito, e compartilhar alguns links que realmente funcionam na hora de buscar trabalho aqui:

1- InfoJobs – me cadastrei no InfoJobs e não só fui contatada por várias empresas, como consegui meu primeiro estágio através de uma vaga anunciada no site. Eles têm uma plataforma bem fácil de usar, e o app funciona super bem! Só recomendo que você preencha o perfil na internet mesmo, porque digitar o CV no celular dá um trabalhinho, mas no geral é bem efetivo!

2- Adecco – a Adecco eu já achei um pouco mais complicado porque eles são um pouco desorganizados, porém eu também consegui meu segundo trabalho com eles, e depois que você “pega o jeito” e entende o processo, fica mais fácil. A Adecco trabalha com contratos temporários, ou seja, contratos curtos de 3 ou 6 meses, renováveis de acordo com a vontade da empresa. Ponto a melhorar: o site é mais chatinho de mexer, às vezes te ligam para falar de alguma vaga e dizem que vão enviar o e-mail de confirmação e não mandam, e você tem que ficar um pouco em cima. Mas tirando isso tem muita oferta de vaga, e não senti nenhum preconceito por não ser espanhola em nenhuma das vagas para as quais apliquei.

3- LinkedIn – nunca pensei que o LinkedIn funcionasse realmente para encontrar emprego, mas descobri que estava bem enganada. Fiz várias entrevistas para vagas para as quais apliquei através do LinkedIn, e inclusive a vaga de contrato fixo, na empresa onde estou atualmente, consegui por essa plataforma. Para mim, o truque do LinkedIn são os filtros; eu comecei a realmente prestar atenção em todos aqueles filtros que eles disponibilizam, e criei alguns alertas específicos – dentre eles vagas que buscassem candidatos com português. E vou dizer: tem várias, para todos os setores, com todos os graus de instrução, enfim, opção não falta.

Sei que parece um pouco clichê que esses sites já conhecidos sejam as minhas dicas/sugestões, porém recomendo com conhecimento de causa. Eu realmente busquei em tudo quanto foi site, plataformas, enfim, e estes 3 me deram resultados.

Obviamente você também pode fazer uma lista das empresas nas quais você gostaria de trabalhar, entrar na página deles e ver as vagas. E aproveitando deixo o site da empresa onde eu trabalho, que está crescendo bastante e costuma ter oportunidades não só na Espanha, mas pela Europa de um modo geral.

Ufa, de momento é só.

Sei que às vezes, lendo assim, parece que eu estou criticando o sistema espanhol, mas não é isso; eu somente exponho as minhas dificuldades porque eu particularmente achei que a busca de emprego aqui com um bom currículo, inglês fluente e experiência em Big4s, seria bem mais fácil do que realmente foi. Eu literalmente comecei do zero. Mas não mudaria nada: todas as dificuldades te fazem crescer e nos ajudam a amadurecer e a ter mais amor próprio e confiar mais no nosso taco.

E vocês, como veem o recomeço da vida profissional no país onde vocês estão? E as brasileiras pela Espanha, em outras cidades? Como foi?

E sempre pra quem quiser qualquer dica mais específica, ou precisar de qualquer ajuda para se recolocar, é só dizer; ajudo no que for possível.

Un saludo y hasta la próxima!

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Denise é paulistana, ex-consultora tributária formada em Administração de Empresas pela Fecap, em São Paulo. Deixou sua carreira no Brasil em 2015 para vir à Espanha com seu marido, e aproveitou para fazer um MBA em Negócios Internacionais em Madri e dar um restart generalizado em sua vida. Completou recentemente dois anos de Espanha, e descobriu neste período que é apaixonada por viajar pelo país, conhecendo também seus lugares não-turísticos, e ama provar comidas típicas e conhecer os costumes das cidades por onde viaja. Com a qualidade de vida que essa mudança lhe permite, pode dedicar-se aos seus outros dois hobbies preferidos além de viajar e comer: cozinhar e receber livros para resenhar e publicar em seu blog pessoal, My Paper Trips.

2 Comentários

  1. Olá Denise, tudo bem? Adorei!!!! Estou a quase dois anos na Suica parte francesa para onde meu marido foi transferido. Eu era Gerente de Treinamento em um Multinacional no Brasil e pedi demissão para acompanha-lo. E uma batalha diária conseguir um emprego aqui. Primeiro que quase não existem posições abertas, quando existem além do inglês, pedem o Francês e muitas o alemão. Ainda assim, tem a forte concorrência com os cidadãos suíços e europeus em geral. Já me apliquei para diversas vagas, mas nada. Mas seguindo em frente e abrindo outras alternativas, voltei a dar aula de Biologia, como voluntária em um projeto do Consulado do Brasil, estou com um canal chamado Conexão Expatriados, e amigos que estão expatriados contam suas experiências para ajudar pessoas que queiram ou vão ser expatriados e sou estudante novamente. Estou fazendo MBA, estou fazendo o curso de certificação para o Inglês e estudando frances. Esperança e a ultima que morre, né? Parabéns pela matéria. Beijos Alessandra

    • Oi Alessandra!!! Que bom que gostou! É realmente um recomeço, e muita gente até subestima o esforço porque afinal de contas você vive na Europa (como se isso fosse sinônimo de felicidade instantânea, né?). Muito interessante este programa que você mencionou! Vou pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar! Beijos pra você e muito boa sorte na sua jornada!!! 🙂

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