Qatar – Negociando no mundo árabe

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Esses dias eu comprei um carro usado. Foi a negociação mais doida que eu já fiz na vida, procurei nos classificados na quinta-feira a noite, sexta-feira pela manhã, liguei para  o proprietário, marcamos de ver o carro a tarde e, depois de dirigi-lo por 10 minutos, sem pensar muito, apertamos a mão do simpático senhor qatari que o estava vendendo.

Apertou a mão, amigo? Já era. O negócio está fechado. Palavra vale muito e não pode voltar atrás. Depois de quase três anos morando aqui, essa foi a minha primeira grande negociação e foi tudo tão rápido e tão confuso que resolvi escrever um texto para que todo mundo entenda (e eu também, rs) como funciona a cabecinha dos árabes na hora de fazer negócio.

Existe um provérbio árabe que diz: “Se não se negocia de forma rentável, não se negociará durante muito tempo”, ou seja, um árabe vai sempre tentar ganhar o máximo que ele puder em uma negociação e espera que você faça o mesmo. Barganhar é normal e falar alto, ou desprestigiar o que se está comprando, também é. Não fique com vergonha, sempre negocie o preço!

Todas as vezes que vou ao Brasil, sempre passo no Souq Waquif (mercado popular daqui) e negocio o preço das pashiminas. Sempre consigo, pelo menos, 50% de desconto. Compro em quantidade e deixo as amigas brasileiras sorrindo à toa.

 

Negociante da loja de pashiminas e tecidos no Souq Waquif
Negociante da loja de pashiminas e tecidos no Souq Waquif. Fonte: arquivo pessoal

Quando você for se encontrar com um árabe para fazer negócio, espere que ele indique como será o cumprimento. É bem comum que homens se beijem no rosto, apertos de mão são bem vindos entre pessoas do mesmo sexo, mas em se tratando de pessoas do sexo oposto, espere.

Voltando a história do carro, o senhorzinho qatari que nos vendeu viu, primeiro, que eu estava com meu marido, falou com ele e, depois, estendeu a mão para mim, eu apertei. Recusar aperto de mão é quase um pecado por aqui. Os árabes gostam de criar intimidade e se sentirem amigos de quem estão negociando.

Se eles te fizerem um elogio retribua, só não elogie as mulheres de sua família, isso pode ser visto como uma ofensa. Sorria sempre e esteja disposto a esperar, o tempo aqui passa de forma diferente.

A compra do carro foi bem rápida, mas geralmente fechar negócio demanda paciência e disposição para ir a várias e várias reuniões. Os árabes simplesmente amam uma reunião, para eles não existe nada melhor do que falar pessoalmente, tomar um café ou fazer uma refeição juntos para negociar.

Em caso de eles dizerem a você que te darão a resposta “Inshala bucra” (se Deus quiser amanhã), pode ser que seja amanhã mesmo, ou pode ser que seja daqui a três dias ou semana que vem. Nunca saberemos ao certo, tudo na vontade de Deus e não adianta pressionar muito que a resposta não mudará.

Na época que eu estava esperando pelos meus documentos, não sei quantas vezes o mocinho responsável me disse que ia ficar pronto “bucra”, “bucra” (amanhã, amanhã) e o processo demorou, acreditem se quiserem, nove meses!

No mundo ocidental o contato por mensagens e e-mails tem sido o mais adotado por ser mais prático e rápido, além de deixar um registro de toda a conversa. Porém, no mundo árabe é uma afronta mandar um e-mail ou mensagem sem ter tentado telefonar para a pessoa primeiro.

Eu fui aprendendo isso aos poucos, eu mandava mensagem de whatsapp para as pessoas e elas, ao invés de me responderem por lá, me ligavam!

Árabes amam brasileiros. De verdade! Eles nos acham bonitos, interessantes, tudo de bom! E isso facilita as negociações. Eles sempre puxam assunto sobre esporte e cultura, perguntam da seleção e carnaval. Um dica que eu dou é não falar sobre religião ou política, porque esses são assuntos delicados.

Eu e meu marido ficamos achando que o senhorzinho qatari só nos vendeu o carro tão rápido, porque somos brasileiros.  Ele disse algumas vezes que queria vender para a gente, o telefone dele não parava de tocar com outras pessoas, perguntando pelo carro, e outras pessoas chegando lá para ver o carro e ele insistindo para fecharmos negócio. Bom pra gente!

Colocar as mãos no bolso ou sentar com  as pernas cruzadas e o pé virado para um árabe é considerado um insulto, portanto, se policie.

Preste bastante atenção no contrato que vai assinar, tenha certeza que leu, entendeu e concordou com todas as cláusulas; como a palavra vale muito, uma vez assinado o contrato é bem difícil de renegociá-lo. Renegociar um contrato é entendido como voltar atrás na sua palavra.

Uma vez estava no Souq Waquif, com uma amiga, e ela estava pegando uns cordões de prata com nome, em árabe, que tinha encomendado, tentou negociar o preço na hora de pagar. Nunca vi ninguém tão brabo! O moço da loja não só se negou a dar desconto como também brigou com ela, preço se negocia antes de fechar o acordo, não depois. Lição aprendida.

Agora que você é quase um especialista em negociações, mãos à obra e bons negócios! O mundo árabe está sempre de portas abertas para mentes empreendedoras.

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