Fonte: Pixabay.com
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Aquele que não falamos o nome: Racismo e Preconceito nos Estados Unidos.

Quando me mudei para os EUA, além da alegria pelo doutorado, minha preocupação foi como enfrentar o preconceito racial. Tive a preocupação de não aplicar para universidades em estados com histórico de racismo, com a Carolina do Sul, por exemplo. Esses lugares simplesmente não entraram na minha lista, mas claro que não foi o bastante para me livrar do racismo. Existe (muito) preconceito no Brasil também, mas aqui nos EUA o preconceito é notório a ponto de termos separação física. É comum vermos bairros negros (ou asiáticos ou latinos) onde a maioria dos moradores é negra ou de uma determinada etnia. Não é mera coincidência que estes também sejam os bairros mais pobres.

De um lado, existe o estereótipo racista como “negros não gostam de trabalhar”, “negros vivem de assistência do governo” ou ainda “não são inteligentes o suficiente para ir para faculdade”. Do outro lado, a comunidade negra briga para provar o contrário e muitas vezes bate com a cara na porta. Muitas portas são fechadas pelo preconceito. Os negros não são os únicos sofrendo com racismo. Indígenas (Native American) e Latinos também sofrem preconceito e precisam brigar por um lugar ao sol.

Então, o que acontece num relacionamento interracial? Para começo de conversa, casamentos inter-raciais já foram proibidos nos EUA. Isso mesmo, legalmente proibidos. Um exemplo disso é que o ano de 2017 marca 50 anos da batalha judicial Loving vs. Virginia onde Joel (branco) e Ruth (negra) Loving  receberam o direito de se casarem legalmente. Há apenas 50 anos! Hoje, casamentos interraciais representam apenas 17% dos casamentos americanos.

Eu e meu marido fazemos parte desta estatística. À primeira vista, somos um casal de Caucasian e African American (como o negro é chamado aqui). Sendo brasileira e vinda de uma família portuguesa, indígena e africana, tenho tradições, religião, jeito de falar e de vestir que são diferentes do negro americano. Então, em 3 minutos de conversa identificam que sou negra, mas não sou African American. E daí vem o “what are you? ” Que seria “qual a sua raça? ” Ou “qual a sua etnia? ”. E tenho que explicar minha árvore genealógica para o deleite e estranheza do ouvinte.

No dia-a-dia, o preconceito racial varia muito. Desde olhares tortos de pessoas vendo um cara ruivo com uma negra até lugares que a gente evita ir para não ter dor de cabeça. Somos alvo de comentários dos brancos (“o que esse cara está fazendo? ”), e dos negros (“esse cara está roubando uma das nossas”, ou “essa menina está enfraquecendo a raça”). O preconceito existe de todos os lados. Algumas pessoas fazem piadas para mim (“you like some cream on your coffee”  “você gosta de leite no seu café”)  ou para o meu marido (“once you go black you can never go back“depois que você experimenta preto não tem volta”). A verdade é que estas “piadas” têm o racismo embutido e não vejo nada de engraçado nisso.

O racismo é normatizado nos EUA. Apesar do meu preparo emocional para encará-lo no trabalho e na sociedade, me surpreendo com ele em lugares que considero seguros. E é aí que dói mais. É como se as pessoas se policiassem no começo para não falarem nada preconceituoso perto de mim. Mas com o tempo, as pessoas relaxam, “esquecem” que sou negra, e falam o que vem à cabeça, sem filtro. Outro dia, um amigo recomendou evitar trabalhar no bairro tal porque é cheio de pretos. Respondi que me sentiria em casa neste bairro. Acabei gerando um intenso mal-estar, porque insinuei que ele era racista. E não era? É possível ser racista mesmo tendo amigos de outras etnias? Infelizmente, tenho sentido mais racismo desde que o novo presidente começou seu mandato por aqui, mas isso é assunto para outro texto.

Apesar do aumento dos relacionamentos interraciais nos EUA, temos um longo caminho para reduzir o preconceito. Talvez minhas amigas brasileiras de pele clara também tenham que explicar de onde seu sotaque é. Talvez elas também pareçam “exóticas” por serem brasileiras, fruto dessa miscigenação que é tão nossa. Como brasileiras, convivemos com a adaptação cultural e o choque entre as tradições mundo afora. Porém, acredito que minhas amigas brasileiras de pele clara em relacionamento com americanos brancos não passem pelas mesmas situações que eu e meu marido passamos como biracial couple (casal inter-racial). 

O preconceito racial está impregnado na sociedade, mas é algo tão ruim, tão feio que muitas vezes evitamos falar sobre ele. Ou como meu marido dizia no começo do namoro: talvez se não falarmos dele, ele deixe de existir. Eu acredito que quanto maior o debate, maior a possibilidade de entender nossas diferenças e superá-las. Não é só por um olhar torto no restaurante, mas também por um tratamento duvidoso nos ambientes profissionais, igrejas e qualquer outro lugar. Isso não pode ser considerado normal!

Como eu e meu marido lidamos com isso? Com muita conversa, amor e paciência. No começo do namoro, meu marido se revoltava quando alguém era preconceituoso, mas ficar indignado não basta. Hoje em dia, pensamos e procuramos uma alternativa cada vez que o problema acontece. Abrimos o diálogo sobre “aquele que não falamos o nome” para nossa família e amigos. Nem sempre é uma conversa agradável, porque não é fácil admitir que todos nós temos preconceito. Manter o diálogo sobre o que nos afeta é a única forma de aprender a respeitar o outro. Só temos a crescer com isso, e assim contribuiremos para uma sociedade mais justa aqui e em qualquer lugar do mundo.

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Carleara é “carioca” de Miracema. Feminista, bailarina, pianista e cientista. Enfermeira com Bacharelado e Mestrado pela UFF aonde também atuou como professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Enfermagem entre 2007 e 2013. É doutoranda na State University of New York at Buffalo, aonde estuda Cronobiologia e Biotecnologia aplicada para tratamento de efeitos adversos do câncer de pulmão em adultos e idosos. É fundadora e CEO da BRASCON – Brazilian Students and Scholars Conference cuja missão é oferecer networking e desenvolvimento profissional para cientistas brasileiros no exterior. Contato: [email protected]

4 Comentários

  1. Ontem eu assisti ao filme Mudbound no netflix, que trata exatamente da segregação que existia nos Estados Unidos em meados da Segunda Guerra. Chorei copiosamente. Força!

  2. Lendo o seu texto me veio à cabeça a sensação que tenho toda vez que conheço alguém ou converso com a cabeleireira ou lojista rapidamente aqui (moro na Florida, casei a pouco tempo com um americano depois de 2 anos de relacionamento) e notam meu sotaque, perguntam de onde sou, como vim parar aqui… e quando falo que sou casada com um local recebo aquele “oh ok…” chatinho, rançoso de “so mais uma latina desqualificada que arrumou casamento pelo green card”. Acho engraçado como eles se acham o objetivo dourado de todo ser humano na terra como se não existisse nenhum outro lugar bom… go figure :/

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