Relacionamentos virtuais e seus riscos reais: Parte 2

Dicas para ficar atenta se tiver em um relacionamento online

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Foto: Flickr
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Relacionamentos virtuais e seus riscos reais

COMO FOI ACONTECER COMIGO? (a dor de uma amiga vítima de scammers). Leia a Parte 1 do texto, aqui.

“Querida Fabi,

Depois de ficar sozinha por 1 ano e 7 meses, já divorciada, me rendi aos apelos dos amigos para que eu entrasse num site de relacionamentos. Entrei no ZOOSK que é um site de relacionamento ligado ao Facebook, um site internacional e pago. Fui encontrada por um sujeito que se dizia passar por Frank Brown. Cometi um dos maiores erros de minha vida, pois comecei comecei a conversar com ele através do meu e-mail particular, pois ele queria me contar sua vida através de cartas. Ele dizia ser italiano naturalizado em Londres, trabalhava para AGIP como engenheiro marinho e iria para uma plataforma de petróleo em breve.

Sei que parece absurdo uma pessoa esclarecida como eu ter caído desse jeito num conto do vigário, mas realmente o cara tinha as manhas. Era polido, educado, jamais faltou com respeito, era muito religioso e me tratava como uma verdadeira rainha. Ele queria um relacionamento sério para casar, pois dizia que embora aos 46 anos já tivesse tido muitos relacionamentos, nunca havia se casado e queria uma esposa.

No início resisti a tudo. Você sabe, sou bem pé atrás com as coisas, mas acho que o ano tinha sido tão duro para mim, que pensei: porque não me dar uma oportunidade? Depois de algumas semanas de trocas de e-mails diários, ele disse que ira para Wales e estava muito preocupado pois o tempo era ruim, nevava muito em Londres e a viagem era longa, sendo ele o responsável por toda a equipe, incluindo pessoas dos EUA. Ele não me respondia todas as minhas mil perguntas, pois estava sempre ocupado com as coisas da tal viagem, relatórios, etc. Então comecei a procurar por seu nome em vários lugares: Skype, Facebook, CNPQ – Currículo Lattes e não achava nada, ou melhor achava outros Frank Brown, mas não ele.

Foi aí que me enviou uma das cartas falando que embarcaria na outra semana e que queria me enviar seu coração, pois ficaria 2 meses fora. Pensei em flores, coração de pelúcia, coisas assim e dei meu endereço a ele. Então o pesadelo começou. Os e-mails já não eram iguais. Parecia que eram vários Franks me respondendo e de fato, depois me dei conta de tratar-se de uma quadrilha. Às vezes repetia coisas e outras demonstrava não saber o que havia no conteúdo do e-mail anterior. Quando então ele me falou o que estava no pacote que enviou antes de seu embarque, eu pirei! Logo pensei: é um psicopata, pois supostamente me enviava um laptop, iPhone, colar e um anel de diamante para nosso noivado, pois dizia que em seu retorno viria conhecer minha família e oficializar o noivado.

Sei que parece o fim eu ter caído nessa, mas me apaixonei pelo personagem. Ele me enviou fotos dele, pediu que andasse com elas comigo e pedia muito por minhas preces para que retornasse são e salvo. 

Frank me enviou a foto do pacote e o documento escaneado do embarque do pacote para que eu pudesse retirá-lo. Ainda disse ter colocado dinheiro junto de flores, em envelope marrom, pois não queria que eu passasse nenhuma necessidade enquanto estivesse fora.

Mandei um e-mail dizendo que aquilo deveria ser uma brincadeira dele , que aquilo não podia ser real, mas foi quando ele enviou os comprovantes e pediu desculpas pelo scanner não estar bom, que eu me dei conta de que os dados estavam realmente preenchidos. Depois de alguns dias dessa piração entrou em contato comigo um sujeito que se dizia do courier por onde ele enviou o tal pacote que pesava 8 Kg, Mr. Abdul Kaafi, que estava na Malásia.

Confirmei os telefones enviados tanto pelo Frank quanto pelo Mr. Abdul e este começou a falar comigo pelo cel e por e-mail, negociando que eu enviasse 1.200 dólares para liberar o pacote que havia ficado preso por acharem dinheiro dentro. Questionei porque o pacote tinha ido parar na Malásia, já que moro no Brasil e aleguei não ter o dinheiro. Sugeri que ele resolvesse através da empresa ou de algum amigo de Londres. Ele respondeu mal ao e-mail dizendo que já me considerava sua esposa e que eu não estava correspondendo às suas expectativas.

Fiz um empréstimo no banco do Brasil, mas minha gerente desconfiou da história e  resolveu investigar o comprovante com detalhes. Descobrimos que o código de barras não existia e o track number não era rastreável. Achei o site da empresa que supostamente tinha sede no Reino Unido, EUA e Malásia, mas depois de algum tempo o site já não estava mais disponível. Foi quando o tal Abdul começou a me massacrar psicologicamente dizendo que ia acionar o FBI. 

As gerentes do meu banco foram maravilhosas e me aconselharam a não enviar o dinheiro.

Pesquisando na internet, encontrei um site com depoimentos de mulheres do mundo todo que foram enganadas como eu.  Por medo continuei mantendo contato com eles, me fazendo de coitada e alegando que o banco não estava liberando a verba. Enfim, é uma quadrilha que ataca por todos os lados e apesar de todos os meus questionamentos e pulgas atrás da orelha eles são profissionais.

Vocês devem estar se perguntando como caí nessa. Simples. Eles escolhem a vítima a dedo, percebem como escreve o que escreve, como age. Quem não quer viver um conto de fadas?”

Para quem já passou por algum susto dessa natureza, o site Safernet tem um trabalho de assistência psicológica para vítimas de crimes virtuais.

PODIA SER PIOR

Certamente o relato de minha amiga entristeceu seu coração, mas ela poderia ter caído em um golpe ainda pior: o do tráfico de pessoas.

É difícil mapear a infinidade de delitos cometidos através da internet contra mulheres. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) as mulheres somam 70% do total de vítimas de tráfico de pessoas no mundo – no Brasil, esse número chega a 80%. A maioria delas possui entre 10 e 29 anos, estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica, frequentemente com baixa escolaridade e quase sempre solteiras ou separadas. Não há números definitivos. Como quase sempre esse tipo de crime envolve vergonha e medo a maioria das vítimas não procura a polícia. O Brasil tem uma atitude considerada exemplar no combate ao tráfico de pessoas. São diversas ações que incluem repressão e prevenção. Aliás, EUA, Brasil e Argentina, nessa ordem, são os países que mais contribuem com a base de dados da ONU para o combate a esse tipo de crime.

O tráfico de pessoas acontece em todo o planeta. É o terceiro tipo de crime mais rentável do mundo, só perdendo para o tráfico de drogas e de armas, movimentando cerca de U$ 32 bilhões, majoritariamente através da exploração sexual e também através do trabalho escravo. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) o trabalho escravo deve movimentar cerca de US$ 150 bilhões. Cerca de 35% das vítimas para esse tipo de tráfico são mulheres que costumam ser alocadas em indústrias, produção têxtil e trabalho doméstico, além do tráfico de órgãos.

Estima-se que haja hoje cerca de 3 milhões de vítimas ao redor do mundo. No entanto, apesar de todo esse impacto global, o índice de condenação para os criminosos envolvidos ainda é muito baixo. De acordo com o relatório global sobre o tráfico de pessoas só 40 % dois países chega a registrar algumas poucas ou nenhuma condenação. Entre os condenados, observa-se que 72% deles são do sexo masculino. Esse mesmo relatório aponta que entre os anos de 2007 e 2010, entre os países analisados, apenas 23% registraram entre uma e 10 condenações por crimes de tráfico e 16% destes não registraram uma condenação sequer. Mesmo com todo o esforço empenhado pelos governos e pelas Nações Unidas, a justiça nesse tipo de crime ainda é irrisória diante da necessidade e vulnerabilidade de todos nós frente ao problema.

Nos países da América Latina os traficados perfazem 9% do total de vítimas do planeta. Só no Brasil, foram identificadas mais de 200 rotas de tráfico humano, sendo 131 rotas internacionais, 78 interestaduais e 32 intermunicipais. Goiás é o estado campeão de tráfico de pessoas no Brasil, apresentando quase 20% dos casos registrados no país nos últimos dez anos, seguido por São Paulo com cerca de 12%, Rio de Janeiro e Minas Gerais com 7% e 6% respectivamente e Pernambuco com quase 5%.

Para especialistas do site Safernet boa parte desse tipo de trafico se dá através de iscas nas redes sociais. Leia mais aqui . Segundo dados do site, a Internet tem mais de mil sites de aliciamento, além de links infiltrados em redes sociais como o Facebook, que funcionam como ferramentas de incremento ao tráfico de mulheres. São verdadeiras “vitrines” para seleção de possíveis vítimas. Como já comentei, muitas começam a namorar à distância sem cuidados mínimos de segurança.

O Brasil é citado em um dos relatórios globais por um caso onde o aliciamento deu-se através de falsa relação amorosa entre um suposto homem apaixonado (na verdade um traficante) e a vítima, que foi incluída em um esquema de exploração de mulheres na Europa.  A jovem teve seu passaporte retirado e foi forçada a se prostituir para o criminoso, que posteriormente foi pego e condenado a cinco anos de prisão no seu país de origem. Cinco anos?E a gente ainda reclama que aqui no Brasil os caras ficam pouco tempo na cadeia!

Visite a Base de Dados de Casos Jurídicos sobre Tráfico de Pessoas do UNODC clicando aqui. Para aqueles que desejam contribuir com novos casos, favor entrar em contato com [email protected]; para acessar a database específica do Brasil,  clique aqui. Você observará que embora a maioria dos casos sejam de mulheres que tenham se encantado com a proposta de uma vida glamourosa como modelos, atrizes ou prostitutas de luxo, há casos remotos de pessoas que foram enganadas até por agência de turismo que apresentavam propostas de intercâmbio cultural para aperfeiçoamento do ensino de idiomas.

Documentos sobre o  assunto:

Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas

Relatório Nacional sobre Consolidação dos Dados Sobre Tráfico de Pessoas

Tráfico de Pessoas e Contrabando de Imigrantes – UNODC

Peça ajuda:

Mulheres em Viagem ao Exterior

Site Brasileiros Pelo Mundo

Organizações e Serviços de Assistência

Emergências no Exterior

FONTES

Nações Unidas Brasil

Ministério da Justiça

Andi Comunicações e Direito

Compromisso e Atitude

Rádio ONU

Safernet Brasil

UNODC Brasil

Coração Azul – Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas

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Conheça a página de Psicólogas Pelo Mundo, do BPM!

7 Comentários

  1. Nem acreditei quando li esse caso.. Pq a quase sete anos atras essa historia aconteceu comigo.. Um cara q se dizia america, viuvo, pai de uma libda garotinha loira de olhos verdes, e ele muito alto, loiro e lindo( me mandava muitas fotos rsrs q na epoca eu acreditava ser ele sim) queria casar e uma mae p filha dele, era engenheiro e em breve ia p uma plataforma no canada onde ficaria incomunicavel varios meses .. Mais antes disso me pediu em casamento, e claro meu endereço, pra mandar o anel de noivado, aphone, tablet, roupas e claro um dinheiro p me ajudar ate o dia da chegada dele que iria vim direto do canada.. Eu muito feliz porem sempre fui pe no chao,vieram em seguida o comprovate do pacote, e eu conecei a esperar, ate o dia da ligaçao da siposta empresa onde a hostoria era a mesma : eu teria que pagar p o pacote ser liberado, eu falei que nao tinha, e eles iam diminuindo o valor rss nem cogitei a possibilidade de pagar em nem um monento.. Ele desistiu e acabou o amor rsrs

  2. Para min foi a mesma história, seria um anel e dinheiro no pacote, e claro p pegar tinha que pagar,aí falei p o tal apaixonado se me manda dinheiro pq n enviou pago já?então ele deixou de me amar kkkkk.
    O outro era um lindo homen viúvo c uma filha, aliás 2 foi p africa trabalhar aí uma filha ficou doente e n conseguia usar seu cartão lá (alô alguém acredita?) pediu dinheiro p pagar os remédios, falei que n tinha, aí ele falou que por minha culpa tinha perdido sua filha, uii fiquei uns dias atormentada e bloqueei ele, esses skramners são muito espertos.

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