Romênia – Adaptação e primavera

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Primeiros dias da primavera e a tradição romena de presentear com flores - Foto: arquivo pessoal
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Há doze meses, desembarcava em Bucareste. Muito embora tenha chegado desconfiada, trazendo quilos de incerteza embalados na bagagem, mal me instalei e já havia sido desarmada por minha anfitriã. É que fui recebida pelas mãos frescas de uma primavera florida, exalando o perfume das novidades.

Sem dúvida, a amabilidade dessa primavera foi a razão de ter me deixado seduzir pelas promessas fáceis de limonadas em pátios com sol, sem perceber que estava sendo arrastada rumo ao calor causticante de um verão de 40 graus, para, ao final, relaxar no mistério elegante dos poucos meses de um outono melancólico, até terminar trancafiada na solidão de um longo e tenebroso inverno.

Em minha quinta mudança, todas as apostas, inclusive a minha, eram de que tiraria de letra. Faria amigos e me integraria, com facilidade, ao modo da África do Sul. Aprenderia a língua e me adaptaria a regras e horários, como o fiz na Suíça. Criaria uma rotina pessoal impecável e começaria, do zero, um novo trabalho, como aconteceu nos Estados Unidos. Ocorre que, um ano depois, nada disso se deu.

Sinto informar, mas, perdeu a aposta. Favor voltar quatro casas. E começar tudo outra vez. Ou melhor, recomeçar.

Adaptações têm sempre alguma coisa de doloroso. A gente sai de um molde e se enfia em outro, podendo haver desconforto na acomodação. E são processos extremamente pessoais. Experiências que não se emprestam, nem se passam adiante, porque o que vale para um não se aplica, necessariamente, ao outro.

Poderia escrever aqui as cinco dicas de como se adaptar a qualquer país do mundo. Olha só, em tempos de receitas prontas para o sucesso e a felicidade, listadas, de preferência, em “bullet points”, lá vão elas: aprenda a língua; pratique esportes com locais; frequente os pequenos negócios do bairro; convide os vizinhos; aprenda sobre a cultura do lugar. Poderia, mas não sou desonesta para fazê-lo. Não há garantia de que vão funcionar. Não existe mágica.

Porque acostumar-se aos costumes dos outros torna-se um exercício diário de respeito e tolerância, mesmo quando as regras do lugar contrariem alguns valores seus, afinal, é  você quem está pedindo licença e se inserindo naquele mundo e não aquele mundo que vai mudar e se moldar a você. Sendo assim, a gente se acomoda da melhor maneira possível, tendo o cuidado para não nos desrespeitarmos ou permitir que nos desrespeitem, porque, se chega a esse ponto, é melhor levantar acampamento e buscar outras paragens. Essa, a meu ver, deveria ser a regra de ouro de todo imigrante, expatriado, ou qualquer pessoa inseria em contextos culturais outros que não o dela. Sabe quando a sua mãe explicava como você deveria se comportar na casa dos outros? Pois é, a mesma coisa!

Sendo assim, por razões pessoais e outras mais mundanas, a Romênia ainda não aconteceu em sua plenitude. Aprender sobre ela e conhecer sua gente, é um prazer. Mas, bem sei, teria eu o mesmo prazer e curiosidade em qualquer outro lugar. O que não nega, nem reduz, os encantos e a luz própria desse belo país do leste, cujos segredos e peculiaridades vou descobrindo e compartilhando, com a gratidão dos que muito recebem, em espaços como o Brasileiras pelo Mundo.

Agora, se ainda não aconteceu, não posso esquecer de que, todo dia, a Romênia me dá uma nova chance, especialmente quando devolvo essa chance a ela. Estou falando da oportunidade de fazer melhor. De ser inteligente e agir com base no que já entendi sobre costumes, pessoas, modos, hábitos. De escolher meus caminhos e companhias do jeito que me faz sentido, inserida nesse mundo estrangeiro, aos poucos assimilado.

Martisor: costume romeno durante a primavera – Foto: arquivo pessoal

Só não posso negar que, de fato, perdi a aposta e voltei as quatro casas; ou seriam estações? E cá estou, em mais uma primavera, dando-me a chance de aceitar o convite: vamos tentar outra vez? Por isso, recebo novamente as flores e levo, amarrada em meu pulso esquerdo, uma nova descoberta. Trata-se um cordãozinho de linhas vermelha e branca, com um pequeno pingente no meio. Chama-se Martisor e no meu braço foi atachado no primeiro dia de março.

Tem quem o carregue por nove dias, tem quem o porte somente durante o mês de março e também quem o guarde por toda a primavera. Escolhi a terceira opção. O Martisor é um talismã, usado desde tempos imemoriais, para celebrar a nova estação. É símbolo de vida, de renovação e de esperanças. Símbolo de recomeços. Recomeçarei!

2 Comentários

  1. Cristina,

    Bateu uma melancolia meio gostosa, meio tristonha, meio nostalgia lendo o teu texto. Ele transpareceu sinceridade, principalmente ao descrever essa relação difícil que todo mundo tem com adaptação, morar fora. Difícil, complexa, construtiva, complicada.

    Acho que as listas tem a utilidade (levantar a bunda da cadeira sempre é o primeiro passo de qualquer coisa), mas essa falta de garantia de que vai funcionar é tao real.

    Eu moro em Paris ha 5 anos e brinco que a primavera é quando a armadilha do “morar fora” se abre e você voluntariamente vai ficando, aproveitando os canais, os bares, os parques, andar de bicicleta para o trabalho de manha com uma brisa gostosa até… que o inverno chega e mais 6 meses de escuridão, falta de sorrisos, desconforto com o frio sao impostos.

    Mas ao mesmo tempo a primavera é a prova de que tudo na vida passa, melhora. Ou que as estações do ano são o que são e eu vejo os meus amigos franceses me ensinando a ser mais tolerante e positivo e ver que tem coisas boas para fazer no inverno e coisas boas para fazer no verão. Franceses ensinando um brasileiro a ser positivo e mais “go with the flow”… Ironias do destino. 🙂

    Acho que no final das contas a primavera europeia nos obriga, brasileiros tropicais da terra do sol e verão eternos, que cada coisa deve ser intensamente aproveitada. Que o sol do final da tarde justifica sim a bicicleta e vinho no café da esquina. Porque aqui a gente sabe que não tem garantia que amanha vai ter novo. 🙂

    Reflexoes de um final de tarde de trabalho. 🙂

    Abraços e boa sorte ai na Romênia!

    Fer.

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