Romênia – Natal

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Coral de Natal em Maramures - Foto gentilmente decdida Romania Journal
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Hoje, conto sobre o ainda não visto: o Natal na Romênia. Mas conto sem acrescentar pontos, com a curiosidade de quem o pressente belo e foi atrás de saber mais, pesquisando uma coisa aqui e outra lá e, sobretudo, ouvindo da boca de quem já o viu e viveu. No caso, uma romena amiga, que  muito me ensina sobre este país bonito onde nasceu.

Preparado para ouvir a história?

Aproxime-se porque ela foi desvendada para você. Pegue um café e chegue mais, mas chegue mesmo, desse jeitinho gostoso que a gente fala numa outra terra bonita, a do Recife; chegue que eu revelo o que ela me narrou!

Nessa narrativa de inverno, tem encenações natalinas e presentes; tem também mau assombro e adivinhações; tem fé, tem encanto, tem conto e tem canto.

E a história começa com o calendário. Porque, na Romênia, de maioria Cristã Ortodoxa, utiliza-se, para assuntos religiosos, o calendário Juliano, enquanto no mundo Católico, o Gregoriano. Seguir um ou seguir outro gera um certo desencontro nas comemorações das datas sagradas para ambas as Igrejas, como a Páscoa, celebrada em dias diferentes por Católicos e Ortodoxos. Ocorre que, para o Natal, a Igreja Ortodoxa Romena optou por celebrá-lo na época do Gregoriano, no caso, do 24 para o 25 de dezembro. Se assim não fosse, o Natal, por aqui, seria comemorado no dia 7 de janeiro, como o é por outras Igrejas Ortodoxas.

Confirmada a data, a celebração é inaugurada, pelos muito religiosos, com um jejum iniciado 7 semanas antes do Natal, quando evitam comer alimentos de origem animal. Agora, como Natal não pode começar sem festa, as comemorações da temporada se iniciam mesmo no dia 30 de novembro, feriado nacional, por celebrar Santo André (Sfantul Andrei), patrono da Romênia.

Santo André é santo querido dos romenos e demais povos do leste europeu, por ser considerado o fundador da tradição cristã nesse lado do mundo. Até aí, tudo bem, o que eu não sabia era que a véspera do seu dia, o 29 de novembro, fosse, praticamente, um Halloween!

Sim, a lenda dos vampiros não veio do nada, mas, não darei “spoiler” justamente agora, quando, como prometido no texto sobre a visita ao Castelo de Drácula, estou trabalhando num artigo onde conto o que descobri a respeito do Conde. Portanto e por ora, vamos deixar assim para não estragar a surpresa: existem antigas lendas sobre assombrações vampirescas na Romênia; Santo André é considerado o doador do alho à humanidade; existem lendas, ainda mais antigas, que dizem ser o alho poderoso para afastar maus espíritos e tem quem acredite que, em razão disso tudo, as assombrações gostem de aparecer, justamente, na véspera de Santo André.

E é aqui que a história começa a ficar pitoresca, especialmente para quem nunca pôs os olhos em nada disso, ou em quase nada, porque tem um outro pedaço “magia branca” muito parecido com umas “simpatias” propagadas durante nossas Festas Juninas.

Mas, voltando ao pitoresco, o inusitado fica por conta da gente antiga e/ou crente em assombrações, que se protege dos maus agouros pendurando cachos de alhos em portas e janelas, costume, este, cada vez mais raro, mas ainda presente, sobretudo em vilarejos.

Só que tem mais! Na véspera de Santo André, lobos falam com vozes humanas, fantasmas dançam em casas abandonadas e, como nas vésperas de Santo Antônio e São João, do nosso lado do mundo, moças solteiras podem fazer adivinhações para descobrir o nome do futuro marido, ou ver o seu rosto refletido na água.

Passado Santo André e adentrado o mês de dezembro, luzes de Natal iluminam as cidades, comemorando-se, entre os dia 5 e 6, São Nicolau (Mos Nicolae). Na véspera de São Nicolau, as crianças limpam suas botinhas deixando-as a espera dos presentes oferecidos pelo Santo, como sempre, aos bem comportados. Quem limpou a bota e se comportou, ganha doces e chocolates; quem não, um galho de árvore por ter feito malcriação. Sim, desse lado do mundo, as crianças ganham presentes antes do Natal. Parece que alguns adultos também. Vou limpar as minhas botas, a gente nunca sabe, não é mesmo!?

Outra coisa, quando neva na noite do dia 5, diz-se que São Nicolau balançou as barbas, lá do céu,  iniciando, assim, o inverno. Mágico!

E chega o grande o dia, a véspera de Natal. Nas vilas em torno da Transfagarasan ou ao extremo norte do país, em cidades como Maramures e Bucovina, antigos costumes ainda são mantidos, com crianças vestidas em trajes tradicionais se reunindo em corais e encenações da Natividade. Elas cantam pelas ruas, batendo de porta em porta e anunciando a boa nova do Natal. Em troca, recebem doces e pretzels.

Coral de Natal em Maramures – Foto gentilmente cedida pelo Romania Journal

À meia-noite do dia 25 de dezembro, famílias se reúnem em volta da mesa farta, alguns dando fim ao jejum iniciado há 7 semanas, onde saboreiam pratos da culinária local, como Ciorba de Perisoare (sopa de vegetais e carne de porco) e Sarmale (folhas de repolho enroladas como charutinhos de carne), além de Cozonac (pão doce recheado com nozes e frutas secas) e os populares Cheesecakes. Enquanto adultos se saciam com o banquete, as crianças dormem a espera da manhã de Natal, quando Papai Noel (Mos Craciun) terá passado para deixar os principais presentes da temporada.

Entre tradições bíblicas e antigas lendas pagãs, romenos festejam o Natal com o gosto bom que essa época traz: a esperança soprada em nossos pequenos, seja a da fé ou a dos sonhos, já que, desde a milenar história do Rei Menino, são elas, crianças, as rainhas da festa, e a gente pede licença para se juntar a elas, sonhando e esperando também.

Feliz Natal, ou Craciun Fericit!

Tallenna

Tallenna

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