Rússia – Machismo e homofobia na sociedade russa

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Foto: Divulgação VK
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Para quem é do Brasil, as palavras “machismo”, “homofobia” e “intolerância” não são desconhecidas nem raras no vocabulário. Infelizmente, violência contra grupos LGBT e contra mulheres são práticas comuns tanto lá como cá. Mas antes de me aprofundar mais nesse tema, permitam-me deixar bem claro que, como em qualquer outra parte do mundo, aqui na Rússia as coisas não podem ser generalizadas.

Conheço vários russos, inclusive homens e mais velhos, que são totalmente contra qualquer tipo de violência e discriminação; quanto mais experiências no exterior o russo tiver, mais mente aberta ele será. No entanto, a maior parte da população – principalmente aqueles que moram fora de Moscou e São Petersburgo, nas pequenas vilas da Sibéria e, portanto, mais isolados de informações e do resto do mundo – tendem a ter visões mais drásticas sobre o assunto.

O que me assusta é que, no Brasil, ao menos na teoria, os governantes tentam criminalizar os atos de violência acima mencionados. Todos conhecemos a Leia Maria da Penha, todos sabemos que os gays podem se casar legalmente e todos torcemos para que o movimento liberal fique cada vez mais forte no país do carnaval.

Já na Rússia, a realidade é bem diferente. Seja por parte da sociedade ou do próprio governo, o que se vê é uma tendência cada vez mais forte à aceitação da violência doméstica e da perseguição a gays e lésbicas. A sensação de morar aqui é ver que, enquanto a maior parte do mundo está caminhando rumo à igualdade de gêneros e à tolerância (mesmo que a passos lentos), aqui as coisas parecem retroceder e nos fazem sentir vivendo no ano 1920.

Gráfico baseado em dados da ONG ‘LGBT Network’, na Rússia, mostra que o número de casos de violência contra a comunidade LGBT aumentou depois da aprovação da Lei “Anti-gay”, em 2013.

Recentemente, no dia 27 de janeiro de 2017, políticos russos -incluindo mulheres – votaram para aprovar o projeto de lei que descriminaliza atos de violência física cometidos pelo marido contra sua esposa. Basicamente, a lei diz que uma primeira ofensa de violência familiar que não cause danos graves que exijam tratamento hospitalar não serão mais crimes, serão apenas ofensas administrativas. Somente a violência que leva a lesões graves como ossos quebrados ou uma concussão permaneceria criminalizada.

No início de fevereiro, a lei foi sancionada pelo presidente Putin e já vale para casos de violência contra qualquer membro da família, incluindo mulheres e crianças. Se for considerado culpado, os agressores terão que pagar uma multa mínima e podem pegar até 15 dias de prisão administrativa ou serviço comunitário obrigatório.

Uma das duas políticas mulheres que votaram a favor da lei chegou a dizer que as mulheres “não se ofendem quando veem um homem bater na esposa” e que “um homem que bate na esposa é menos ofensivo do que quando uma mulher humilha um homem”.  O absurdo é tamanho que as próprias argumentam que esta lei vai ajudar a proteger as famílias russas, tornando-as mais fortes.

Não é raro ler ou ouvir comentários de russos na mídia em apoio à violência doméstica. Por mais inacreditável que possa parecer, existe um provérbio russo bem antigo que diz “бьет – значит любит” (Bater significa amar). Sim, pasmem! Repetindo: não quer dizer que todos os homens saem por aí pregando isso, e, na verdade, eu nunca ouvi isso diretamente da boca de um homem que estivesse conversando comigo, mas já ouvi relatos de muitos casos onde isso foi citado, principalmente nas minhas entrevistas jornalísticas.

Ainda sobre violência doméstica, um caso muito famoso na mídia russa foi o da jornalista russa Anna, que foi agredida pelo noivo e, mesmo denunciando o caso na polícia e na mídia, não conseguiu a punição do agressor. Você pode ler mais detalhes sobre essa história aqui (em russo, mas vale super a pena a tradução no Google Tradutor).

Abordando o machismo por uma visão mais geral, posso dizer que nunca fui tratada mal por qualquer homem na Rússia. Ao contrário, eles sempre são muito galanteadores. Mas a verdade é que nunca me envolvi com nenhum deles, então não sei como seria um relacionamento. No entanto, passei por situações no mínimo engraçadas e ridículas, como quando um homem se achou no direito de insistir um contato comigo, mesmo eu dizendo que não queria papo, porque eu estava de cabelo solto. Ou quando um carinha me abordou em um bar para conversar, mas pediu que eu ficasse calada, porque eu era melhor assim, já que ele só queria me olhar. Pffff!

Muitos são os que sofrem com a disseminação do ódio e do medo contra a comunidade LGBT, estimulada pelas políticas preconceituosas do governo russo. Acredito que muitos de vocês já conhecem a lei russa que proíbe a propaganda de casais não tradicionais em frente a menores de idade. Conhecida como “anti-gay”, a lei foi assinada pelo presidente Vladimir Putin em 2013.

De acordo com a Organização Não Governamental ‘LGBT Network’ e especialistas no assunto, a Rússia registrou aumento nos casos de violência depois da aprovação da lei. O país testemunhou o crescimento nos ataques promovidos por grupos e indivíduos contra a comunidade e ativistas LGBT nos últimos dois anos. Grupos homofóbicos usam a lei como justificativa para assediar e intimidar professores e para recorrer à violência física nas situações mais comuns, especialmente em protestos públicos.

No relatório “License to Harm” (Licença para Ferir, em tradução livre), divulgado em 2014 pela Human Rights Watch, sobre violência contra a comunidade LGBT na Rússia, foi detalhada a dimensão do problema através de dezenas de entrevistas com pessoas e ativistas LGBT em 16 cidades espalhadas pelo país. A maioria dos entrevistados que disseram ter sido vítimas de violência física ou psicológica, alegaram que os problemas se intensificaram depois de 2013.

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Priscilla é jornalista, brasiliense de sangue e potiguar de coração. Apaixonada por escrever e viajar, saiu do Brasil pela primeira vez aos 19 anos e, desde então, nunca mais parou. Depois de morar em seis países e estudar cinco línguas, partiu para a Rússia para cursar um mestrado em Jornalismo Internacional. O bom e velho vinho a ajuda a fugir do assombroso inverno russo. Baseada entre a Rússia e a Alemanha, Priscilla faz entrevistas, escreve reportagens e tenta compartilhar experiências com o mundo.

4 Comentários

  1. Com todas essas leis absurdas e anacrônicas, a Rússia é o sinônimo do machão parado no tempo (obrigado Arnaldo Jabor). Tá certo que nem todos os russos têm a mesma visão preconceituosa, mas em permanecendo nessa linha de raciocínio, a nação do Kremlin vai continuar no século passado, até porque tudo isso é fruto da Guerra Fria, que separou o ocidente do oriente, a explicação mais possível para o não acompanhamento da evolução do ocidente. Pelo jeito, o público que vai viajar para a Rússia para ver de perto a Copa do Mundo vai ter dificuldades e um choque cultural tamanho, e o presidente Putin põe panos quentes, dizendo que todos serão bem-vindos, como teria dito durante as Olimpíadas Invernais (ou seriam Infernais?) de Sochi. Sei não… Rússia não me inspira segurança

    • Oi, João Paulo. Obrigada pelo comentário. Concordo com o que disse sobre o “atraso” da Rússia nessas questões sociais, realmente quando se mora lá fica bem visível como eles pararam no tempo. Mas temos que ter cuidado ao classificar o Ocidente como “muito a frente”, pois nós mesmos somos de um país muito (MUITO) machista e absurdamente homofóbico também. Claro que há muitas diferenças, principalmente pelo fato de que, no Brasil, o que vemos é o crescimento da importância de movimentos sociais tentando melhorar essa situação, vemos o Governo criando leis para proteger mulheres e as outras minorias, enquanto na Rússia, parece que eles estão regredindo e andando pra trás. No entanto, como Ocidente e como Brasil, ainda estamos bem ruinzinhos nesse aspecto, né? Mas um dia a gente chega lá. Eu acredito! 🙂 Beijos.

  2. Estou escrevendo um ensaio sobre o livro “Felicidade Conjugal” do Lev Tolstói, que foi lançado em 1859 e essa matéria me ajudou a incrementar o tema machismo, que escolhi tratar.

    Parabés <3

  3. Caramba, chocada com essas leis retrógradas! Obrigada por trazer o tema para discussão. Nunca é fácil achar textos em português/inglês sobre o dia a dia de países no oriente que não tenham uma imprensa livre e uma cultura forte de globalização. Seu texto é valioso! Bjs

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