Seattle, uma cidade diferente do padrão americano

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Fonte: arquivo pessoal
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Sabe todos aqueles padrões americanos sobre os quais você sempre ouviu falar? Muito fast food, problemas de obesidade, uso excessivo de carro e consumismo desenfreado? Pode desconstruir tudinho quando pensar na região de Seattle.

Costumo dizer que aqui eu me sinto numa bolha, como se estivéssemos “isolados” de algumas questões culturais americanas. Neste post, contarei as razões para eu me sentir assim.

Antes de morar em Seattle, eu achava que todos os americanos eram iguais. Sim, é da nossa natureza generalizar (também fazemos isso quando falamos dos brasileiros, né?). Mas veja bem, os Estados Unidos são uma nação de dimensões continentais, com variedade cultural e diferentes grupos étnicos. É óbvio que cada cantinho tem as suas peculiaridades.

Para a minha “sorte”, vim parar em uma região cheia de pessoas com valores parecidos com os meus. O povo daqui cuida da alimentação, é amigável, gosta de diversidade cultural, é bem engajado com as questões sociais e se preocupa em preservar o meio ambiente. Viram que bacana?

Vamos a alguns fatos que ilustram tudo isso que afirmei acima.

Seattle está entre as cidades mais saudáveis do país (mais especificamente em oitavo lugar, segundo a revista Forbes). A preocupação em alimentar-se de forma adequada, combinada com o hábito de fazer atividades físicas, faz com que o índice de doenças cardíacas e diabetes da população local seja bem menor do que a média do país. Obesidade não é um problema muito popular entre os seattleites.

Os imigrantes são super bem-vindos. Seattle faz parte de um grupo de cidades conhecido como Welcome America, que visa incluir os imigrantes na sociedade, de forma que eles tenham a oportunidade de contribuir para o crescimento do país e que sintam-se pertencendo à comunidade local. Sinceramente, essa foi uma grande surpresa para mim! Eu imaginava que existiria preconceito por ser da América Latina, mas posso afirmar que nunca aconteceu comigo – me sinto muito acolhida e aceita do jeito que sou.

Os seattleites, no geral, não são homofóbicos ou machistas. Sabe o que é melhor? Isso vem de anos! Eu já tinha contado neste post que em 1926 (início do século passado!) a cidade foi a primeira nos Estados Unidos a ter uma prefeita mulher (Bertha Landes). Mas a mente aberta não para por aí. O atual prefeito – Ed Murray, do Partido Democrata – é homossexual. Ou seja, a população parece ser bem aberta à diversidades.

O sistema de transporte público daqui é um dos melhores do país. Ainda não pode ser comparado com Nova York, Chicago, Boston ou Washington DC, mas é excelente para o padrão americano. Dá para abrir mão do carro tranquilamente.

Falando em transporte, a cidade tenta estimular cada vez mais o uso de bicicletas. O número de ciclovias está aumentando e com isso muitas pessoas estão aderindo ao uso de bicicletas para ir ao trabalho. Ótimo para o meio ambiente e para a saúde pública. Pode confessar, esse não é o estilo de vida americano que você imaginava.

Como se não bastasse, o prédio comercial mais “verde” (green building é a expressão em inglês) do mundo fica aqui em Seattle. Chama-se The Bullitt, no bairro Capitol Hill, sobre o qual eu falei mais aqui.  O prédio foi projetado para ser auto-sustentável, o seu sistema de processamento de água e esgoto é independente dos sistemas municipais e a energia é gerada através de painéis solares. Além disso, o prédio não tem estacionamento para carros, apenas para bicicletas.

Por último, você sabia que o projeto Buy Nothing (a tradução literal seria Compre Nada) começou aqui na região de Seattle? Para quem nunca ouviu falar, o Buy Nothing é uma comunidade que visa reduzir o consumo desenfreado de produtos novos, diminuir o desperdício e geração de lixo, além de estimular a conexão entre vizinhos.

Como funciona o Buy Nothing? Os grupos são criados no Facebook e separados por bairros ou regiões das cidades. O sistema é simples: o doador posta uma foto do produto que ele quer doar; os membros que estiverem interessados respondem (normalmente explicando porque precisam do produto em questão); por fim, o doador escolhe quem vai receber o “presente”. Também é permitido pedir doações, por exemplo: estou precisando de um secador de cabelo, ao invés de comprar, posso perguntar no Buy Nothing se alguém tem um secador para doar. Vai fazer mudança e precisa de caixas de papelão? Pode ser que algum vizinho tenha caixas sobrando. Eu acho isso incrível e garanto que super funciona. Obviamente é proibido vender (ou revender) qualquer coisa . O mais legal é que a ideia foi “exportada” e agora existe Buy Nothing no mundo todo. Ainda escreverei um post só sobre isso.

Confessem para mim, vocês imaginavam que Seattle fosse uma cidade tão legal? Eu tive que vir até aqui para descobrir esse monte de coisa bacana.

Espero que esse texto sirva para refletirmos. Será que não estamos generalizando demais? Seriam todos os indianos vegetarianos, todos os franceses antipáticos, todos os alemães frios e todos os brasileiros malandros? Eu tenho certeza que não.

3 Comentários

  1. Muito legal! Adorei saber! E quando cheguei aqui (vim do Japão para Alexandria, Virginia), cinco meses atrás, foi a primeira coisa que notei: “uai, cadê os americanos obesos e sedentários?” Todos os prédios onde vimos apartamento para alugar, nos arredores de Washington, DC, tinham academia de ginástica e piscina. Vi muita gente na rua correndo, fazendo caminhada, andando com o cachorro, ou simplesmente com roupa de ginástica, como se estivesse indo ou vindo da academia, e ainda gente andando de bicicleta e usando o metrô. Parques para todo lado e, nos supermercados, muitas opções de orgânicos, comida sem glúten e por aí vai. Foi uma surpresa maravilhosa! E, checando este ranking da Forbes que você citou, vi que DC está em segundo lugar (^o^)/

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