Trajetória de uma enfermeira brasileira em Londres

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Para chegar onde estou hoje, trabalhando como enfermeira em Londres, foi uma longa jornada com muitos obstáculos e ao mesmo tempo muito aprendizado pelo caminho. Tive um longo percurso, aprender o inglês, passar no IELTS, dar início ao meu processo de inscrição no conselho de enfermagem, aqui chamado NMC (Nursing and Midwifery Council), adquirir e traduzir todos os documentos requisitados, encontrar um local para fazer estágio, me matricular em uma faculdade e, sempre com o pensamento positivo, arrumar o primeiro emprego como enfermeira.

Tinha muita consciência que levaria tempo, mas iria valer a pena. Uma vez que melhorasse meu inglês, sabia que poderia trabalhar como Health Care Assistant, como se fosse técnico de enfermagem, para desenvolver o meu inglês. E foi isso que decidi fazer, continuei estudando  inglês pela manhã e trabalhava na parte da tarde.

Meu primeiro emprego foi numa Residential Home (asilo), numa empresa particular, o
que fez que eu desenvolvesse demais o meu inglês. Todos vocês sabem que pessoas idosas adoram conversar e claro me corrigiam quando eu falava algo errado.

Com muita dedicação e esforço, comecei a ter um diálogo (achava que não seria capaz de aprender esse idioma), passei no IELTS – que felicidade me lembro! – traduzi todos os meus documentos e diploma da faculdade e finalmente dei entrada no NMC, com boas notícias que o nosso curso do Brasil é reconhecido.

Com isso o conselho também decidia se seria preciso alguma complementação, podendo ser três, seis ou nove meses. E a notícia não poderia ser melhor, eu teria que fazer apenas três meses. Foram três meses de estudo e estágio supervisionado, conhecendo como o sistema de saúde funciona.

Tudo que você precisa saber para morar na Inglaterra!

Durante esses três meses, tive que fazer duas dissertações e tive um documento que
continha os procedimentos de enfermagem para serem assinados por um enfermeiro documentando que eu estava apta para realizar os tais procedimentos. Após concluir esse período, a universidade enviou todos os documentos solicitados para o conselho de enfermagem e a  licença para trabalhar finalmente foi emitida.

Gente, parece até que foi fácil agora que estou colocando tudo no papel, mas na verdade não foi não, foram dois anos (2004 a 2006) de muita persistência. Eu no fundo sabia que estava sendo uma experiência de vida incrível e se fosse para eu continuar a viver na Inglaterra tinha certeza que teria que ser melhor do que a minha vida no Brasil, senão não valeria a pena.

Depois dessa conquista, ser registrada no NMC, chegou a hora de realmente colocar tudo isso em prática e encontrar o meu primeiro emprego. Primeiramente tive que fazer um currículo nos padrões daqui. Foram vários currículos enviados, alguns convites para entrevistas.

No início ouvi vários comentários tipo “mas você precisa de experiência no Reino Unido”. E aí, como nada nessa vida vem fácil, logo pensei que seria mais difícil do que eu planejei, teria mais um longo caminho a percorrer.

Infelizmente não tive ninguém me guiando e muito menos me passando dicas de como tudo isso funcionava. Como estava trabalhando como Health Care Assistant, sabia que existiam agências para enfermeiros e resolvi começar por agência. Hoje vejo que fui muito corajosa.

Fui aceita e comecei a trabalhar pela agência. Cada dia estava em um hospital diferente, com normas e pessoas diferentes, mas continuei procurando por uma vaga permanente em algum hospital. Depois de meses trabalhando pela agência, recebi um convite para mais uma entrevista em um hospital particular. E quanta felicidade quando recebi a ligação que estavam me oferecendo uma vaga.

Hora de ir ao hospital entregar os documentos e pegar o uniforme que não tinha nada branco, era vestido lilás com chapéu, isso mesmo nem eu estava acreditando que naquele momento iria usar chapéu, hoje vejo que realmente fiz parte da história usando uniforme que foi tradição dos meados de 1800. Hoje não se vê mais o uso. E assim começou a minha jornada.

Em 2014 o processo para se cadastrar no NMC foi alterado. Para trabalhar no Reino Unido é necessário que se tenha toda documentação legal. Seguem algumas dicas de como funciona.

1- Requisito de idioma

Você deverá se comunicar de forma clara e eficaz em inglês. Precisa fazer o IELTS
(Sistema Internacional de Teste de Idioma Inglês) e atingir uma pontuação mínima
de pelo menos sete em todas as áreas.

2- Requisito de prática

No momento da inscrição, o candidato deve ter atuado como enfermeiro por pelo menos 12 meses após a qualificação. Esta experiência pós-registro deve ser relevante para o campo de atuação que o candidato solicita.

3- Requisito de registro £140.00

E necessário que o candidato seja registrado no conselho de enfermagem no país que
atua. Devem fornecer evidência de todas as práticas realizadas como um enfermeiro.
O programa deve ter no mínimo três anos de duração e conter um mínimo de 500 horas de prática clínica, o que deve ser evidenciado por uma transcrição do treinamento da instituição de ensino superior do candidato.

4- Teste de competência – primeira parte £130.00

Uma vez que os candidato tenha elegibilidade, poderá fazer um teste de conhecimento teórico-baseado na prática. O formato de teste será de múltipla escolha e pode ser feito em centros de testes em vários países. Os candidatos têm duas tentativas à prova. Se não atingir a pontuação mínima exigida após ambas as tentativas, deve-se esperar seis meses para reiniciar o processo de inscrição.

5- Teste de competência – segunda parte £992.00

A segunda parte do teste de competência avaliará o conhecimento clínico de um candidato. O teste é um exame clínico estruturado objetivamente (OSCE) e só pode ser realizado no Reino Unido. A OSCE simulará um ambiente clínico contendo cenários de enfermagem, além de estações de habilidades separadas. Cada exame clínico separado é conhecido como uma “estação”; e os candidatos circulam por todas as estações dentro de um prazo estabelecido. Cada uma das seis estações possui critérios de marcação padronizados contra os quais todos os candidatos são avaliados.

Resolvi escrever a minha experiência para inspirar vocês que dedicaram um tempinho do seu dia para ler esse texto e ter em mente que nada na vida é impossível, só devemos lutar pelos nossos ideais.

Leia a entrevista com Helena Oliveira, enfermeira na área de Oncologia, em Londres.

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Manuella é de Vila Velha/ES. É enfermeira formada pela faculdade Federal do Espírito Santo, pós graduada e especializada em terapia Intensiva geral e cardíaca.
Apaixonada pela vida, família, amigos, decoração de casa e festas. Adora levar as crianças para museus, bibliotecas, grupos de atividades, cinema e teatro. Autora do Blog Day by Day Nursing, onde escreve sobre assuntos técnicos de Enfermagem. Considera o seu trabalho um pouco estressante e procurando um equilíbrio deu início a dois projetos trabalhando com crianças: Little Teepee Party, festas infantis com aluguel de barracas e Baby Moves um programa único de desenvolvimento físico e
sensorial desenvolvido para bebês desde o nascimento até três anos. Iniciou também sua colaboração com a plataforma Brasileiras pelo Mundo escrevendo sua experiência de vida. Mora em Londres desde 2004 com o marido e os filhos.

2 Comentários

  1. Obrigada por compartilhar a sua história Manuela, como recrutadora de uma agência que contrata vários Healthcare Assistants estrangeiros (muitos deles formados em enfermagem em seus próprios países) sei que essa história pode ajudar muito eles entenderem melhor este processo de conseguir o NMC.

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