Um dia em Borgarfjörður, na Islândia

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Hraunfossar, as cascatas na lava. Foto: arquivo pessoal.
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Elogiar a natureza islandesa é praticamente pleonasmo, não importa quanto tempo você fique aqui, se dois dias ou 20 anos, concordará que é um lugar ímpar. Mesmo que você não goste de frio, que experimente um clima horroroso (isso não é difícil); que não se interesse por vulcões ou geleiras; que ache tudo muito caro – não há verdade mais absoluta do que isso em se tratando de Islândia – , impossível não encontrar pelo menos uma paisagem que lhe agrade.

Num outro artigo (clique aqui para ler), falei sobre o “Círculo de Ouro”, um dos passeios próximos a Reykjavik. Hoje, apresentarei uma região chamada “Borgarfjörður”, não distante da capital e de rápido acesso para quem está hospedado nela e deseja ir e voltar no mesmo dia. São 126 km, aproximadamente 1 hora e 40 minutos, de carro, até se chegar à primeira atração turística, as cachoeiras Hraunfossar. Um outro caminho, mais longo (um pouco mais de duas horas), passa pelo Fiorde da Baleia, o Hvalfjörður, que hoje abriga duas grandes indústrias de minerais (alumínio e ferro silício) e que, durante a segunda guerra mundial, era ponto de parada frequente para navios de marinheiros americanos e britânicos para abastecerem e descansarem, antes de seguirem viagem para a Inglaterra ou Rússia. Se estiver com bastante tempo, você pode conhecer a trilha que leva à bela cachoeira Glymur. A trilha não é muito difícil, mas não é aconselhável para pessoas com medo de altura e dura de 3 a 4 horas. Se não tiver interesse nessa trilha, prossiga em direção ao norte, para o próximo fiorde, o Borgarfjörður, onde estão os demais pontos turísticos do passeio:

1. Borgarnes

A primeira parada no fiorde Borgarfjörður pode ser Borgarnes, uma cidadezinha de 2.000 habitantes, cujas maiores atrações são a piscina pública e a exposição sobre o surgimento do lugar, em islandês “ Landnámssetrið”. Lá, você conhecerá a história do povoamento propriamente dito e do poeta guerreiro Egill Skallagrímsson, que cometeu seu primeiro homicídio aos 7 anos de idade! Se não se interessar pelo pequeno museu, pare só no posto de gasolina, use o banheiro ou coma um cachorro quente, e siga em frente.

2. Hraunfossar e Barnafoss

A palavra “foss” significa queda d’água; as Hraunfossar são, literalmente, as “cascatas da lava” e, Barnafoss, a cachoeira das crianças. Ambas se originam em Langjökull, segunda maior geleira da Islândia, com uma superfície de 953km², e que pode ser vista desse ponto de observação da “Hraunfossar”, embora a água percorra uns 17km desde a geleira até a queda d’água.

A água nem sempre está azul assim como na foto, geralmente, as cachoeiras originadas em geleiras têm água acinzentada, pois trazem muita areia, que é, geralmente, bem escura na Islândia. As Hraunfossar constituem-se de mais de 100 cascatas espalhadas ao longo de 900m de extensão do campo de lava formado por erupções de vulcões situados debaixo da geleira.

O rio onde desaguam as águas das Hraunfossar e Barnafoss chama-se “Hvítá”, que quer dizer “rio Branco”, justamente por causa dessa cor “prateada” (para sermos mais poéticos) da água.

A poucos metros dessas cascatas está a Barnafoss, a (literalmente) queda (d’água) das crianças, pois conta-se que, há muito tempo, uma senhora foi para a missa de Natal e deixou seus filhos sozinhos em casa. Quando voltou, não os encontrou mais e, com a ajuda de outros moradores da aldeia onde morava, constatou que as pegadas das crianças levavam a essa cachoeira, o resto da história, eu nem preciso contar.

Uma parte da cachoeira Barnafoss. Foto: arquivo pessoal.

3. Reykholt 

A menos de 15 minutos (mais ou menos 17km) das cachoeiras, está Reykholt, lugarejo onde viveu Sorri Sturluson, autor de famosas sagas islandesas, historiador, poeta e político, além de construtor da primeira piscina térmica a céu aberto em Reykholt, no início dos anos 1200! Dando uma paradinha em Reykholt, pode-se visitar uma exposição sobre Snorri e conhecer duas igrejas (a nova e a antiga, que não foi demolida por insistência dos camponeses da região) que são cartão postal de um dos lugares mais históricos da Islândia.

A igreja antiga de Reykholt. Foto: arquivo pessoal.
Os fundos da igreja nova de Reykholt. Foto: arquivo pessoal.
A “piscina” termal de Sonorri, “Snorralaug”, bem perto das igrejas de Reykholt. Foto: arquivo pessoal.

4. Deildartunguhver

Bem perto de Reykholt, encontra-se o maior gêiser da Islândia, e o de maior fluxo na Europa (180 litros por segundo), o “Deildatunguhver”. Não é espetacular, mas dizem ser o único lugar daqui onde cresce uma espécie de samambaia nórdica, imagine o quão exótico é ver uma samambaia ao redor de um gêiser nessa latitude do globo?
Lá, também, encontram-se algumas estufas que produzem legumes e verduras e você pode comprar tomates na barraquinha “self-service” que fica bem na frente do gêiser. Leve dinheiro trocado, um pacote com meia dúzia de tomates custa ISK 300. São deliciosos!

A barraquinha “self-service” de tomates. Você coloca o dinheiro na caixinha e leva tomates orgânicos deliciosos. Ninguém vigiando ou vendendo… Foto: arquivo pessoal.

5. A caverna Víðgelmir – The cave

O momento mais interessante do seu dia provavelmente será a visita à incrível Víðgelmir, a maior caverna vulcânica da Islândia e uma das maiores do mundo, com seus 1.600m de comprimento e 148.000m³.

As estalactites e estalagmites na lava jovem são bem diferentes das bem conhecidas em rocha calcária, por exemplo, assim como as cores e texturas das paredes da caverna, que às vezes dão a impressão de estarmos numa “sala de chocolate”. A temperatura dentro da caverna é bem baixa, no inverno ou verão, então, traga luvas e gorro (além de todos os casacos que se usam o ano inteiro na Islândia) para não passar frio. As visitas só podem ser feitas em companhia de guias especializados e um “tour” de 1,5 hora custa ISK 6.500, veja como reservar aqui. Vale muito a pena!

A parede de chocolate na caverna Víðgelmir. Foto: arquivo pessoal.
Estalagmites de gelo na caverna Víðgelmir só podem ser vistas do outono até a primavera. Foto: arquivo pessoal.

6. Húsafell

Não ria, nem pense que eu estou brincando, mas, em Húsafell, a piscina pública também é a uma das principais atrações turísticas; por menor que seja o lugarejo na Islândia, nele sempre haverá uma piscina pública, salvo raríssimas exceções – em breve, falo sobre a cultura do banho de piscina aqui na terra do gelo, aguardem.

Fora isso, Húsafell tem um campo de golfe, um camping e um hotel com um bom restaurante. E, se você tiver vontade e muita grana – a licença diária custa a partir de ISK 25.000 e chega a mais de ISK 120.000 – , pode também pescar salmão e/ou truta no rios Norðlingafljót, Hvítá, por exemplo, ou no lago HólmavatnInformações detalhadas encontram-se aqui. Se decidir pescar, lembre-se: esse é um esporte que exige muita paciência e, na Islândia, resistência ao frio, obviamente – bem, se você decidiu pescar, deve ser uma pessoa paciente por natureza, ou é masoquista. Agora, se der sorte e pegar um salmão ou trutas salmonadas, experimentará sabores divinos, esses peixes selvagens têm um gosto completamente diferente dos de cativeiro, garanto!

Se você não dirige ou não quiser/puder alugar um carro, várias empresas de turismo receptivo oferecem excursões para Borgarfjörður que custam a partir de ISK 13.500.

Desejo bom tempo e pouco vento! Feliz viagem!

2 Comentários

  1. Olá, Érika! Sou leitora nova por aqui e adorei seus posts! Vi que você é graduada em Letras, sua habilitação é Alemão? Estou tomando a decisão de cursar letras também, e pretendo trabalhar na Europa.

    • Olá, Ingrid,
      que bom, desejo boa sorte nos seus planos! Eu fiz cursos de alemão na Unicamp, e, depois, linguística na Alemanha. Se você pretende trabalhar com alemão, eu aconselho morar lá por um tempo, não dá para ter fluência nem trabalhar com tradução sem se inserir totalmente na língua e na cultura.
      Eu, pessoalmente, sou muito exigente com traduções e acho que você só consegue ser um bom tradutor quando consegue entender as piadas, a mentalidade e a vida política de um país.
      Muito obrigada por ler e comentar!
      Abraço

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