Violência contra a mulher no Peru

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Foto do meu acervo da marcha contra a violência da mulher , em Lima, Peru.
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O Peru é um país de mulheres muito fortes. Posso citar muitos exemplos, mas não quero ser injusta com nenhuma. É certo que poderá encontrar muitas delas em cada rua, vendendo seus alimentos, em cada cidade, nos Andes e na selva, mas a violência contra a mulher no Peru, existe.

É muito comum ver mulheres solteiras cuidando de seus filhos e trabalhando, sem a ajuda dos pais dessas crianças. Infelizmente, como em muitos países do continente, o machismo reina. Para os homens, tudo é permitido, incluindo “não ajudar” com seus deveres como pai e marido.

Os homens peruanos são altamente mimados por mães superprotetoras. As mesmas mulheres que sofrem com o machismo são aquelas que o cultivam em seus filhos e julgam as outras mulheres. Pasmem, uma parlamentar peruana, Maritza Garcia, presidente da Comissão de assuntos relacionados à mulher e à família, disse em relação ao feminicídio: “A mulher pode motivar ou provocar os ânimos de um homem normal”; “Escutei na reunião do dia a fala de um grande psicólogo e professor que diz que a mulher, sem razão ou sem querer querendo, dá a oportunidade ao homem para que se cometa este tipo de ato”.

Existe uma violência generalizada contra a mulher peruana. Das esterilizações forçadas, no tempo de Fujimori, à violência física e psicológica de seus homens, da Igreja, da política, da polícia e do sistema judicial peruano.

Em março, a manifestação “Ni Una Menos” (nenhuma a menos) estava à frente do palácio da justiça gritando: “Tire seu cartaz”. Naquele grande cartaz estavam palavras de condenação à violência sofrida por mulheres peruanas, mas, na prática, o sistema judicial não faz nada por elas. Em muitos casos, não existem sentenças. Por essa razão, elas pediram para tirar o cartaz mentiroso. A polícia também não ajuda, muitas vezes mulheres agredidas chegam à delegacia para dar queixa e são rejeitadas, constrangidas; não há socorro.

Em esterilizações forçadas, as mulheres peruanas foram enganadas e ameaçadas antes de terem uma ligadura de trompas contra sua vontade, em regiões com altos níveis de pobreza e maioria indígena. Isso ocorreu entre 1990 e 2000. Não houve reparação para as vítimas de esterilizações forçadas, até hoje.

No Peru, um país muito conservador e católico, há um bispo da Igreja Católica, chamado Juan Luis Cipriani, que em um de seus discursos, proclamou a culpa das mulheres que são violadas por não usarem roupas adequadas, e chamou as ministras de Estado de “respondonas”, condenando suas atitudes, mostrando-lhes o papel das mulheres na sociedade peruana.

Ele se esquece de que tudo muda e está nascendo, no Peru, movimentos feministas fortes. Até no próprio concurso Miss Peru 2017, as candidatas, em uma excelente ação de repúdio à violência contra as mulheres, ao invés de dizerem suas medidas corporais, relatavam em números os casos de feminícido, estupro, assédio etc. , como vemos neste video aqui.

Na passeata do “Nenhuma a menos” do ano passado, havia milhares de mulheres de todas as idades, nível social e escolaridade. Uma grande variedade de cartazes com palavras fortes, pedidos de justiça, fotos de mulheres mortas, espancadas e a vontade de colocar todas as suas forças na sua voz para reivindicar seus direitos. Foi muito forte! Esse ano será realizada uma nova passeata e as candidatas à miss estarão presentes. Foi uma experiência muito intensa compartilhar esse momento com aquelas mulheres que têm sede de seus direitos. Tenho muita esperança de que muitas mudanças positivas virão porque, essas mulheres fortes, elas merecem isso. Mas, ainda há muita luta.

Estive viajando com a família por povoados na região de Arequipa, canyon de Colca, estávamos em uma van de turismo quando avistei uma camponesa, na estrada, caminhando e carregando, em suas costas, uma imensa quantidade de lenha que estava amarrada com um barbante e, o seu chapéu, logo em cima de toda esse monte de madeira. Pensei, nossa, como é possível ela aguentar todo esse peso? E a guia logo foi comentando a cena e dizendo que as mulheres daquela região eram responsáveis por buscar a lenha pra fazer as refeições da família, enquanto o marido esperava sentado em casa. E que sempre elas são sobrecarregadas de trabalho, mesmo doentes ou no pós-parto. E a guia, como mulher e peruana, se mostrou tão indignada quanto a gente com a realidade dessas mulheres.

Mas, essa realidade machista está enraizada não só no campo, como nas cidades também. Em costumes cotidianos que podem ser relacionados à cultura, mas que colocam a mulher em um ponto de inferioridade e submissão, é comum que as mulheres da casa sirvam os pratos de comida aos homens que esperam sentados na mesa. E está tão intrínseco este hábito que elas nem percebem o que está por trás disso. Em muitas famílias peruanas, a refeição sempre é servida e preparada pelas mulheres, apesar dos grandes nomes da culinária peruana serem homens. Imagina quanta contradição, se esses homens nem entram na cozinha para fazer o seu próprio prato.

A peruana divorciada cabe resignar-se a cuidar dos filhos, porque refazer sua vida é quase impossível, tanto do ponto de vista da sociedade quanto jurídico. O vínculo do casamento é tão forte e complexo, no âmbito legal, que muitas enfrentam imensas dificuldades para desfazê-lo. Existem casos esdrúxulos no qual a mulher se vê abandonada pelo marido e não obtém o divórcio. Neste caso, o homem pode refazer sua vida, mas a mulher não.

Recentemente, viralizou um vídeo de um caso de violência doméstica. Em um bairro elegante da capital, um homem arrastou sua companheira pela calçada por vários metros, até chegar às escadas de seu edifício, quando se deparou com a vizinha, que fez a gravação e socorreu a vítima. O caso foi registrado na delegacia com a ajuda dessa mesma vizinha. Teve várias manifestações de repúdio, inclusive da Ministra de Estado, da mulher e de populações vulneráveis do Peru, Ana Maria Choquehuanca, que pediu apoio para mudanças, por esforço em conjunto dos poderes executivo e legislativo, para reforçar as leis para esse tipo de violência. Várias pessoas postaram em suas redes sociais a foto abaixo, demonstrando sua indignação.

Ilustração de Álvaro Portales difundida nas redes sociais de vários peruanos indignados

Depois de toda a caminhada na marcha da qual participei, “Nenhuma a menos”, estava pensando no meu país e em tantos outros onde ainda é tão difícil a vida das mulheres.
Brasil, um país que existe uma crença de liberdade e uma sociedade mais avançada e ainda não pode aceitar uma mulher presidente.

Dilma Roussef sofreu todo tipo de misoginia em campanhas na mídia. Ela foi insultada como uma mulher em fotos horríveis com pernas abertas, chamada histérica, atacada mesmo por ter uma posição muito difícil, lutar contra a corrupção, não se submeter às pressões da velha política brasileira suja e desafiar os podres que reinam hoje com uma coroa que não lhes pertence. Dilma fez tudo o que está proibido para uma mulher.

Com Hillary Clinton aconteceu da mesma forma. É verdade, também, na América. Todos os noticiários de seu país a chamavam de velha, falavam de suas roupas, mas o mesmo não acontecia com os homens que concorriam à mesma vaga. Porque os homens podem envelhecer e ter poder, mas para nós mulheres, ainda não há permissão.

Que tenham mais mulheres no poder, tomando decisões importantes, em um relacionamento sem violência e em um mundo com mais respeito para com elas.

1 COMMENT

  1. Oi Viviane. Seu texto é muito bom. Somente uma observação com referencia a sua citação da Hillary. Primeiramente concordo com você. O que mais me intriga é que as mulheres americanas brancas votaram e ajudaram a eleger um homem com um histórico enorme de assédio a mulheres. Então, mesmo aqui onde as mulheres já alcançaram direitos primordiais ainda é preciso revisar a questão de abuso psicológico contra a mulher.
    Um abraço.

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