Violência contra a mulher no Peru – Parte 2

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Imagem: Pixabay
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Violência contra a mulher no Peru – parte 2.

— Este é um complemento ao texto publicado pela colunista Viviane Naves. —

A cada dia, vemos mais casos de violência contra a mulher, e casos de feminicídio. No Peru não é diferente.

Lima é a quinta cidade mais perigosa para mulheres no mundo, segundo uma pesquisa feita pela agencia britânica Reuters. 

Segundo um informe publicado em 2013 pela Organização Mundial da saúde (OMS), o Peru é o terceiro país do mundo com maior incidência de delitos de violência contra a mulher. Só fica atrás da Etiópia e de Bangladesh.

Desde 2009, foram mais de 1023 casos de feminicídio, a maioria cometido pelos companheiros ou ex-companheiros dessas mulheres. De janeiro a outubro de 2017, foram registrados 300 feminicídios, 156 tentativas de feminicídio e 17.182 abusos sexuais. Detalhe para o fato de que três de cada quatro mulheres que denunciaram eram menores de idade e, entre elas, 60% eram adolescentes com idades entre 13 e 17 anos. Isso sem contar as que não denunciam!

O machismo ainda é muito forte entre os peruanos, e peruanas também, diga-se de passagem. Óbvio que há exceções, mas hoje falaremos da maioria.

Não é difícil encontrar inúmeras mulheres, brasileiras ou não, que se queixam de seus cônjuges peruanos. Já chegaram a mim alguns casos de brasileiras que se apaixonaram por peruanos pela internet, ou que os conheceram no Brasil, e lhes pareceram muito cavalheiros, atenciosos, amorosos, mas que, depois que vieram viver no Peru com seus companheiros, muitas vezes até com os familiares, a máscara caiu. Muitas voltaram pro Brasil após sofrerem agressões físicas e verbais, algumas fizeram queixas junto à polícia, sem obter resultado algum.

Uma vez, acompanhei uma amiga que me permitiu colocar o relato dela aqui, para fazer uma denúncia em uma delegacia em Lima, pois o namorado a tinha agredido física, verbal, e emocionalmente, e o policial que recebeu o depoimento dela fez o que? Riu na cara dela. O ex-namorado, posteriormente, foi até a delegacia e o policial disse que retiraria a queixa caso ele pagasse S/.600,00 e desse um “panetone” pra ele! Nem a advogada que minha amiga contratou fez a parte dela, como profissional: contou o caso ao namorado, que era amigo do ex, e este, por sua vez, contou tudo pra ele, o que o deixou ainda mais violento. E vocês me perguntarão: por que ela não terminou com ele quando fez a denúncia? Ela tinha um contrato de aluguel no nome dos dois, estava estudando e não podia abandonar o mestrado, além do que, ele não queria sair do apartamento pois estava desempregado, passando a dormir na sala e a ser ignorado por ela, que teve o apoio e proteção da senhora que trabalhava na casa. Trocou as chaves do apartamento, conseguiu mudar o contrato, terminou os estudos e voltou pro Brasil. E o ex? Bom, continua solto, aprontando com outras meninas desavisadas.

Os casos mais recentes foram o de uma senhora abusada sexualmente enquanto exercia sua função de pesquisadora durante o Censo Nacional, realizado no dia 22 de outubro, e no dia 06 de novembro, quando uma jovem voltava pra casa e um estudante de medicina a tocou no ônibus. Isso é muito comum aqui também, quando a menina disse que o denunciaria à polícia, ele respondeu: “Vou ser famoso”. O que passa na cabeça de uma pessoa dessas? Isso me causa nojo e revolta.

Engana-se quem pensa que esses casos só acontecem entre pessoas de baixa renda. Em outubro, um casal de classe média alta foi parar nos noticiários de todo o país, e até no Brasil. No caso, o homem foi filmado por uma vizinha arrastando sua então namorada pelos cabelos, em plena luz do dia, em um bairro nobre da cidade (Miraflores), porque ela não quis dar a senha do celular pra ele. Ela o denunciou, ele ficou preso dois dias, e já está solto. Por lei, o homem só fica preso durante 48hs, depois responde ao processo em liberdade.

A lei não ajuda. No início do ano foi criado o Decreto-lei Nro. 1323, que fortalecia a luta contra o feminicídio e crimes de ódio, qualificando como agravante e estipulando uma pena de até 15 anos para quem cometesse tal crime. Infelizmente, o Congresso derrogou.

E não são somente as mulheres que sofrem. O Ministerio de la Salud (MINSA) informou que a cada dez menores de idade que chegam ao Hospital del Niño, em Lima (bairro de San Borja), três são vítimas de abuso sexual. A família chega dizendo que a criança sofreu maus tratos, ou caiu e se machucou, mas os médicos acabam descobrindo que foram vítimas de violência sexual. A própria família é negligente, pois, na maioria desses casos, a violência é cometida por um familiar ou alguém muito próximo à família, mas eles têm medo de denunciar.

Isso também acontece com a maioria das mulheres. Não denunciam por amarem seus parceiros e acreditarem que o comportamento mudará; ou não denunciam por vergonha do que os conhecidos falarão; ou não denunciam porque acreditam que não haverá solução, nem punição, pois a justiça é falha e o agressor continuará solto e fará novas ameaças.

O coletivo Ni una menos –Perú , todos os dias, denuncia casos de tentativas de feminicídio, assédio sexual, violência sexual e feminicídios. Os comentários são incríveis: desde mulheres que defendem o agressor com comentários do tipo “ele teve motivos pra fazer isso”, e também de homens que nos chamam de “feminazis”, “homens também sofrem violência, homens também são assassinados”, “mas ela provocou, tava de saia curta”. Entre outros.

No Miss Perú deste ano, tivemos uma surpresa quando, ao invés de dizerem suas medidas, as candidatas protestaram e destacaram as estimativas de feminicídio, agressões e assédio sexual contra as mulheres, como pode ser assistido no vídeo abaixo:

O mais interessante disso tudo, é o que o Miss Perú foi transmitido por um dos canais com maior ibope do país e em horário nobre, o que proporcionou maior visibilidade sobre o tema no país. Muita gente desconhecia essas cifras.

No desfile com trajes de banho, a idealizadora do concurso salientou que as mulheres podem e devem se vestir como quiserem, e que, estejam usando biquínis ou não, homem nenhum tem o direito de objetificar uma mulher

Se você mora no Peru e já sofreu ou sofre algum tipo de agressão, ameaças, ou conhece alguém que sofra, denuncie, ou incentive a pessoa a denunciar. De acordo com a Lei Nro. 30364, aprovada em 2015, a polícia deve aceitar sua denúncia e também deve te acompanhar e verificar o que aconteceu.

O  Ministerio de la Mujer y Problaciones Vulnerables disponibiliza um número telefônico gratuito, a Línea 100 que está disponível 24hs por dia, durante os sete dias da semana, para atender casos de violência familiar e sexual.

Não deixe de denunciar. #NiUnaMenos.

4 Comentários

  1. Achei a iniciativa muito boa.foi um tema bem interessante. Essa história do homem ficar preso só por 48hrs pelo que eu sei acontece na Turquia também…é interessante que aconteça a mesma coisa no Perú mas é mais trágico do que interessante…

    • Obrigada Sofia! Infelizmente a justiça peruana caminha a passos lentíssimos quando o assunto é a violência contra a mulher. Mas a cada dia que passa mais e mais mulheres se unem para lutar por essa causa.
      Abraços!

    • Que bom que você gostou do texto, Sofia!
      Pois é, infelizmente as coisas aqui estão bema atrasadas nesse quesito mas, ultimamente, as mulheres vem se unindo e protestando.
      Me dá muito raiva, nojo, a cada dia que leio ou escuto notícias de que mais uma mulher foi agredida ou morta, e a gente não pode fazer nada.
      Mas continuaremos protestando e mantendo a esperança de que um dia a justiça nos escute. Apoiando as manas sempre! Abraços!

  2. Eu amo este site e acompanho diariamente os novos textos que são postados aquu, inclusive quando falam do Peru e da violência contra as mulheres.
    Eu fiz trabalho voluntário com crianças em Piura e passei 45 dias no país, convivendo com uma família peruana e viajando por outras cidades. O que me deixou mais triste foi o assédio, o feminicídios e o “pouco caso” na delegacia quando alguma mulher vai denunciar (aconteceu com uma brasileira que estava no grupo de voluntariado – riu da cara dela também). Eu soube dos assédios, através de uma amiga que tinha feito o mesmo trabalho em Piura.. mas eu não imaginava que era TANTO! A intensidade dos assédios aumentava de acordo com a minha roupa: calça jeans ou short. Piura é o nosso nordeste e faz um calor danado.. Eu só usei calça legging uma vez! O restante dos dias foram shorts e tentando ignorar as gracinhas do porteiro do condomínio, dos vizinhos, dos caras nas ruas (acompanhado ou não das esposas), do cara da farmácia, do mercado, do taxi e mototaxi…
    Não foi fácil não! Muitas vezes eu fui boca dura, mas dava medo do que poderia acontecer…
    As mulheres peruanas tem uma longa batalha pela frente! 💪#niunamenos

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