Vizinhos alemães: do paraíso ao inferno

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Nina chateada com os vizinhos alemães. Foto: Acervo pessoal.
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Começo este texto com tom de desabafo, pois vizinhos em qualquer lugar do mundo, eu sei, é um assunto no mínimo delicado. Eu escuto histórias de pessoas que têm grandes amigos vizinhos, fazem jantas e tudo mais, se dão bolos e presentinhos. E já tive isso, num passado não tão distante. Bem, vou contar minha triste história para vocês hoje, a mudança de vizinho bom para vizinho do capeta.

Quando nos mudamos para a Alemanha, alugamos, nos primeiros meses, um apartamento já mobiliado e com tudo que precisávamos pelo site AirBnB. Para quem ainda não conhece, eu super indico. Esse apartamento era bem fofo, num bairro residencial, tranquilo, com uma sacadinha maravilhosa e aceitava cachorros, pois deixamos bem claro para a dona do apartamento que a nossa cachorrinha chegaria depois de 3 meses. Tudo certo, tudo lindo!

Os vizinhos nesse prédio nos recepcionaram da melhor maneira possível, sendo simpáticos em primeiro lugar, solícitos e até carinhosos. Nunca recebemos um aviso para baixar o volume das vozes à noite, por tomar banho mais tarde, barulhos na sacada, etc. E tinha vizinhos de todas as idades, de crianças até os de 80 anos. Foi um período bem feliz nesse apartamento.

Quando a Nina chegou depois dos 3 meses, ficamos com medo que ela latisse sozinha enquanto meu marido trabalhava e eu ia para o curso de alemão. Fazíamos de tudo para ela ficar o menor período possível sozinha em casa, e nunca houve reclamações, pelo contrário, os vizinhos amaram ela! Uma alemã simpática do apartamento do lado, inclusive, me encheu de presentes para cachorro, bolinhas, escova, garrafinha de água com um bilhetinho fofo dizendo que eram muito grandes para seu mini cão e que eu deveria pegar para a Nina. Mais fofo impossível, né? Esse foi nosso paraíso, 6 meses morando nesse lugar cheio de pessoas queridas simpáticas e fofinhas. Mas não poderíamos morar em um AirBnB para sempre (até poderíamos, mas seria bem caro!). Procuramos muito e, no fim, encontramos um apartamento vazio, mais barato e próximo a esse que estávamos, no bairro bacana que já havíamos curtido.

Achar um apartamento aqui em Hamburgo é uma via sacra, realmente, bem complicado e demorado, ainda mais quando se tem um cachorro, se é jovem e imigrante, mas isso é assunto para outro texto, vamos voltar ao que interessa, os vizinhos. Com o apartamento achado, nós – mega felizes – teríamos, agora, um lar para chamar de nosso. Não que o outro não fosse mas, esse teria a nossa cara e tudo mais.

Viemos para o novo apartamento, que era bem maior que o anterior, com quarto e sala (o outro era um flat inteiro) e sem sacada, mas bem arejado e iluminado. Estávamos muito felizes, começamos a comprar as coisas pro apê, mobiliar e tudo mais. Nos primeiros meses que ficamos no apartamento, tiramos férias, então ele ficou meio fechado em 2 períodos de 17 dias cada, ou seja, silencioso e sem ninguém, pois nós 3 fomos para a viagem.

Quando voltamos recebemos minha mãe aqui – ela ficou 1 mês – e ai já começou uma amostra grátis do inferninho que iríamos passar: a vizinha de baixo da gente era a síndica, uma mulher de nenhum sorriso, carrancuda e que parecia estar sempre procurando algo para reclamar, sério. Mas o engraçado é que ela e o marido fazem MUITO barulho, e em horários noturnos, brigas e discussões que ouço perfeitamente daqui, mas nunca reclamei, óbvio.

Com a minha mãe de visita em casa, as reclamações começaram pequenas da parte da querida senhora síndica: barulhos depois das 22h e que a Nina não podia ficar sozinha, pois latia o TEMPO INTEIRO (ela dizia). Depois que minha mãe foi embora, uns 2 meses depois, recebemos 2 amigas do Brasil, e aí o bicho pegou. Eu não sei se essa senhora ficou com raiva, ciúmes, inveja, ou ela é assim mesmo, mas elas transformou a nossa vida num inferno num curto período de 10 dias. Vinha reclamar que estávamos CONVERSANDO muito alto, que a Nina estava CAMINHANDO muito no apartamento, mandou a imobiliária nos enviar uma carta com reclamações que andávamos passando aspirador e lavando roupa às 3h da matina (OI? JURA? Sou limpinha, mas limpar a casa na madruga já é demais!) e mais um monte de coisas na maioria das vezes mentirosas e absurdas. Ela nos infernizou, literalmente. Depois disso ficamos com muito ranço de vizinhos, sabe?

Tentamos conversar com ela, entender e explicar que aqueles barulhos não eram da minha casa que, sim, eu tinha um cachorro e a imobiliária sabia, mas que aspirador, máquina de lavar e um barulhos infinitos não era meus, mas não adiantou, ela nos pegou pra Cristo. Respondemos para a imobiliária, bem-educados, mas questionando algumas coisas e falando dos nossos direitos também. Eles não foram nada simpáticos mas nos explicaram as REGRAS de convivência saudável aqui: banho até as 22h, nunca depois, pois o barulho da água nos canos incomoda os queridos; tem horário de sesta (SIM!), entre 13h e 15h, todo dia, e claro, o barulho deve ser evitado; domingo é dia de descanso, então nada de limpar a casa ou ouvir música esse dia! Coisas que não sabíamos, mesmo, porque no Brasil temos horário de silêncio, óbvio, mas para tomar banho? Sesta? Domingo? Enfim, foi uma chuva de novidades bizarras que não fazíamos a mínima ideia, mas que com o tempo nos adaptamos.

Hoje, depois de uns meses desses ocorridos, nunca mais houve reclamações, nadinha, nem da imobiliária, nem da vizinha síndica querida e simpática (só que não) estamos bem com os vizinhos, nos cumprimentamos e já fizemos um amigão no prédio. Mas não foi fácil chegar a esse ponto! Eu digo que eu acredito que eles façam um teste de sobrevivência sabe? Isso de pegar no pé quando a pessoa chega é pra ver se ela tem força e foco para continuar morando aqui (algo assim) pois eita povinho difícil de lidar.

Cada dia que passa é uma descoberta, um novo modo de agir, uma adaptação. Mas seguimos na luta, ninguém disse que era fácil morar fora. Choque de culturas tá aí pra isso, e se vizinhos, na maioria das vezes, já são um pé no saco no Brasil, nosso querido país de origem, quem dirá na Alemanha, com língua, costumes e tudo diferente, não é mesmo?

Força na peruca e um beijo pra todos os vizinhos dessa Alemanha. Mais amor, menos tretas.

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Marcela, mas gosta que a chamem de Mah, é gaúcha de Porto Alegre e mora em Hamburgo na Alemanha há 1 ano. Publicitária por formação, mas hoje uma eterna freela e buscadora. Apaixonada por viagens, comidas, novidades e claro, cachorros. Casada com André e mãe da Nina (uma vira lata linda) está sempre em busca de algo pra descobrir e experimentar.

4 Comentários

  1. Caramba que veia chata hein?
    Eu ia cumprimentá-la em alemão e acrescentar em português: “vai dar pra relaxar” hahahaha
    Mas falando sério agora, acho que foi um teste mesmo e que bom que deu tudo certo.
    Bjs

    • Oii Ana! Bota chata nisso! heheheh E vontade de mandar longe é grande mesmo, e essa tua sugestão seria incrível! hahahah Mas a gente tenta manter a linha! E seguimos na luta! Um beijo e obrigada pelo comentário!

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