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Casos de xenofobismo na Alemanha

Casos de xenofobismo na Alemanha.

A história se repete, mas a memória é curta.

Em setembro de 2015, a Chanceler Federal Alemã, Angela Merkel, decidiu acolher centenas entre milhares de refugiados que, em situação de calamidade, fugiam de seus países. Desde então, mais de 1.3 milhão pediram asilo na Alemanha. A ideia inicial era de que os imigrantes permanecessem onde foram recebidos, no leste alemão, mais precisamente, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia. No entanto, quase oitenta por cento dos refugiados que receberam asilo nesse estado em 2015 acabaram migrando para outras regiões do país. O leste alemão, para aqueles que escaparam da guerra e da miséria, definitivamente provou não ser um destino atraente para quem quer recomeçar. Hoje, encontra-se refugiados em praticamente todas as regiões da Alemanha. E isso divide opiniões. Uma parte dos alemães apoia a política de acolhimento de Merkel, entre esses estão os mais jovens e com escolaridade superior; a outra, mais conservadora, mais velha, porém crescente, posiciona-se veementemente contra.

Os motivos dos alemães que rechaçam a política de asilo de Merkel são diversos, passa pela rejeição ao estrangeiro que é muito diferente de si em sua aparência, cultura, crença e hábitos, a questões de cunho econômico. Alguns acreditam que os asilados estariam onerando o país, pois o governo disporia de dinheiro da união para que essas pessoas pudessem viver aqui, mesmo sem trabalhar e gerar renda, o que não é verdade. Muitos já trabalham, principalmente os que conseguem dominar o idioma. Outros, mesmo sem o conhecimento da língua, fazem trabalhos não especializados. Sobre a parte econômica, pensionistas alemães se queixam que o valor de suas aposentadorias é menor do que a ajuda dada aos refugiados, o que também nao procede.

O fato é que desde a chegada dos refugiados, os alemães estão mais hostis com os estrangeiros. Claro que os estrangeiros suíços e dinamarqueses ou os que se parecem nórdicos e prescindem do apoio do estado alemão para viver, são sempre bem-vindos. Ouço alguns absurdos em relação a isso, ouvi alemães enfezados dizerem que o problema é que os refugiados não têm nada a acrescentar ao país, e que eles até seriam bem aceitos se trouxessem mão-de-obra especializada, dinheiro, ou conhecimento tecnológico. Acho que algum prêmio Nobel se daria bem aqui. Sim, meu amigo, você gostaria de refugiados suíços ou canadenses (só com alguma ironia, né?).

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Como sou também imigrante, percebo o olhar dos alemães àqueles que não são seus espelhos depois de Merkel ter aberto as fronteiras. As brasileiras que conheço têm dividido as mesmas impressões que eu. Temos sentido a intolerância dos alemães no dia-a-dia. Uma experiência recente aconteceu com uma amiga dentro de um ônibus. Ela estava sentada, distraída, olhando através da janela quando entrou uma senhora na casa dos seus setenta anos, tipicamente alemã, cabelo branquinho como a pele, olhos azuis, e se dirigiu a ela, em alemão, acreditando que ela não falasse alemão. Rudemente, perguntou por que minha amiga não voltava para a terra dela e o que estava fazendo naquele ônibus num horário daqueles (umas duas da tarde). Quis dizer que provavelmente minha amiga não trabalhava e vivia às expensas do governo alemão. Deu muito errado para a senhorinha, pois minha amiga brasileira mora aqui há dezessete anos, fala alemão como nativa e é professora.

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Outro dia, eu, passeando com minha linda vira-latas, fui interpelada de forma agressiva por uma vizinha de bairro. Ela saiu à porta de sua bela casa e disse que eu não poderia andar com a cachorra pelas calçadas, pois para isso era preciso que se pagasse impostos; insinuando que eu não tinha trabalho, não pagava impostos e por essa razão não teria o mesmo direito de passear sobre as calçadas que os alemães, com “pedigree”, passeiam com seus cães.

Há mais algumas histórias semelhantes a essas, mas acredito que os dois recortes dão conta de expressar o sentimento de hostilidade dos alemães para com os estrangeiros.

A história se repete, mas a memória é curta. No último ano da Segunda Guerra Mundial e logo após o seu término, mais ou menos 12 milhões alemães – alguns historiadores falam em 14 milhões – foram forçados a migrar de vários estados e terras europeias. Não havia opção, era sair ou morrer. Muitos, mesmo saindo, morriam de doença, fome ou violência. Chamavam essa migração forçada de Transferência Populacional, Limpeza Étnica ou Democídio. A expulsão dos alemães dos seus territórios foi a maior da história. Mas parece que eles se esqueceram que um dia também foram refugiados, que um dia também chegavam em outros países com o estômago e as mãos vazias.

Esqueceram-se que igualmente foram vítimas da guerra, da instabilidade econômica do pós-guerra, do totalitarismo, da miséria. Esqueceram-se que também buscavam países onde tivessem melhores condições de sobrevivência. Esqueceram-se que um desses países chama-se Brasil, para onde migraram, entre 1824 e 1972, cerca de 260.000 alemães mais precisamente, e que eles se sentiram atraídos por um lugar que parecia ser melhor, pela fartura de terras que havia por lá, pelo clima, pelo solo rico, o que significava identicamente uma oportunidade de fugir do martírio e de recomeçar. Em um de seus textos mais fecundos chamado “Recordar, Repetir e Elaborar”, de 1914, Freud, que presenciou posteriormente o terror da guerra e precisou da mesma forma fugir à revelia das perseguições aos judeus, nos indica os passos para que possamos nos libertar, ou ao menos abrandar, as reedições do sofrimento e da dor.

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