Expectativa X realidade após 1 ano na França – parte 1

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Fonte: foto por Stephen Leonardi no Unsplash
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Quando a gente muda para um país as expectativas são enormes. A gente pesquisa muito para entender um pouquinho de como será a nossa vida nesse novo lugar, faz todo um filminho de possibilidades na cabeça, mas a verdade é que as coisas nunca saem como imaginamos, seja para melhor ou pior. Isso acontece porque é simplesmente impossível imaginar de verdade como vai ser a nossa vida com uma mudança tão grande dessas, a menos que já tenhamos morado nesse lugar antes. Então, a primeira coisa que eu preciso dizer sobre meu um ano de França (agora já um ano e alguns meses) é que quase nada saiu como eu imaginei e mesmo assim tudo deu certo.

Expectativa X realidade:

1)    Falar francês:

  • Expectativa: eu vim só sabendo falar “bonjour” porque estava trabalhando muito antes de vir e não tive tempo de estudar, mas achava óbvio que em um ano eu estaria falando francês super bem.
  • Realidade: o emprego do meu marido me oferece duas aulas de duas horas por semana, o que ajuda, mas é pouco. Além disso, tenho amigos do mundo inteiro, menos franceses, o que não faz com que eu me sinta imersa na língua e na cultura. Claro que a minha situação é peculiar porque vim acompanhar o meu marido a trabalho e ele trabalha em um lugar bem internacional, quase sem franceses. Dito isso, meu francês melhorou muito, mas hoje tenho certeza que precisaria de, no mínimo, mais um ano de estudos para falar francês sem fazer tantos erros e usando confortavelmente alguns tempos verbais como condicional e subjuntivo. Ainda tenho muita dificuldade de falar ao telefone, de resolver algumas tarefas mais complexas no dia a dia e de entender os franceses quando eles falam rápido. Por outro lado, eu já posso ter refeições em franceses e faço quase tudo do meu cotidiano sem muito esforço.

2)    Viver sem trabalhar:

  • Expectativa: eu achei que seria bom ter mais tempo livre e atender apenas alguns pacientes online, já que eu estava trabalhando muito no Brasil e precisava de um descanso.
  • Realidade: de fato, hoje tenho uma qualidade de vida maravilhosa que jamais eu teria no Brasil, tenho mais pacientes online do que eu imaginaria, mas sinto falta de ter o dia cheio de trabalho. O tempo que me sobra tem sido ótimo para estudar coisas que eu nunca tinha tempo no Brasil e eu ainda consigo ter tempo para ir na academia, cozinhar e fazer trabalho voluntário. O saldo é que eu amo a qualidade de vida que eu tenho, mas sinto falta de me sentir mais produtiva.

Leia também: Jeitinho brasileiro e as regras francesas

3)    Qualidade de vida:

  • Expectativa: ter uma qualidade de vida melhor que a de São Paulo (meio fácil, né?). Embora eu ame São Paulo de paixão eu preciso admitir que eu tinha uma qualidade de vida ruim.
  • Realidade: é melhor ainda do que eu esperava. Quando eu morei na Itália, eu morei em uma cidade minúscula de 5 mil habitantes e eu já achava a qualidade de vida incrível, o problema é que a cidade não oferecia nada para os habitantes. Já Toulouse é incrível. Ainda falta o agito de uma metrópole, mas é uma associação ideal de uma cidade que possui um monte de restaurantes, teatros, cinemas, metro, trem, aeroporto com vôos low cost para a Europa inteira e que, ao mesmo tempo, se pode fazer tudo de bicicleta ou a pé. Isso não tem preço. Nunca imaginei que eu fosse gostar tanto de viver sem carro e que isso seria possível em uma cidade de porte médio (para padrões Europeus, grande).

4)    Custos:

  • Expectativa: eu tinha vindo duas vezes para a França como turista antes de vir morar aqui e só conhecia Paris e Estrasburgo. Sempre achei a França cara e tinha a expectativa de que seria caro morar aqui.
  • Realidade: a França é um país caro. Acho que o que mais me surpreendeu foi o preço do trem. Eu viajava muito de trem na Itália e era baratíssimo, o que me fazia ter a expectativa de viajar bastante aqui também. Não de fazer viagens grandes, mas de poder fazer viagens bate-volta gostosas, mas não conseguimos fazer com a frequência que gostaríamos. De resto, para mim funciona assim: o fato de não termos carro e da Mutuelle (seguro saúde) ser super barata deixa o nosso custo de vida mais barato. Também gastamos menos com academia porque aqui tem muitos parques para fazermos esportes ao ar livre e academia aqui é mais barata que no Brasil. Gastamos quase o mesmo com supermercado com a diferença de que comemos mais em casa aqui na França. Sair para jantar aqui em Toulouse é caro. Um bom jantar para dois com vinho sai por 100,00 euros.

Leia também: Tipos de vistos e residência na França

5)    Amigos:

  • Expectativa: não ter muitos amigos franceses.
  • Realidade: não tenho muitos amigos franceses. Acho que aqui tem uma mistura do quanto os franceses são fechados para estrangeiros e da minha condição aqui. Eu não trabalho, o que diminui as minhas chances de conhecer franceses e meu marido trabalha em um lugar muito internacional, então, os nossos amigos são todos estrangeiros. A parte chata é que eu gostaria de conhecer mais da cultura francesa e para isso só conhecendo franceses. A parte legal é que eu acabo conhecendo culturas do mundo inteiro. Eu sou uma pessoa aberta e costumo me esforçar para fazer amizades, então, depois de seis meses morando na França já tínhamos dois grupos de amigos, um de brasileiros e um de estrangeiros. Eu gosto de ter amigos brasileiros quando moro fora porque me sinto compreendida nas queixas e nas alegrias dessa vida no exterior e sempre dei sorte de encontrar brasileiros que eu me identificasse bastante.

No próximo post sobre as minhas expectativas na França falarei sobre o sistema de saúde, burocracia, cultura, viagens e sobre as minhas conclusões dessa jornada difícil e deliciosa. E você? Como eram as suas expectativas antes de mudar de país? Como é a realidade?

8 Comentários

  1. Fernanda,
    Muito legal sua experiencia.

    Mas pra mim o pior são os impostos que o brasileiro passa a ser taxado no Brasil, por ser agora um não residente fiscal e um residente fiscal na França.
    Temos uma vida la no Brasil (financeiramente falando) e não tem como deixar isso pra trás.
    Então se a pessoa tem patrimônios no Brasil fica complicado morar fora.
    Isso é o que mais pega…é algo mortal para um expatriado.
    E digo mais, 99% sai do país sem ter a mínima ideia destes problemas.

    • Oi Anderson, tudo bom?
      Muito obrigada pelo comentário. De fato, a gente esquece que acaba tendo dois domicílios fiscais. Eu também mantenho o meu no Brasil. Me conta mais da sua experiência, quem sabe eu não faço uma “parte 3” do meu texto. A parte dois já está pronta e eu não coloquei sobre impostos.

    • Oi Christian, tudo bom?
      Obrigada! Fico feliz em ajudar. A gente pensa em tanta coisa antes de mudar, mas tem certas coisas que a gente só descobre no cotidiano mesmo, não tem jeito. Meu objetivo foi de dar a minha visão para poder preparar um pouquinho quem está vindo para cá ou acabou de chegar. A parte dois do meu texto sai no mês que vem.

  2. Olá Fernanda! Excelente reflexão sobre morar fora do Brasil. Curto muito das suas postagens no blog. Estou me preparando para realizar um intercâmbio de francês em Toulouse e as suas observações sobre a cidade “rosa” me deixou expectativas boas. Obrigado. Carlos Jacques aqui dos pagos gelados do sul. Porto Alegre-RS.

    • Oi Carlos, obrigada! Toulouse é uma cidade incrível, eu adoro! Como você vem do sul, já vai estar mais acostumado com o frio daqui, porque no inverno fica frio de verdade. No mês que vem sai a parte dois desse meu texto sobre minhas vivências por aqui.

  3. Bom Dia
    Se eu viver na frança por 5 ou mais anos e trabalhar em Luxemburgo, caso eu peça a cidadania francesa, eu corro risco de perder a brasileira?

    Abraços

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