Minha introdução ao sistema de saúde alemão

4
238
acervo pessoal
Advertisement

Minha introdução ao sistema de saúde alemão.

Foi assim. Ao chegar na Alemanha em dezembro passado, começaram as documentações para o visto de permanência. Muitas visitas à prefeitura e uma papelada que só cresce passeando para lá e para cá entre consulado e prefeitura.

Depois disso feito, começa o processo reconhecimento da carteira de motorista brasileira. Esta sim, tão difícil quando passar no vestibular para faculdade pública no Brasil, mas isso é assunto para outro dia. Chega então o momento de fazer exames médicos de rotina. Marquei consulta com uma ginecologista que pode me atender só dali três meses, esperar alguns meses por um médico especialista é comum na Alemanha. Se precisar de um
psiquiatra ou psicólogo pode demorar ainda mais. Na consulta com a ginecologista, somente e exatamente os exames da área, Papanicolau, ultrassom transvaginal e toque nas mamas.

O bom é que todos os exames são feitos no próprio consultório e o resultado é anunciado na hora, só não há espaço para pedidos clínicos à margem desses exames. E eu tinha um pedido clínico simples, direto, fácil: precisava de uma receita para meu remédio para
rinite. Saí de lá sem. Qualquer perguntinha ou pedido que fuja daquela área que você foi consultar será respondida com outra pergunta: você já tem um médico de família? Meio sem jeito, como uma criança quando o professor manda pesquisar sua dúvida no livro ao invés de explicar, disse que ainda não, mas que iria providenciar.

A médica, sem rodeios, levantou-se da cadeira para anunciar que a consulta havia acabado, repete: você tem que buscar um médico da família. Entendi o recado, os dez minutos da consulta são destinados àqueles três exames; cabeça, membros e adjacências é assunto para outros profissionais.

Leia também: impostos na Alemanha

Como sou bem diligente, encontrei um médico de família próximo de onde moro e marquei a consulta assim que consegui um horário, o que significa esperar um ou dois meses. Tive sorte, um mês e meio depois, lá estava eu diante do médico que prescreveria àquela mísera receitinha que pedi à médica. Detalhe, já não precisava mais da receita.

Eu, sentada na cadeira em frente a ele, esperando o sinal de que devesse me pronunciar. Ele, olhando para a tela do computador por um tempo, deu o sinal, perguntou o que passava comigo. O que passava? Na verdade, o que passava era a necessidade de eu ter um médico de família, ponto. Ele confirmou a necessidade, pediu minha carteira de vacinação e, antes que eu tivesse tempo para me espantar, perguntou se as minhas vacinas estavam em dia. Carteira de vacinação? Gaguejei nessa hora. Que vacinas? Ele, um pouco impaciente: a tríplice, a da poliomielite, das hepatites, da meningite transmitida pelo carrapato, da gripe.

Leia também: tudo que você precisa saber para morar na Alemanha

Não sabia se ria ou se chorava, mas fiz apenas uma cara inocente seguida de um “nossa, não tinha conhecimento que precisava”. Nesse dia, fiquei sabendo que adulto aqui toma todas essas vacinas. Poxa, mas inclusive contra pólio? Sim, na Alemanha os adultos possuem uma carteira de vacinação como a dos bebês no Brasil. Para resumir o encontro, o médico então prescreveu que eu fizesse um exame de sangue completo – que é
realizado no próprio consultório, o que é muito prático – e marcasse uma nova consulta para fazer um check up e começar a tomar as vacinas.

Leia também: como obter o cartão azul para morar na Alemanha

Depois de uns dois meses, quando consegui horário para o retorno, fiz os exames de sangue e, dois dias depois, com os resultados no computador dele, me preparei para
encontrar de novo o médico de família. Era para ser tudo bem simples, ele veria os exames, faria o check up e a enfermeira – todo o consultório médico aqui conta com enfermeiras – aplicaria as vacinas.

Deveria estar às oito da manhã de uma sexta-feira pronta para tomar picadas de vacinas dolorosas. Obviamente, não estava nem um pouco a fim de passar o fim de semana com
dor no braço, especialmente por causa da vacina contra o tétano, que deixa o braço pesando cem quilos. Sem contar que não estava doente, e mesmo se estivesse, no Brasil não seria motivo para me despencar até um consultório médico.

Intimamente, pensei em não aparecer, ligar inventando alguma desculpa. Mas, daí, pensei na ginecologista e no rigor de sua voz quando pronunciou “médico de família”. Depois, lembrei ainda, no tempo que se espera por uma consulta. Achei, por bem, ir.

Naquela manhã chovia um pouquinho. Primeiro, decidi não ir de bicicleta. Em seguida, pensei que era só uns pinguinhos, igual garoa de São Paulo, e que já iria passar. Lembrei também que da primeira vez que estive lá, tomei um chá de cadeira de quase uma hora
pelo atendimento. Então abasteci a cesta da bicicleta com tudo que achava que poderia ser útil no caso de uma longa espera, livros, garrafa de água, celular, bolsa.

Preparada para a partida, montei na bicicleta e comecei a pedalar. Na saída do pátio de casa para a rua, percebi que estava com meus óculos de leitura no rosto e que não precisava deles para pedalar. Foi aí, que tirei uma mão do guidão, retirei os óculos e tentei colocá-los no bolso do casaco. Nessa pequena ação de segundos, perdi o equilíbrio e caí sobre a minha mão direita.

Meu peso, o da bicicleta e mais as coisas da cesta somados à velocidade da queda, resultou numa sobrecarga na mão e uma dor lancinante no braço. Ainda, sem me dar conta do que poderia vir após o rescaldo do tombo, levantei, juntei a bicicleta, recoloquei as coisas na cesta, subi na dita cuja e fui encontrar o bendito médico da família.

Leia também: salários na Alemanha

Surpresa um, não esperei nem dez minutos e fui chamada. Surpresa dois, não para mim, mas para o médico. Exultante, com os olhos fixados na tela do computador, ele me
disse: seus exames estão excelentes, você não tem nada. Com uma dor no braço que aumentava de intensidade numa velocidade intolerável, discordei, tenho sim.

Caí da bicicleta e machuquei o braço – nessa hora já estava certa que havia uma fratura, a dor denunciava isso. Ele, imediatamente, levantou-se e veio me examinar. Virou meu braço para um lado, para o outro, pediu que apertasse a sua mão, levantou minha mão para baixo, para cima, fez movimentos rotatórios onde vi estrelas e imaginei serem comparáveis a dor de um parto ou de um cálculo renal, para no final dizer: definitivamente, não está quebrado, mas faça uma radiografia nessa clínica ortopédica que vou te indicar só para ficar tranquila.

Minha leitura foi, ele pensa que estou exagerando como numa crise histérica, em que a dor é uma metáfora, e manda eu fazer um raio x só para que eu, com um dado de realidade, pare de me queixar da dor.

De qualquer forma, estava no lucro. Com essa queda, vou me livrar das vacinas e nem quebrei o braço. Só que não, antes que eu escapasse de vez, ele ressalta: precisa agora mais que nunca tomar a antitetânica, sua mão está ferida. Lá fui eu dar meu braço esquerdo ao sacrifício. Voltei para casa – nem acredito – de bicicleta!

A chuva ainda por cima apertou e a dor só piorava. Não tinha mais o que esperar, fui até a clínica ortopédica fazer o raio x “só para me tranquilizar”. Surpresa três, dessa vez a maior de todas. O ortopedista de semblante sério, olhando para as imagens do meu braço na tela do computador, me sai com essa: não vai precisar operar, é só uma fratura simples mesmo.

Chocada? Fiquei e ainda estou. Só agora entendi que especialidades médicas na Alemanha têm que ser respeitadas. Cada um só sabe e se responsabiliza pela sua área. Médico de família é para checar exames de laboratório, controlar carteira de vacinas, fazer encaminhamento a especialistas e prescrever receitas e atestados. Só.

Esse foi um grande aprendizado sobre a prática dos atendimentos ambulatoriais em terra alemã. O outro aprendizado foi descobrir a habilidade de digitar única e exclusivamente com a mão esquerda, enquanto a direita se encarrega do peso do gesso e da dor, que embora menor, ainda persiste.

Texto anteriorVem chegando o inverno norueguês
Próximo textoDicas para morar no México
Marcia sempre foi encantada pelas palavras e do que com elas se produz. Psicanálise, Literatura, Música e Cinema são seus companheiros inseparáveis. Foi gaúcha até os vinte anos, depois partiu para São Paulo e virou paulistana de coração. No sul, formou-se em Letras, e em São Paulo, em Psicologia e Psicanálise. No meio do caminho foi Comissária de Bordo. Cruzar céus de norte a sul fez despertar seu interesse por História e Geopolítica. Mora na Alemanha em uma casa muito antiga, que já foi até museu, com seu marido alemão e sua cachorra brasileira. Acha fascinante observar o modo de vida, os hábitos e o comportamento das pessoas em uma cultura tão diferente da sua. Adora escrever sobre tudo, mas os mitos e as narrativas que ouve em suas andanças por aí e a História dos lugares são seus temas mais caros.

4 Comentários

  1. Quanto ao texto da ex gaúcha o que tenho a dizer é que poderia ser muito mais objetivo, que texto ” autobiográfico chato” pra quem quer informações.
    Se isso era introdução nunca mais leio nada dela.

Deixe um comentário

Por favor inclua o seu comentário
Por favor escreve o seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.