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Alemanha

Os alemães são ciumentos?

Definitivamente, os alemães não são ciumentos. O ciúme, nos moldes que nós brasileiros conhecemos, não faz parte dos relacionamentos afetivos do povo alemão. Claro, sempre há exceções. No entanto, o ciúme não tem soberania nos relacionamentos dos alemães. Não é incomum aqui ex-maridos-mulheres-namorados-namoradas-ficantes conviverem numa boa e, caso os ex tenham novos parceiros, esses são integrados às relações anteriores. Há ex-marido que é amigo do atual marido da sua ex-mulher. Podem inclusive ser os melhores amigos em um grupo. Ex-mulher sai para passear com a nova namorada do seu ex-marido só para bater papo. É possível até que role uma queixa comum sobre o homem que ambas conhecem na intimidade.

Muitas vezes, os casais separados e seus novos parceiros não mantêm uma relação assim tão próxima, mas se estiverem juntos em uma mesma festa ou se se encontrarem por acaso em um bar, irão se cumprimentar e conversar cordialmente.

Também é fato corriqueiro que as famílias formadas pós separação e os antigos cônjuges saíam em férias juntos, especialmente se houver filhos das relações anteriores. Meio-irmãos costumam se encontrar frequência. Filhos frutos de outros relacionamentos são bem-vindos na casa nova do pai ou da mãe com seus parceiros atuais.

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Para citar um exemplo, meu marido e sua ex-mulher são muitos amigos e, por conseguinte, eu passei a ser sua amiga também. O primeiro marido dela é um dos melhores amigos do meu marido. Não nos encontramos com regularidade, mas quando há comemorações ou mesmo sem algum motivo especial, nos reunimos todos. Em aniversários, sempre nos cumprimentamos para celebrar a data. No início, confesso que estranhei um pouco, mas cedo percebi que não havia espaço para ciúmes na cultura alemã. Quando me queixei da proximidade dele com a ex, meu marido simplesmente respondeu que sempre foram, antes de tudo, bons amigos e que a relação amorosa/erótica havia acabado, mas que a amizade era perene.

Este seria um provável diálogo de um casal formado por uma brasileira e um alemão. Ela está de férias e ele não. Ela vai para o Brasil e ele vai ficar na Alemanha.
– em São Paulo você vai ficar onde?
– com amigos, uns dias na casa da Mariana e outros na casa do Beto.
– legal, manda um abraço para Mariana e outro para o Beto.
– tudo bem para você eu ficar na casa do Beto? Você não vai ficar com ciúmes?
– não, você disse que o Beto é seu amigo.

Chocados? Entendo. Mas a verdade é que os alemães dão legitimidade às palavras. Se você falou algo, eles vão acreditar no que você disse. Não tem esse negócio de decodificar ou interpretar o que se disse. As relações afetivas são alicerçadas na confiança, no respeito e, principalmente, na amizade. Se um alemão se interessar por outra pessoa, ele vai contar para você. E ele espera o mesmo de você. Os alemães levam um tempo para se aproximar das pessoas, são de poucos amigos e só estabelecem relações amorosas quando sentem que podem confiar no outro.

Contrariamente ao diálogo anterior, é improvável que os alemães se emocionassem com os versos de Augusto Branco, poeta brasileiro contemporâneo:
“Disfarço meu ciúme,
engulo tuas provocações;
O sangue ferve, sinto raiva,
mas não crio caso, não faço cena,
por que sei que no final da noite
eu vou te pegar de jeito
e te mostrar por que você é minha,
só minha.”
O poeta, em poucas linhas, denuncia os sentimentos de raiva e de posse que sustentam o ciúme. Não à toa, o ciúme já foi exaustivamente retratado nas artes, cinema, teatro e TV trazem em suas obras, personagens que encarnam o ciúmes. Tem canções, pejorativamente chamadas no Brasil de “música de dor de corno”, que representam os estados emocionais que os enciumados experimentam. Há, relativamente, uma certa autorização social ao ciúmes pelos povos latinos.

Roberto Carlos, nosso ícone da música pop, fez sucesso há mais de cinquenta anos com a música “Ciúme de Você”, que fala de um homem que sente ciúmes até dos vestidos da mulher. Curiosamente, essa música volta e meia é regravada por outros artistas mais jovens e continua fazendo sucesso. Isso para dizer que o ciúme é uma alegoria dos relacionamentos passionais. Uma geração anterior a minha arriscava dizer que o ciúmes era o tempero do amor, e isso atesta como o ciúmes, assim como o amor romântico, são, antes de tudo, construções culturais.

Há quem atribua a falta de ciúmes dos alemães a uma certa frieza afetiva, o que não concordo. Os alemães são surpreendentemente sensíveis. Mas, talvez, eles não romantizem o ciúmes, como nós latinos fazemos. É comum ouvir pessoas dizerem que se sentem valorizadas e amadas quando o parceiro é ciumento, uma vez que para muitas culturas o ciúmes é um signo de amor.

Acredito que a ausência de manifestação de ciúmes seria uma prova de que os alemães são mais progressistas que nós. Refiro-me ao progresso não apenas do ponto de vista científico e econômico, mas especialmente sob o aspecto social, condição vital para o aperfeiçoamento da relações humanas. Visto por esse ângulo, eles rechaçariam o ciúme por considerar que no seu extrato resida um sentimento de posse e doutrinamento, avesso a esse melhoramento nas relações. O que não discordo, absolutamente. No Brasil, os crimes “passionais” são a prova disso, especialmente nos casos de feminicídio, que têm em sua gênese quase sempre uma relação estreita com os sentimentos de posse e ciúmes.

O ciúmes pode fazer parte dos jogos amorosos, mas raramente é inofensivo, especialmente quando vem transvestido de amor. Não há ciúmes que seja, a longo prazo, inócuo. Quem sente ciúmes fica desassossegado, irritadiço, agressivo, e quem é o objeto do ciúmes sente-se vigiado, ameaçado, assustado. A desconfiança contida nas relações pautadas pelo ciúmes gera um mal-estar desmedido. Para o pai da psicanálise, uma das hipóteses para o ciúmes, era de que os enciumados e paranóicos com o medo de sofrer uma traição, estariam apenas projetando no outro o seu próprio desejo de trair, contrariando a máxima de que o ciúmes é uma vertente do amor.

Essa é só mais uma evidência de que romantizar o ciúmes não tem nada a ver com amar, o ciúmes fala mais sobre traços de uma herança cultural que reveste o amor romântico. Daí, que os alemães não são indiferentes ou frios quando amam. Mas a sua cultura tem na confiança em seu parceiro e como alicerce do amor os mesmos princípios que definem uma relação de amizade.

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1 comentário

Cintia Santos Abril 4, 2019 at 5:58 pm

Pelo que entendi você não tem outra alternativa a não ser aceitar sua compreensão rasa como verdade, né?
Morando no ambiente social dele o que lhe sobra é acreditar que a cultura é diferente da sua e que a proximidade com a ex, e até com as antigas namoradas que talvez você nem saiba que existam na vida dele, é só amizade.
Meio como a esposa satisfeita do macho alfa.
Conhecendo os homens como conheço sei que gostam de variar sempre de parceiras, sendo impossível o erotismo ter acabado, e o mais provável é que algumas vezes por mês o sexo aconteça enquanto ele lhe diz para aceitar a sua ausência em casa como “diferença cultural”.
Aliás a traição é uma coisa de que eles adoram e por isso transar com a ex- volta a ser interessante, principalmente ser for na sua cama.
Desculpe a sinceridade do que escrevi, mas achei por bem desvincular a nacionalidade dos atos machistas universais, e quem sabe até te desencantar dessa sua submissão machista e voluntária.
Homens não são fiéis sexualmente como regra, além do mais quando circulam no ambiente que dominam.
#machistasnaopassarao

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