Percepções sobre a solidão na Alemanha

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Percepções sobre a solidão na Alemanha.

Em agosto de 2017, o Jornal Nexo apresentou uma pesquisa mostrando que em 41% das casas na Alemanha mora somente uma pessoa. Nesse quesito, a Alemanha só perde para a Dinamarca, a campeã em mais casas com só um habitante, e para Finlândia, segunda no ranking. Como percebo essa tendência aqui na Alemanha? Honestamente, não com bons olhos. Já explico.

Há seis meses frequento uma escola em Karlsruhe, cidade com mais ou menos 310 mil habitantes. Grande, comparada com a que eu moro, Kuppenheim, que tem pouco mais de 12 mil. Todos os dias pego o trem de Kuppenheim para Karlsruhe, uns trinta minutos é o percurso até a estação principal de trem, e mais uns dez minutos em um Strassebahn (trem de superfície) até a minha escola.

Nesse trajeto, não me furto a observar as pessoas. Algumas vezes, me deparo com os mesmos rostos que de tempos em tempos deixam sua pequena cidade por algumas horas e rumam para a movimentada Karlsruhe. Nas cidades um pouco maiores, há centros de compras, pessoas passeando pelas ruas, barulho de carros, bicicletas disputando espaço com pedestres, crianças chorando, cachorros orgulhosos na companhia de seus donos, enfim há vida.

Não raro, mesmo havendo assentos duplos disponíveis, algumas pessoas sentam ao meu lado ou no assento em frente a mim e começam a puxar assunto, falam sobre qualquer coisa. Comum é expressar entusiasmo ou chateação com o tempo ou sobre as constantes obras urbanas que atrasam os trens e ônibus por aqui, mostrando claramente o desejo de conversar. Penso que talvez essas pequenas prosas sejam a oportunidade primeira do dia de ouvirem suas próprias vozes.

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Outra cena que desperta minha atenção para a solidão dos alemães são as mesas de cafés e restaurantes onde senta para comer só uma pessoa. Sob essa lente também devo parecer solitária. Antes da escola, gosto de me sentar em um desses cafés na rua principal de Karlsruhe, café bem típico alemão com mesinhas na calçada. Os fumantes apreciam.

Como sinto mais frio que calor, costumo sentar do lado de dentro e de lá observar as pessoas que frequentam esse café, assim como eu, quase que diariamente. Vejo sempre o mesmo homem em sua cadeira de rodas com sua xícara de café bebido acompanhado apenas do seu inseparável cigarro. Há também uma mulher que tem por volta de seus cinquenta anos, muito magra, rosto sofrido, que vejo sempre sozinha nesse café, com o olhar perdido e tragando vorazmente um cigarro atrás do outro. Ambos silenciosos. Esses nem tentam puxar conversa com ninguém.

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No centro de Karlsruhe, há também os andarilhos, homens e mulheres que estão doentes da alma e caminham sem destino pelas ruas largas da cidade, falam sozinhos, gritam, gesticulam. Muitas vezes, entram no Strassebahn numa estação para descerem em seguida na outra. Nesse pequeno atalho buscam algum interlocutor. Podem ficar imotivadamente bravos ou excepcionalmente alegres e começar a xingar ou a rir a esmo. Também sempre deveras escancaradamente sós. Estão sempre carregados de sacos e sacolas, como se estivessem prontos para viajar. Mas não, o destino é o próximo ponto de ônibus.

Fora esses, há os solitários melancólicos, conversam consigo mesmos, fazem a pergunta e eles mesmos ensaiam a resposta. Geralmente falam baixinho e quando percebem que estão sendo observados, dão um sorrisinho constrangido e procuram se controlar fazendo sua voz ficar quase inaudível. Mas ainda dá para ver o movimento dos lábios. De todos, os melancólicos são os que mais me comovem.

Morar só é uma mudança social relativamente moderna. Sabemos da tendência, especialmente nos países mais ricos. Mas há uma diferença entre morar só e viver só. Os exemplos que mencionei são os mais emblemáticos. No entanto, há também os solitários que sofrem pela falta de companhia, mas ainda assim conseguem aguentar o peso da solidão sem adoecer.

Na casa em que vivo, dividida em três apartamentos, mudou-se há pouco tempo uma senhora aposentada. Totalmente só no mundo. A família inteira já morreu. Faço aulas particulares de alemão com ela. Quando perguntei o valor da hora-aula ela me respondeu: não quero que você me pague com dinheiro, quero só companhia.

Claro que também há pessoas aqui que moram sozinhas, vivem mais sós do que acompanhada e que gostam de seu estado de solidão. Alegam que preferem gastar o seu tempo consigo mesmas, investindo libidinalmente apenas em sua bolha autística e, curiosamente, ficam bem assim. Até reclamam ainda que as companhias roubam sua paz interior e desestruturam o seu mundo externo.

Porém, aqui vim para falar da solidão que descrevi inicialmente, aquele que observo pelo caminho, da mesma em que alguns artistas e pensadores, mais sóbrios e solitários, também comungam. A solidão que dói na alma e corrói os ossos. Aquele tipo, insubordinado e atroz, cujo caráter inominável, irrepresentável e incoercível mal cabe dentro da gente. Incomoda, faz barulho, desespera, aflige e até alucina.

Para esse tipo cruel de solidão, tivemos autores de inestimável lucidez, sabedoria e uma boa porção de tristeza e solitude. Raquel de Queiroz, com aquela maturidade de quem já nasceu velha, diz: a gente nasce e morre só. E talvez, por isso mesmo, que se precise tanto viver acompanhado. Clarice Lispector, com seu estado de alma sempre melancólico, conclui: e ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a verdadeira solidão. O poeta Mario Quintana, quase no fim de sua vida, mas ainda muito lúcido, solta essa: viajar é mudar o cenário da solidão.

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Autorizada por Freud, quando de longa data já dizia que o artista precede o psicanalista, nessa minha reflexão, fico com a máxima de meu querido conterrâneo Quintana. Viajar, mesmo que seja entre uma estação e outra, pode transformar o cenário da solidão.

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Marcia sempre foi encantada pelas palavras e do que com elas se produz. Psicanálise, Literatura, Música e Cinema são seus companheiros inseparáveis. Foi gaúcha até os vinte anos, depois partiu para São Paulo e virou paulistana de coração. No sul, formou-se em Letras, e em São Paulo, em Psicologia e Psicanálise. No meio do caminho foi Comissária de Bordo. Cruzar céus de norte a sul fez despertar seu interesse por História e Geopolítica. Mora na Alemanha em uma casa muito antiga, que já foi até museu, com seu marido alemão e sua cachorra brasileira. Acha fascinante observar o modo de vida, os hábitos e o comportamento das pessoas em uma cultura tão diferente da sua. Adora escrever sobre tudo, mas os mitos e as narrativas que ouve em suas andanças por aí e a História dos lugares são seus temas mais caros.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito legal o texto,espero que isso mude,não é atoa que os índices de suicídios em países desenvolvidos são mais altos que os sub ou não desenvolvido.(principalmente na Finlândia

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